sábado, 14 de março de 2026

Quarenta dias

                                                          

         Vou caminhando com meu headphone quando ouço alguém me chamar. A voz, embora jovial, soa feia.

            Ela insiste. Eu me abrigo sob um oiti desmilinguido.

            Um carinha de abadá atravessa a rua num trote apressado. Nunca vi mais magro.             
            Contrariado, pauso meu rockzinho antigo – “que não tem perigo de assustar ninguém”.   
            — Você trabalha naquele prédio ali, né?

            Mais que pergunta, uma afirmação.

            Ele para diante de mim, o suor escorrendo pela testa.

            Quem é esse sujeito que sabe meu nome e onde trabalho? – penso, ressabiado. 

            — Cara, passei na última seleção de estágio. Agora tô esperando ser chamado. Mas ninguém me mandou mensagem. Demora muito?

            — Olha, companheiro, não trabalho com isso. Essa parte é lá com a administração. E, pra ser franco, nem fiquei sabendo que publicaram o edital.

            — Faz mais de um mês que teve a prova. Até hoje tô sem notícia.

            — Telefona e pede pra falar no ramal 20.

            — Ontem passei mensagem pra Ivanildes. Ela ficou de ver isso pra mim. A gente mora na mesma rua.

            Coitado. Ninguém merece uma vizinha dessas.

            — Gente muito boa ela, né? Prestativa demais da conta. Todo mundo lá no bairro gosta muito dela.

            Conto ou não conto a esse iludido que "cobra perto dela é bicha bom", como dizia Dona Armênia?

            — Ivanildes falou que tem uma vaga no setor dela. E que, se eu for chamado, vai me ensinar o serviço todo.

            Ah, companheiro, se você soubesse o que esta senhora aprontou com a última estagiária… Por pouco não respingou em mim. 

            — Ivanildes dá catequese na igreja, participa do grupo de cursilhistas... Muito generosa, vive organizando arrecadação de alimento e roupa na nossa paróquia. Agora mesmo tá ajudando os desabrigados da enchente.

            Vou contar é nada. Não adiantaria mesmo. 

            — Anteontem foi aniversário da minha vó. Ivanildes foi lá em casa com uma lembrancinha. Conversa vai, conversa vem, comentou que não tá tomando refrigerante nem comendo carne e doce. Estranhei; perguntei por quê. Ela disse que faz intenção na quaresma.

            Um caminhão entra pela contramão. Olho para o Cristo pintado na traseira do baú.  

            Ó, Senhor... de que adianta renunciar à carne e ao açúcar por quarenta dias e quarenta noites se, no resto do ano, faz um inferno na vida dos colegas?

            — Você trabalha com ela?

            — Infelizmente.

            — Oi?

            — Companheiro, me desculpa, mas estou atrasado.

            — Então... pra quem eu pergunto do estágio?

            — Faz o seguinte: liga pra sua vizinha. Altruísta e penitente como é, ela dá um jeitinho.

            E, pra não lembrar de Ivanildes, atravesso a rua cantarolando:

            Let me sing, let me sing

            Let me sing my rock 'n' roll.




Texto: Raphael Cerqueira Silva

Imagem: criada pelo CHATGPT

Quarenta dias

                                                                      Vou caminhando com meu headphone quando ouço alguém me chamar. A voz,...