poeta não sou
sou?
chamam-me assim:
poeta...
sei não
poeta?
poeta pensa
poesia e
põe
prosa no papel?
Raphael Cerqueira Silva publicou Confissões (livro de contos). No blog, posta semanalmente crônicas e poemas.
Linguiça,
pernil, alcatra, contrafilé, coxão mole... Tudo em promoção: assim berra o
anúncio, em patrióticas letras verde-amarelas, no meu feed.
Hoje
é domingo. Pelo badalar irritante do sino, tem missa. Praia e céu de anil, porém,
só na canção do Raulzito. Por cá, o tempo se fechou em rigoroso inverno. Mesmo
assim, aparece um sujeito — cabelo na régua, descamisado, short, Mizuno
colorido, headphone trincando de novo — correndo num reel mal gravado e falando
pra câmera que “tá nubladin e nós tá como?” Melhor guardar para mim o adjetivo.
Enquanto
o vizinho desce a escada assoviando feito a cigarra da fábula, visto a roupa de
sempre — t-shirt, blusão de moletom, calça jeans, boné e o primeiro tênis que encontro
pela frente —, pego as chaves e a carteira. Apesar do vento frio e da completa falta
de vontade de socializar, preciso ir à rua.
Um
velhote cochila no banco da praça; uma senhorinha, toda empertigada, caminha
sob o arvoredo; um bobalhão ri para a tela do celular enquanto outro comenta
que “a seleção deu uma puta sorte de pegar o Marrocos naquele dia”. E eu, que
nem sabia que a terra da Jade e do Tio Ali estava participando da Copa, passo
batido.
Duas
moças passam correndo por mim. Devem ser do time do bestalhão que vi ainda há
pouco no Instagram. A que vai à frente até que é bonitinha... Um Corolla branco
buzina. Como sempre, respondo com um aceno, sem saber quem é.
Atravesso
a rua.
Na
porta do mercado, encostada num carrinho vazio, uma mulher de moletom.
“Ei,
moço, faz favor”.
Paro
e a observo. Não tem cara — nem jeito — de pedinte.
“Bom
dia. Tô precisando de ajuda pras cinco crianças que tenho em casa. Né dinheiro,
não. Já ganhei uma cesta básica e queria uma ajuda com a carne. Pode ser um
pouquinho só.”
Me
enganei: ela quer pedir, sim. Aliás, o mundo só sabe pedir. Pedem atenção,
pedem dinheiro, pedem likes, pedem tolerância, pedem benefícios, pedem carne...
Emprego, alguém ainda pede?
Digo
que vou ver o que posso fazer.
Entro
no mercado.
Há
fila no açougue. O povo acordou cedo para aproveitar a promoção e queimar uma carninha
durante o jogo. Sim, futebolístico leitor, eu sei que a Seleção joga hoje — não
sou tão alienado assim.
Coloco
queijo, pão, rosquinhas de coco, latas de sardinha na cesta. Falta alguma
coisa? Ah, sim: o mel. Mas aqui está caro.
Desvio
dos pacotes de carvão — também em promoção — e esbarro na bolsa de uma figura,
que me olha com desdém.
Súbito,
lembro da infeliz lá fora, tomando vento frio e pensando — talvez — na carne
das cinco crianças.
Volto
à gôndola dos biscoitos.
Pego
um pacote de Ninfa. Não é carne, mas tem leite. Segundo minha nutricionista,
ambos são fonte de proteína.
Passo
novamente pela figura, que torna a me encarar com o mesmo desdém. Mentalmente,
mando-a para o inferno.
Pago
no cartão e peço à atendente que coloque o pacote de biscoitos numa sacola
separada. É para doação, digo. Ela me olha como quem pensa: “Outro trouxa”.
Volto
à calçada.
Agora
são duas encostadas no carrinho.
Entrego
a sacola à moça; comento que não deu para comprar a carne. Ela agradece e diz
que “Jesus vai me dar em dobro”. Respondo com um amém chocho.
