domingo, 3 de maio de 2026

Doutor Enildo

 

O relógio exige velocidade. Grudado às paredes, à cata de sombras, vou pela avenida feito uma lagartixa. O suor brinca na testa, escorre pelas costas. Só me alivio quando passo sob as raras marquises.

        Fom fom

Não olho, afinal, não me chamo buzina.

Fom fom fom

Prestes a mandar o engraçadinho para o quinto dos infernos, noto um Citroën branco encostar no meio-fio. O insulfilme baixa; um rock das antigas escapole.

        — Carona?

        Os dentes de cavalo não impedem os perdigotos de saltarem à calçada. Detesto gente que fala cuspindo — e gente que dirige com som alto e ainda cospe enquanto fala é insuportável. Mas, como diria o outro, a ocasião faz o ladrão. Melhor aceitar a carona que seguir debaixo dessa lua.

Doutor Enildo atira no banco traseiro a pasta, o celular e autos de processos que já deveriam estar arquivados há décadas.

— Calorão da porra, né? Bom pra ficar de boaça na piscina, tomando umas e outras com as novinhas.

        Ele grita, tentando vencer os acordes do Guns. Não sei o que me irrita mais: o volume ou a mania de falar como garotão? Não tem espelho em casa? São perguntas que me faço enquanto ele avança sem esperar os outros carros.  

Olhando para o retrovisor — que ele tanto ignora — penso: sujeito ridículo.  

Doutor Enildo avança o sinal vermelho. Agarrado ao banco, calculo: farei quarenta e quatro no fim do ano e, salvo engano, quando entrei na faculdade ele já estava no antepenúltimo período...

        — Mas você vem a pé todo dia?

A pergunta interrompe minha matemática.

Acostumei, balbucio.

        — Conta outra, cara. Ninguém acostuma com um calorão desse.

        Aprendi que, em Roma, faça como os romanos. Acrescento que caminhar é saudável, que chego no expediente com a mente mais arejada...

        — Conversa mole. Se bem que você sempre foi meio excêntrico. Tinha umas ideias à margem da normalidade.

        Esse doutorzinho de meia-tigela me chamou de doido ou o quê? Nunca lhe dei liberdade para falar assim. Penso em impor um limite mas, ao ver o painel e o volante salpicados de cuspe, desisto.

        — Você precisa comprar um carrão maneiro. Dinheiro pra isso você tem. Ganha bem, eu sei.

        Gosto de andar a pé, retruco.

        — Carro ajuda a pegar mulher, sô. E você tá sempre sozinho. Isso não faz bem pro brinquedo.

Ele ri de um jeito indecente e aumenta o som.

Tento me concentrar no assobio de Wind of Change, evocar o tempo em que não precisava conviver com esse pau-de-bosta.

     — Se bobear, faz tanto tempo que você não tira uma que já empedrou tudo aí dentro.

        Esqueço a música, os perdigotos, os bons tempos e, ao me virar para dizer poucas e boas…

        Criiiiich

Por um triz não esbarramos na moto. E, justiça seja feita, desta vez Enildo estava certo: sinalizou à esquerda; reduziu a velocidade; ao convergir, contudo, o motoqueiro avançou.

        — Seu viado, filho da puta! – grita, agarrado ao volante.

O imprudente dá meia-volta e emparelha à janela:

        — Por que cê me xingou? Eu te xinguei?

        Olho imediatamente para o relógio no painel, já temendo o atraso no registro do ponto.

        — E xingo de novo, seu merda. Como você enfia assim na frente do carro? Não viu a seta, não?

        — Não aceito que me xingue, tá ouvindo?

        — Ah, vá se foder. Pega a reta e some, mermão.

        Doutor Enildo arranca. O abusado emparelha novamente.

       — Tá me xingando por quê? Desce aqui pra gente acertar as contas.

A moto atravessa à frente, impedindo a passagem.

Vai dar BO, penso.

