Vou caminhando com meu
headphone quando ouço alguém me chamar. A voz, embora jovial, soa feia.
Ela insiste. Eu me abrigo sob um oiti desmilinguido.
Mais que pergunta, uma afirmação.
Ele para diante de mim, o suor
escorrendo pela testa.
Quem é esse sujeito que sabe meu
nome e onde trabalho? –
penso, ressabiado.
— Cara, passei na última seleção de
estágio. Agora tô esperando ser chamado. Mas ninguém me mandou mensagem. Demora
muito?
— Olha, companheiro, não trabalho
com isso. Essa parte é lá com a administração. E, pra ser franco, nem fiquei
sabendo que publicaram o edital.
— Faz mais de um mês que teve a
prova. Até hoje tô sem notícia.
— Telefona e pede pra falar no ramal
20.
— Ontem passei mensagem pra
Ivanildes. Ela ficou de ver isso pra mim. A gente mora na mesma rua.
Coitado. Ninguém merece uma vizinha
dessas.
— Gente muito boa ela, né?
Prestativa demais da conta. Todo mundo lá no bairro gosta muito dela.
Conto ou não conto a esse iludido
que "cobra perto dela é bicha bom", como dizia Dona Armênia?
— Ivanildes falou que tem uma vaga
no setor dela. E que, se eu for chamado, vai me ensinar o serviço todo.
Ah, companheiro, se você soubesse o
que esta senhora aprontou com a última estagiária… Por pouco não respingou em
mim.
— Ivanildes dá catequese na igreja,
participa do grupo de cursilhistas... Muito generosa, vive organizando
arrecadação de alimento e roupa na nossa paróquia. Agora mesmo tá ajudando os desabrigados
da enchente.
Vou contar é nada. Não adiantaria
mesmo.
— Anteontem foi aniversário da minha
vó. Ivanildes foi lá em casa com uma lembrancinha. Conversa vai, conversa vem,
comentou que não tá tomando refrigerante nem comendo carne e doce. Estranhei;
perguntei por quê. Ela disse que faz intenção na quaresma.
Um caminhão entra pela contramão.
Olho para o Cristo pintado na traseira do baú.
Ó, Senhor... de que adianta
renunciar à carne e ao açúcar por quarenta dias e quarenta noites se, no resto
do ano, faz um inferno na vida dos colegas?
— Você trabalha com ela?
— Infelizmente.
— Oi?
— Companheiro, me desculpa, mas
estou atrasado.
— Então... pra quem eu pergunto do
estágio?
— Faz o seguinte: liga pra sua
vizinha. Altruísta e penitente como é, ela dá um jeitinho.
E, pra não lembrar de Ivanildes,
atravesso a rua cantarolando:
Let
me sing, let me sing
Let me sing my rock 'n'
roll.
Imagem: criada pelo CHATGPT