Enquanto
desço à rua, ouço-a dizer para a outra: “Carne ele não comprou.”
Apresso
o passo.
O
relógio exige velocidade. Grudado às paredes, à cata de sombras, vou pela
avenida feito uma lagartixa. O suor brinca na testa, escorre pelas costas. Só
me alivio quando passo sob as raras marquises.
Fom fom
Não
olho, afinal, não me chamo buzina.
Fom
fom fom
Prestes
a mandar o engraçadinho para o quinto dos infernos, noto um Citroën branco
encostar no meio-fio. O insulfilme baixa; um rock das antigas escapole.
— Carona?
Os dentes de cavalo não impedem os perdigotos
de saltarem à calçada. Detesto gente que fala cuspindo — e gente que dirige com
som alto e ainda cospe enquanto fala é insuportável. Mas, como diria o outro, a
ocasião faz o ladrão. Melhor aceitar a carona que seguir debaixo dessa lua.
Doutor
Enildo atira no banco traseiro a pasta, o celular e autos de processos que já deveriam
estar arquivados há décadas.
—
Calorão da porra, né? Bom pra ficar de boaça na piscina, tomando umas e outras
com as novinhas.
Ele grita, tentando vencer os acordes do
Guns. Não sei o que me irrita mais: o volume ou a mania de falar como
garotão? Não tem espelho em casa? São perguntas que me faço enquanto ele avança
sem esperar os outros carros.
Olhando
para o retrovisor — que ele tanto ignora — penso: sujeito ridículo.
Doutor
Enildo avança o sinal vermelho. Agarrado ao banco, calculo: farei quarenta e quatro
no fim do ano e, salvo engano, quando entrei na faculdade ele já estava no antepenúltimo
período...
— Mas você vem a pé todo dia?
A
pergunta interrompe minha matemática.
Acostumei,
balbucio.
— Conta outra, cara. Ninguém acostuma
com um calorão desse.
Aprendi que, em Roma, faça como os
romanos. Acrescento que caminhar é saudável, que chego no expediente com a
mente mais arejada...
— Conversa mole. Se bem que você sempre
foi meio excêntrico. Tinha umas ideias à margem da normalidade.
Esse doutorzinho de meia-tigela me
chamou de doido ou o quê? Nunca lhe dei liberdade para falar assim. Penso em impor
um limite mas, ao ver o painel e o volante salpicados de cuspe, desisto.
— Você precisa comprar um carrão
maneiro. Dinheiro pra isso você tem. Ganha bem, eu sei.
Gosto de andar a pé, retruco.
— Carro ajuda a pegar mulher, sô. E você
tá sempre sozinho. Isso não faz bem pro brinquedo.
Ele
ri de um jeito indecente e aumenta o som.
Tento
me concentrar no assobio de Wind of Change, evocar o tempo em que não
precisava conviver com esse pau-de-bosta.
—
Se bobear, faz tanto tempo que você não tira uma que já empedrou tudo aí
dentro.
Esqueço a música, os perdigotos, os bons
tempos e, ao me virar para dizer poucas e boas…
Criiiiich
Por
um triz não esbarramos na moto. E, justiça seja feita, desta vez Enildo estava
certo: sinalizou à esquerda; reduziu a velocidade; ao convergir, contudo, o
motoqueiro avançou.
— Seu viado, filho da puta! – grita, agarrado
ao volante.
O
imprudente dá meia-volta e emparelha à janela:
— Por que cê me xingou? Eu te xinguei?
Olho imediatamente para o relógio no
painel, já temendo o atraso no registro do ponto.
— E xingo de novo, seu merda. Como você
enfia assim na frente do carro? Não viu a seta, não?
— Não aceito que me xingue, tá ouvindo?
— Ah, vá se foder. Pega a reta e some,
mermão.
Doutor Enildo arranca. O abusado emparelha
novamente.