Desde pequeno tenho pavor de briga. Enquanto a molecada se engalfinhava na saída da escola, eu — imaginando sangue e porrada — passava cabisbaixo e apressado.

        — Desce aqui. Cê num é macho?

        — Vou te mostrar o que eu tenho guardado aqui, seu vagabundo.

Doutor Enildo destranca o porta-malas. Antes de descer, porém, o valentão já se escafedeu na ruazinha vicinal.

        — Marginal filho da puta!

         As pessoas na calçada olham; outros motoristas reduzem para olhar também.

        — Vagabundo desgraçado!

Deixo Doutor Enildo — Can’t Stop Lovin’You como trilha sonora — dando seu show.

Cabisbaixo e apressado, atravesso a rua.

Não quero descobrir o que tem no porta-malas.     

       


Texto: Raphael Cerqueira Silva
Imagem: criada pelo CHATGPT


domingo, 12 de abril de 2026

chegará o amor
como no ipê, a flor:

súbito

no viés da noite
quando menos se espera



Imagem: criada pelo Chatgpt 
Poema: Raphael Cerqueira Silva 




sábado, 14 de março de 2026

Quarenta dias

                                                          

         Vou caminhando com meu headphone quando ouço alguém me chamar. A voz, embora jovial, soa feia.

            Ela insiste. Eu me abrigo sob um oiti desmilinguido.

            Um carinha de abadá atravessa a rua num trote apressado. Nunca vi mais magro.             
            Contrariado, pauso meu rockzinho antigo – “que não tem perigo de assustar ninguém”.   
            — Você trabalha naquele prédio ali, né?

            Mais que pergunta, uma afirmação.

            Ele para diante de mim, o suor escorrendo pela testa.

            Quem é esse sujeito que sabe meu nome e onde trabalho? – penso, ressabiado. 

            — Cara, passei na última seleção de estágio. Agora tô esperando ser chamado. Mas ninguém me mandou mensagem. Demora muito?

            — Olha, companheiro, não trabalho com isso. Essa parte é lá com a administração. E, pra ser franco, nem fiquei sabendo que publicaram o edital.

            — Faz mais de um mês que teve a prova. Até hoje tô sem notícia.

            — Telefona e pede pra falar no ramal 20.

            — Ontem passei mensagem pra Ivanildes. Ela ficou de ver isso pra mim. A gente mora na mesma rua.

            Coitado. Ninguém merece uma vizinha dessas.

            — Gente muito boa ela, né? Prestativa demais da conta. Todo mundo lá no bairro gosta muito dela.

            Conto ou não conto a esse iludido que "cobra perto dela é bicha bom", como dizia Dona Armênia?

            — Ivanildes falou que tem uma vaga no setor dela. E que, se eu for chamado, vai me ensinar o serviço todo.

            Ah, companheiro, se você soubesse o que esta senhora aprontou com a última estagiária… Por pouco não respingou em mim. 

            — Ivanildes dá catequese na igreja, participa do grupo de cursilhistas... Muito generosa, vive organizando arrecadação de alimento e roupa na nossa paróquia. Agora mesmo tá ajudando os desabrigados da enchente.

            Vou contar é nada. Não adiantaria mesmo. 

            — Anteontem foi aniversário da minha vó. Ivanildes foi lá em casa com uma lembrancinha. Conversa vai, conversa vem, comentou que não tá tomando refrigerante nem comendo carne e doce. Estranhei; perguntei por quê. Ela disse que faz intenção na quaresma.

            Um caminhão entra pela contramão. Olho para o Cristo pintado na traseira do baú.  

            Ó, Senhor... de que adianta renunciar à carne e ao açúcar por quarenta dias e quarenta noites se, no resto do ano, faz um inferno na vida dos colegas?

            — Você trabalha com ela?

            — Infelizmente.

            — Oi?

            — Companheiro, me desculpa, mas estou atrasado.

            — Então... pra quem eu pergunto do estágio?