— Tá me xingando por quê? Desce aqui pra
gente acertar as contas.
A
moto atravessa à frente, impedindo a passagem.
Vai
dar BO, penso.
Desde
pequeno tenho pavor de briga. Enquanto a molecada se engalfinhava na saída da
escola, eu — imaginando sangue e porrada — passava cabisbaixo e apressado.
— Desce aqui. Cê num é macho?
— Vou te mostrar o que eu tenho guardado
aqui, seu vagabundo.
Doutor
Enildo destranca o porta-malas. Antes de descer, porém, o valentão já se
escafedeu na ruazinha vicinal.
— Marginal filho da puta!
As pessoas na calçada olham; outros motoristas
reduzem para olhar também.
— Vagabundo desgraçado!
Deixo
Doutor Enildo — Can’t Stop Lovin’You como trilha sonora — dando seu show.
Cabisbaixo
e apressado, atravesso a rua.
Não
quero descobrir o que tem no porta-malas.
Vou caminhando com meu
headphone quando ouço alguém me chamar. A voz, embora jovial, soa feia.
Ela insiste. Eu me abrigo sob um oiti desmilinguido.
Mais que pergunta, uma afirmação.
Ele para diante de mim, o suor
escorrendo pela testa.
Quem é esse sujeito que sabe meu
nome e onde trabalho? –
penso, ressabiado.
— Cara, passei na última seleção de
estágio. Agora tô esperando ser chamado. Mas ninguém me mandou mensagem. Demora
muito?
— Olha, companheiro, não trabalho
com isso. Essa parte é lá com a administração. E, pra ser franco, nem fiquei
sabendo que publicaram o edital.
— Faz mais de um mês que teve a
prova. Até hoje tô sem notícia.
— Telefona e pede pra falar no ramal
20.
— Ontem passei mensagem pra
Ivanildes. Ela ficou de ver isso pra mim. A gente mora na mesma rua.
Coitado. Ninguém merece uma vizinha
dessas.
— Gente muito boa ela, né?
Prestativa demais da conta. Todo mundo lá no bairro gosta muito dela.
Conto ou não conto a esse iludido
que "cobra perto dela é bicha bom", como dizia Dona Armênia?
— Ivanildes falou que tem uma vaga
no setor dela. E que, se eu for chamado, vai me ensinar o serviço todo.
Ah, companheiro, se você soubesse o
que esta senhora aprontou com a última estagiária… Por pouco não respingou em
mim.
— Ivanildes dá catequese na igreja,
participa do grupo de cursilhistas... Muito generosa, vive organizando
arrecadação de alimento e roupa na nossa paróquia. Agora mesmo tá ajudando os desabrigados
da enchente.
Vou contar é nada. Não adiantaria
mesmo.
— Anteontem foi aniversário da minha
vó. Ivanildes foi lá em casa com uma lembrancinha. Conversa vai, conversa vem,
comentou que não tá tomando refrigerante nem comendo carne e doce. Estranhei;
perguntei por quê. Ela disse que faz intenção na quaresma.
Um caminhão entra pela contramão.
Olho para o Cristo pintado na traseira do baú.
Ó, Senhor... de que adianta
renunciar à carne e ao açúcar por quarenta dias e quarenta noites se, no resto
do ano, faz um inferno na vida dos colegas?
— Você trabalha com ela?
— Infelizmente.
— Oi?
— Companheiro, me desculpa, mas
estou atrasado.
— Então... pra quem eu pergunto do
estágio?
— Faz o seguinte: liga pra sua
vizinha. Altruísta e penitente como é, ela dá um jeitinho.
E, pra não lembrar de Ivanildes,
atravesso a rua cantarolando:
Let
me sing, let me sing
Let me sing my rock 'n'
roll.
Imagem: criada pelo CHATGPT
A noite, ai,
morre fria
pingam
indecentes ecos
de anistia
estremeço, não ouso
levantar:
melhor seria
sonhar
como?
se ainda
pingam
anistia, anistia
anistia
Passeio
entediado pelo feed até que uma manchete fisga minha atenção: Bombeiros
combatem incêndio em restaurante no London.
É
onde mora Açucena do Carmo — última casa, na última rua. Se bem que, técnica e
geograficamente, não mora: se esconde.
Envio-lhe
o post. Imediatamente, ela responde:
—
Isso foi agorinha! Dava pra ver a fumaça daqui. Tô achando que esse incêndio
foi criminoso... Tá estranho isso. Tem peritos lá agora. Minha amiga, que mora
em frente, me falou.
Às
vezes tenho a impressão que Açucena passa o dia on-line.
—
Hoje em dia o que mais tem é adulto infantilizado. Você não pode falar nada! Não
pode chamar atenção, que emburra. Isso quando não mata. Tá uma matança danada! Ontem
mesmo tive problema na escola: chamei atenção duma menina. Ela entregou a
atividade toda rabiscada. Falei: “Você não tá mais na idade de rabiscar.” Em
todas as minhas aulas ela faz esses rabiscos... Hoje veio o pai e fez o maior
escarcéu! Então, tô achando que esse incêndio pode ser criminoso.
Enquanto
grava outro áudio, cantarolo baixinho: “Eu não consigo entender sua lógica.”
Afinal, qual a relação entre os rabiscos escolares e o restaurante incendiado?
—
Porque não pode mais falar nada com funcionário! Tá difícil ser empreendedor
nesse país. Tudo eles querem dinheiro, tudo eles te processam. Eu tô achando
que foi algum funcionário que fez isso aí.
Açucena,
incorporando um personagem de CSI, prossegue:
—
Um dia fui lá... tô falando porque trabalho ali perto... E eu via sempre os
funcionários irritados, muito revoltados. Ih, uma vez o atendimento demorou, desisti
de esperar, e o funcionário falou assim: “O dono daqui só visa dinheiro. Ele
sabe que é dia de movimento e não coloca mais gente. Aí temos que trabalhar
dobrado — mas isso vai mudar.”
Pelo
visto, vai demorar desvendar o caso.
—
Você não pode mais chamar atenção de funcionário, não pode falar nada. Você tem
que dar B e A pra todo mundo; se dá C, vem a família inteira te cobrir de
porrada. Eu dei B pra todo mundo. Não tão merecendo não, mas dei — pra não
arrumar problema. Porque moro e trabalho no London. Todo mundo sabe onde moro;
daqui a pouco vou ser linchada. Então dou B pra todo mundo e fico com menos um
problema. Quer me entregar rabiscado? Entrega. Eu ensino a menina a colorir
dentro, colorir fora. Aí vem com nhenhenhém? Falei: “Vai sentar no seu lugar.”
Agora cismou de não entrar na sala porque “a professora é isso, a professora é
aquilo”. Falei com o pai dela: “Vou deixar sua filha rabiscar, depois a vida
cobra. Lá na frente vocês vão ter problemas maiores do que só rabiscar.”
Puxa!
Açucena enveredou de novo pelas lamúrias docentes.
— Numa escola em que trabalhei, a diretora
chamou a atenção duma professora por n motivos. Minutos depois, começou
uma fumaçada no banheiro. Foi um corre-corre. O bombeiro falou: “Isso foi
criminoso. Alguém colocou um cigarro dentro da fralda.” Nossa, queimou o
banheiro todo. Corri com meus alunos pra fora da escola, eles me abraçando,
fumaça pra tudo quanto é lado... Por
isso tô te falando: não tá longe não, eu já vivi isso!
“Isso
dá uma crônica”, escrevo.
Açucena,
no entanto, ignora a mensagem:
—
A professora pegou o cigarro, deixou a pontinha pra fora e enrolou na fralda
dum aluno. O cigarro foi queimando devagarzinho. Quando chegou na fralda...
queimou tudo: roupas, uma porção de coisas dos alunos. Fiquei muito triste, o
banheiro tinha sido reformado há pouco tempo. Já vi cada coisa de funcionário!