            — Faz o seguinte: liga pra sua vizinha. Altruísta e penitente como é, ela dá um jeitinho.

            E, pra não lembrar de Ivanildes, atravesso a rua cantarolando:

            Let me sing, let me sing

            Let me sing my rock 'n' roll.




Texto: Raphael Cerqueira Silva

Imagem: criada pelo CHATGPT

domingo, 16 de novembro de 2025

indecências

 A noite, ai,

morre fria

pingam

indecentes ecos 

de anistia

estremeço, não ouso

levantar:

melhor seria

sonhar

como? 

se ainda 

pingam

anistia, anistia

anistia




Foto: acervo do autor
Texto: Raphael Cerqueira Silva 


sábado, 11 de outubro de 2025

COMPLICADO DE VIVER

 


Passeio entediado pelo feed até que uma manchete fisga minha atenção: Bombeiros combatem incêndio em restaurante no London.

É onde mora Açucena do Carmo — última casa, na última rua. Se bem que, técnica e geograficamente, não mora: se esconde.

Envio-lhe o post. Imediatamente, ela responde:

— Isso foi agorinha! Dava pra ver a fumaça daqui. Tô achando que esse incêndio foi criminoso... Tá estranho isso. Tem peritos lá agora. Minha amiga, que mora em frente, me falou.

Às vezes tenho a impressão que Açucena passa o dia on-line.

— Hoje em dia o que mais tem é adulto infantilizado. Você não pode falar nada! Não pode chamar atenção, que emburra. Isso quando não mata. Tá uma matança danada! Ontem mesmo tive problema na escola: chamei atenção duma menina. Ela entregou a atividade toda rabiscada. Falei: “Você não tá mais na idade de rabiscar.” Em todas as minhas aulas ela faz esses rabiscos... Hoje veio o pai e fez o maior escarcéu! Então, tô achando que esse incêndio pode ser criminoso.

Enquanto grava outro áudio, cantarolo baixinho: “Eu não consigo entender sua lógica.” Afinal, qual a relação entre os rabiscos escolares e o restaurante incendiado?

— Porque não pode mais falar nada com funcionário! Tá difícil ser empreendedor nesse país. Tudo eles querem dinheiro, tudo eles te processam. Eu tô achando que foi algum funcionário que fez isso aí.

Açucena, incorporando um personagem de CSI, prossegue:

— Um dia fui lá... tô falando porque trabalho ali perto... E eu via sempre os funcionários irritados, muito revoltados. Ih, uma vez o atendimento demorou, desisti de esperar, e o funcionário falou assim: “O dono daqui só visa dinheiro. Ele sabe que é dia de movimento e não coloca mais gente. Aí temos que trabalhar dobrado — mas isso vai mudar.”

Pelo visto, vai demorar desvendar o caso.

— Você não pode mais chamar atenção de funcionário, não pode falar nada. Você tem que dar B e A pra todo mundo; se dá C, vem a família inteira te cobrir de porrada. Eu dei B pra todo mundo. Não tão merecendo não, mas dei — pra não arrumar problema. Porque moro e trabalho no London. Todo mundo sabe onde moro; daqui a pouco vou ser linchada. Então dou B pra todo mundo e fico com menos um problema. Quer me entregar rabiscado? Entrega. Eu ensino a menina a colorir dentro, colorir fora. Aí vem com nhenhenhém? Falei: “Vai sentar no seu lugar.” Agora cismou de não entrar na sala porque “a professora é isso, a professora é aquilo”. Falei com o pai dela: “Vou deixar sua filha rabiscar, depois a vida cobra. Lá na frente vocês vão ter problemas maiores do que só rabiscar.”

Puxa! Açucena enveredou de novo pelas lamúrias docentes.