Um dia, na lanchonete aqui perto, a moça falou: “Se o cliente é chato, eu cuspo
dentro do suco e esfrego o pão no chão.” Larguei o pedido no balcão e sumi.
Nunca mais pisei lá.
Ela
exagera nessas histórias, não é possível.
—
Ultimamente as pessoas andam muito revoltadas. Eu tô procurando comer em casa.
Hoje acordei com vontade de comer pão de cebola. Então tô bem aqui, preparando
com farinha, aveia e tudo. Não fui comprar, não — eu sei lá. Tô com medo até de
comer. Só vou no hortifruti e no açougue. Porque as pessoas tão muito
revoltadas, né? Evito falar. Evito ao máximo sair de casa...Tá muito complicado
de viver. E aqui no London, puta que pariu, as pessoas já são revoltadas de
graça.
Desligo
o celular.
Deixo
Açucena e suas estórias pra lá — antes que ela me convença de que viver, de
fato, tá muito complicado.
Foto: acervo do autor
Novamente
sentado nesta cadeira desconfortável. Ah, se essa gente soubesse como odeio agências
bancárias, filas e cadeiras desconfortáveis, sobretudo, como odeio aguardar
atendimento. Nessas horas, penso: eu poderia estar dormindo, assistindo
televisão, poderia estar trepando ou falando do alheio... Nossa, eu poderia
estar fazendo tanta coisa, útil ou inútil, pra este achincalhado país! Contudo
e infelizmente, estou sentado aqui.
A leitora, eu vi, franziu a testa; encucada,
talvez, com o advérbio que introduziu a crônica. Explico-me: mais cedo estive
sentado nesta mesma cadeira, aguardando atendimento. Depois de muito esperar obtive,
finalmente, o termo de cancelamento de registro de alienação fiduciária em
garantia. Documento de nome pomposo, repleto de juridiquês e nove horas, que
muito juro e correção me custou ao longo dos anos. Recebi-o num envelope pardo
e, feito um bobo alegre, me dirigi ao cartório de registro de imóveis. Onde,
após esperar mais um bocadinho, obtive a informação: precisa reconhecer a firma
do gerente.
Então, lá fui eu atrás de um tabelionato
de notas. Dizem, tabelionato de notas é tipo a Drogasil: sempre tem uma pertinho
de você. De fato, topei com um na esquina. Vazio. Oh felicidade, não precisei
retirar senha e enfrentar fila! A notária olhou, releu o documento, me informou
que, pra identificar a assinatura e portanto reconhecer a danada da firma,
precisava do carimbo do gerente. Pelo que entendi, sem este símbolo da
burocracia ocidental não se averba nada.
Voltei ao burburinho da rua, às
sombras de julho. E cá estou: pernas e braços cruzados, emburrado, aguardando o
gerente carimbar as duas vias do tal termo.
O
guardinha, azia nas pupilas, me encara. Ignoro-o, atento à porta giratória: um flamenguista
já se desfez do cinto, da pochete, dos óculos, do boné, do chaveiro... Essas
portas, quando cismam de implicar com alguém, sai de baixo.
Enquanto rola o desagradável strip tease
ali na entrada, o cara de fuinha da mesa três gira e gira a caneta entre os
dedos, olhos pregados no computador; não atende ninguém, nem o telefone que
berra feito uma sirene.
Continuo pensando no monte de coisas
que poderia estar fazendo em casa: batendo um bolo de chocolate, garatujando
idiossincrasias crônicas, desejando corpos juvenis que gratuita e excitantemente
se despem no X, acompanhando na Globonews a quantas anda o tarifaço que aquele
mentecapto nortista-alaranjado nos impôs... Continuo, pois, pensando essas
coisas quando duas mulheres sentam ao meu lado.
— Ai, Senhor, onde enfiei aquela desgrama?
— Será que perdeu?
— Nem fala uma coisa dessa. Em nome
de Jesus, eu vou achar!
Desesperada, remexe mais no fundo da
bolsa. Talvez procure um documento que também carece de carimbo, penso.
— Pra tudo tem solução nessa vida.
Quer dizer, nem tudo. Cê não vê esse rolo aí com o Trump?
— Hein?
— Uai, cê não tá acompanhando na
internet essa crise das tarifas não?
— Misericórdia, menina, que
perturbação. No grupo da família só falam disso.
— Agora a gente afunda de vez.
— Pois é. Meu pastor postou no story
assim: eu avisei que esse Lula era coisa ruim.
—
Cê acha que é culpa dele?
— Uai, e num é? Você viu aquele
vídeo dele descendo a lenha nos Estados Unidos? Gravaram no encontro que ele
participou dia desses aí. Foi se meter com país poderoso, agora a gente paga o
preço.
— Eu vi no zap que o país nem vende
tanto pros Estados Unidos assim...
— Fake, menina, tudo fake. Meu
pastor falou que somos, sim, muito dependentes do dólar, e que não se mede
força com gente igual o Trump, não.
— É, isso é verdade. Quem somos nós
na fila do pão, né?
— Essa petralhada, se bobear, vai
afundar de vez com o país. Misericórdia, é o que eles querem. Por isso, hoje à
noite, a comunidade vai entrar em vigília. Meu pastor disse que a gente não pode
arredar pé da igreja até o Lula voltar atrás e pedir desculpas pro Trump.
— Minha chefe tava comentando mais
cedo que o problema nem é econômico. Diz ela que é um negócio ideológico porque
tão querendo interferir no julgamento do Bolsonaro.
— E tem que interferir mesmo. Onde
já se viu o que tão fazendo com nosso presidente? Desde que começou esse
processo, meu pastor tem alertado a gente. Diz ele que aquele processo é tudo
uma palhaçada.
—
Também acho. Tão perseguindo um cidadão de bem que tem coragem de falar o que
pensa e não se curva pros ímpios. Aqui quem é honesto e trabalhador, decente e justo,
é sempre perseguido. Sempre foi, mas agora, nessa ditadura esquerdista que tamo
vivendo, a perseguição virou política.
—
Mas Jesus tá vendo essa perturbação toda e não vai deixar impune não... Ó,
achei o cartão! Menina do céu, eu já tava desesperada achando que tinha perdido
esse trem.
Enquanto aqui ao lado se comemora o
achamento do cartão, os algarismos vermelho-comunistas no painel me convocam pra
outro encontro com o gerente.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Venho pelo oitão da pousada. Aprendi com o
Velho Braga que, além de uma bonita palavra, oitão quer dizer ‘do lado’. E,
segundo o cronista, é muito usada no Recife. Como estou em terras
pernambucanas, uso-a. Mas, como ia dizendo, vinha eu pelo oitão quando uma
senhorinha de enormes óculos escuros comenta no celular:
— Imagina, querida, que ele falou, na maior
grosseria, que não vai chamar o táxi pra nós? Sujeitinho rude, esse dono da
pousada.
Passo
pela senhorinha, que agora resmunga e escreve com o indicador no smartphone. Passo também
pela Adonídia carregadinha de frutos, por uma cadeira de madeira que vive o
inverno de seus praianos dias.
Entro na recepção.
O
dono da pousada no computador, a mesma cara de desmantelo do check-in.
Hoje, no entanto, não desperdiçarei cumprimentos. Já calejado, largo a chave no
balcão.
—
Ó, o senhor faz favor de levar ela.
Olho
a pequena recepção, que faz às vezes de lojinha. Camisetas e cangas, canecas e chaveiros,
ímãs de geladeira e chapéus esperam alguma palavra, uma pergunta talvez. Comento
apenas que gostaria de deixar a chave do quarto.