 — Numa escola em que trabalhei, a diretora chamou a atenção duma professora por n motivos. Minutos depois, começou uma fumaçada no banheiro. Foi um corre-corre. O bombeiro falou: “Isso foi criminoso. Alguém colocou um cigarro dentro da fralda.” Nossa, queimou o banheiro todo. Corri com meus alunos pra fora da escola, eles me abraçando, fumaça pra tudo quanto é lado...  Por isso tô te falando: não tá longe não, eu já vivi isso!

“Isso dá uma crônica”, escrevo.

Açucena, no entanto, ignora a mensagem:

— A professora pegou o cigarro, deixou a pontinha pra fora e enrolou na fralda dum aluno. O cigarro foi queimando devagarzinho. Quando chegou na fralda... queimou tudo: roupas, uma porção de coisas dos alunos. Fiquei muito triste, o banheiro tinha sido reformado há pouco tempo. Já vi cada coisa de funcionário! Um dia, na lanchonete aqui perto, a moça falou: “Se o cliente é chato, eu cuspo dentro do suco e esfrego o pão no chão.” Larguei o pedido no balcão e sumi. Nunca mais pisei lá.  

Ela exagera nessas histórias, não é possível.

— Ultimamente as pessoas andam muito revoltadas. Eu tô procurando comer em casa. Hoje acordei com vontade de comer pão de cebola. Então tô bem aqui, preparando com farinha, aveia e tudo. Não fui comprar, não — eu sei lá. Tô com medo até de comer. Só vou no hortifruti e no açougue. Porque as pessoas tão muito revoltadas, né? Evito falar. Evito ao máximo sair de casa...Tá muito complicado de viver. E aqui no London, puta que pariu, as pessoas já são revoltadas de graça.

Desligo o celular.

Deixo Açucena e suas estórias pra lá — antes que ela me convença de que viver, de fato, tá muito complicado.



        

          Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

 

sábado, 12 de julho de 2025

Outro encontro

 

Novamente sentado nesta cadeira desconfortável. Ah, se essa gente soubesse como odeio agências bancárias, filas e cadeiras desconfortáveis, sobretudo, como odeio aguardar atendimento. Nessas horas, penso: eu poderia estar dormindo, assistindo televisão, poderia estar trepando ou falando do alheio... Nossa, eu poderia estar fazendo tanta coisa, útil ou inútil, pra este achincalhado país! Contudo e infelizmente, estou sentado aqui.

         A leitora, eu vi, franziu a testa; encucada, talvez, com o advérbio que introduziu a crônica. Explico-me: mais cedo estive sentado nesta mesma cadeira, aguardando atendimento. Depois de muito esperar obtive, finalmente, o termo de cancelamento de registro de alienação fiduciária em garantia. Documento de nome pomposo, repleto de juridiquês e nove horas, que muito juro e correção me custou ao longo dos anos. Recebi-o num envelope pardo e, feito um bobo alegre, me dirigi ao cartório de registro de imóveis. Onde, após esperar mais um bocadinho, obtive a informação: precisa reconhecer a firma do gerente.

            Então, lá fui eu atrás de um tabelionato de notas. Dizem, tabelionato de notas é tipo a Drogasil: sempre tem uma pertinho de você. De fato, topei com um na esquina. Vazio. Oh felicidade, não precisei retirar senha e enfrentar fila! A notária olhou, releu o documento, me informou que, pra identificar a assinatura e portanto reconhecer a danada da firma, precisava do carimbo do gerente. Pelo que entendi, sem este símbolo da burocracia ocidental não se averba nada.

            Voltei ao burburinho da rua, às sombras de julho. E cá estou: pernas e braços cruzados, emburrado, aguardando o gerente carimbar as duas vias do tal termo.

O guardinha, azia nas pupilas, me encara. Ignoro-o, atento à porta giratória: um flamenguista já se desfez do cinto, da pochete, dos óculos, do boné, do chaveiro... Essas portas, quando cismam de implicar com alguém, sai de baixo.

 Enquanto rola o desagradável strip tease ali na entrada, o cara de fuinha da mesa três gira e gira a caneta entre os dedos, olhos pregados no computador; não atende ninguém, nem o telefone que berra feito uma sirene.  