O
sujeitinho franze as sobrancelhas e, riscando o bloco à sua frente com uma Bic
quebrada, retruca:
— O hóspede fica com ela até o dia de ir
embora.
Ora, essa é boa. Como se eu quisesse levar
esse lindo e exótico souvenir pra casa...
Passo
a mão na chave, enfio-a no bolso da bermuda.
—
Num vai perder ela, hein?
O excessivo emprego do pronome pessoal me irrita
demasiadamente, deixo a porta arreganhada.
— Mas assim num tem ar-condicionado que dê conta.
Penso
num palavrão. Mas a juventude que desfila na calçada, shorts e bonés coloridos,
músculos e tatoos me diz que não compensa desperdiçar um mísero palavrão com
esse camarada.
Os rapazes param diante dos buggies. O cara com
jeitão de Caio Castro entra na loja.
Agora são duas senhorinhas que vêm, lenta e
domingueiramente, pelo oitão. Perguntam para a que está sentada se já providenciou
o táxi. Ela repete a história num tom entre o revoltado e o indignado.
Observo uma rolinha, que me observa da guarita
malcuidada do ponto de ônibus. Não, não é rolinha, é uma pomba-de-bando,
informa a proprietária da pousada, que vem com garrafas d’água sob os braços. Ela
deixa um bom-dia sorridente, entra na recepção. Fico imaginando como os
opostos, realmente, se atraem: o marido, um tosco; ela, uma lady que,
desde minha chegada, se desmancha em zelos e agrados.
Olho novamente a rua. A pomba-de-bando se
mandou, foi caçar companhia mais agradável. Os rapazes fecharam a locação do
buggy. O Caio Castro salta ao volante, os outros se dividem: o descamisado a
seu lado, cooler e ecobags entre as pernas tatuadas, os outros dois atrás. O
motor ronca, ruge, cospe fumaça azulada.
A senhorinha de enormes óculos indaga se vou
ao Porto. Largo meus pensamentos quase indecentes na grama esturricada, respondo
que sim.
— Quer dividir táxi com a gente?
As outras duas se aproximam, rostos e ombros
besuntados de protetor solar. Concordo: toda economia é bem-vinda, ainda mais
num lugar carésimo desses.
— Ah, que bom. Então pode chamar o carro que a
gente vai esperar ali na sombrinha.
E dizendo isso, o trio caminha para o oitão,
onde o sol matutino ainda não marcou presença.
Ora, essa é boa, penso. E como aqui no paraíso
a Uber ainda não espalhou seus carros, o negócio é dar uma googlada para
descobrir o telefone de um táxi.
Foto: acervo do autor
Viu nas redes sociais que está em cartaz o novo longa dos Caça-Fantasmas. Nessas horas servem pra alguma coisa útil, essas redes... Pensando assim, tratou de pedir a conta no restaurante. Como estava de bobeira à tarde, resolveu conferir o filme.
Pessoas
passavam apressadas com sacolas e pacotes, adolescentes uniformizados zoavam
uns aos outros, carros buzinavam no engarrafamento. À sombra, ele aguardava o
Uber, pensando que, em tempos não tão distantes, bastava atravessar a Rio
Branco para encontrar um cineminha. Ali mesmo, na esquina da Halfeld com a
Batista, assistiu a bons filmes: O Discurso do Rei, Star Trek: Além da
Escuridão, Os Senhores da Guerra, e tantos títulos que não se lembra mais. Sempre
no meio da tarde, tendo por companhia a Coca e as pipocas... Ah, só quem
escapou da vida ordinária no meio de uma tarde e se refugiou nos braços de uma
poltrona de uma sala quase vazia conhece bem o que é felicidade. Mas, hoje em
dia os cinemas de rua desapareceram, sucumbiram ao império dos shopping
centers.
Saudoso daquelas tardes, tornou a olhar o
celular: motorista a caminho. Claro que bater perna no shopping no meio da
tarde tem lá seus encantos. A juventude zanza entusiasmada pelas escadas
rolantes; as lojas estão às moscas; compra-se o sorvete, o lanche, o ingresso
sem precisar enfrentar fila. Mesmo assim, os cinemas à beira da calçada com
seus cartazes e letreiros a disputar a atenção dos transeuntes são
insubstituíveis, pensou, deixando a brisa outonal levar outro suspiro.
***
No
balcão, a atendente responde com enfado ao seu boa-tarde: não pode deixar, um
instante sequer, de checar as novidades no smartphone. “Perder meu precioso
tempo emitindo um ticket? Ah, este sujeito bem que podia me poupar desse
esforço, né? Instalaram o terminal de autoatendimento ali, perto da porta, pra
quê?”
Ele
percebeu os pensamentos chispando dos olhos castanhos de Olímpia. Como sabe seu
nome? Ora, nosso personagem, além de saudosista, é muito observador. E
observando, leu o crachá pendurado em seu pescoço por uma cordinha de náilon
vermelho.
Olímpia
não sabe, mas ele é daqueles que prefere o tête-à-tête. Afinal, de encontros
assim pode surgir inspiração para um personagem ou, quiçá, o amor pode voltar a
brotar em seu peito empedernido.
“Escolhe
a poltrona”, ela ordena, a mão agarrando o mouse, o olhar naufragado no monitor.
Forçando
a vista, ele aponta a M111. Enquanto aguarda a emissão do ticket, acompanha os
longos dedos de Olímpia a agredir o teclado, as unhas recém pintadas de carmim,
a pulseira de prata relando o MDF do balcão, a pequenina cicatriz no punho direito.
“Até
que é bonitinha, essa menina”, conclui, enlevado. Ela larga o ticket e o indefectível “obrigado e
bom filme” no balcão.
“Nunca
entendi por que essa gente deseja ‘bom filme’, assim como os bilheteiros de
teatro desejam ‘bom espetáculo’. Quem pode fazer do filme ou da peça um evento
bom, espetacular ou uma bosta é o diretor, o elenco, não o espectador”, ele vai
pensando, sem muita convicção, a caminho do banheiro.
***
No
canto, um garoto mija rindo para o celular em sua mão.
— Há
que ponto chega o vício dessa geração, ele resmunga.
O
garoto passa por ele, os olhos ainda grudados na tela. “É, as coisas mudaram
mesmo: no meu tempo, a molecada não saía de um banheiro sem antes se olhar no
espelho, ajeitar o cabelo...” Seus pensamentos, contudo, são interrompidos por
um grupo de adolescentes que acaba de entrar. O de moletom faz trocadilhos de
cunho sexual, os outros riem se dispersando pelos mictórios. O de boné cospe o
chiclete na louça, solta um “caralho, mais um pouco e eu mijava na calça.” As gargalhadas
ecoam com mais força entre os azulejos.
Diante
do espelho, ele alisa o que restou dos cabelos, saudoso da adolescência, de
quando saía em turma pela tarde afora caçando um cineminha a preço camarada.
***
Para
satisfazer a curiosidade do cinéfilo leitor, Ghost Busters: Apocalipse de
Gelo cumpre o que promete. Entretém com toques de nostalgia, trazendo personagens
e atores da franquia dos anos 1980; a fotografia é clara, à moda antiga, bem ao
contrário das produções atuais que estão cada vez mais soturnas. Comparado
também com os novos filmes, é um roteiro curto: 114 minutos. Embora o excesso
de personagens comprometa sua dinâmica, o enredo desenvolve bem a estória.
Enfim, diverte. Se o cronista fosse igual ao bonequinho d’O Globo aplaudiria,
contudo, sentado.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
poeta não sou sou? chamam-me assim: poeta... sei não poeta? poeta pensa poesia e põe prosa no papel?