            Continuo pensando no monte de coisas que poderia estar fazendo em casa: batendo um bolo de chocolate, garatujando idiossincrasias crônicas, desejando corpos juvenis que gratuita e excitantemente se despem no X, acompanhando na Globonews a quantas anda o tarifaço que aquele mentecapto nortista-alaranjado nos impôs... Continuo, pois, pensando essas coisas quando duas mulheres sentam ao meu lado.

            — Ai, Senhor, onde enfiei aquela desgrama?

            — Será que perdeu?

            — Nem fala uma coisa dessa. Em nome de Jesus, eu vou achar!

            Desesperada, remexe mais no fundo da bolsa. Talvez procure um documento que também carece de carimbo, penso.   

            — Pra tudo tem solução nessa vida. Quer dizer, nem tudo. Cê não vê esse rolo aí com o Trump?

            — Hein?

            — Uai, cê não tá acompanhando na internet essa crise das tarifas não?

            — Misericórdia, menina, que perturbação. No grupo da família só falam disso.

            — Agora a gente afunda de vez.

            — Pois é. Meu pastor postou no story assim: eu avisei que esse Lula era coisa ruim.

— Cê acha que é culpa dele?

            — Uai, e num é? Você viu aquele vídeo dele descendo a lenha nos Estados Unidos? Gravaram no encontro que ele participou dia desses aí. Foi se meter com país poderoso, agora a gente paga o preço.

            — Eu vi no zap que o país nem vende tanto pros Estados Unidos assim...

            — Fake, menina, tudo fake. Meu pastor falou que somos, sim, muito dependentes do dólar, e que não se mede força com gente igual o Trump, não.

            — É, isso é verdade. Quem somos nós na fila do pão, né?

            — Essa petralhada, se bobear, vai afundar de vez com o país. Misericórdia, é o que eles querem. Por isso, hoje à noite, a comunidade vai entrar em vigília. Meu pastor disse que a gente não pode arredar pé da igreja até o Lula voltar atrás e pedir desculpas pro Trump.

            — Minha chefe tava comentando mais cedo que o problema nem é econômico. Diz ela que é um negócio ideológico porque tão querendo interferir no julgamento do Bolsonaro.

         — E tem que interferir mesmo. Onde já se viu o que tão fazendo com nosso presidente? Desde que começou esse processo, meu pastor tem alertado a gente. Diz ele que aquele processo é tudo uma palhaçada.

— Também acho. Tão perseguindo um cidadão de bem que tem coragem de falar o que pensa e não se curva pros ímpios. Aqui quem é honesto e trabalhador, decente e justo, é sempre perseguido. Sempre foi, mas agora, nessa ditadura esquerdista que tamo vivendo, a perseguição virou política.

— Mas Jesus tá vendo essa perturbação toda e não vai deixar impune não... Ó, achei o cartão! Menina do céu, eu já tava desesperada achando que tinha perdido esse trem. 

            Enquanto aqui ao lado se comemora o achamento do cartão, os algarismos vermelho-comunistas no painel me convocam pra outro encontro com o gerente.


    
                                                foto: acervo do autor 

                                                Texto: Raphael Cerqueira Silva 

domingo, 15 de junho de 2025

Mais um dia no paraíso

 

       

Venho pelo oitão da pousada. Aprendi com o Velho Braga que, além de uma bonita palavra, oitão quer dizer ‘do lado’. E, segundo o cronista, é muito usada no Recife. Como estou em terras pernambucanas, uso-a. Mas, como ia dizendo, vinha eu pelo oitão quando uma senhorinha de enormes óculos escuros comenta no celular:

— Imagina, querida, que ele falou, na maior grosseria, que não vai chamar o táxi pra nós? Sujeitinho rude, esse dono da pousada.

    Passo pela senhorinha, que agora resmunga e escreve com o indicador no smartphone. Passo também pela Adonídia carregadinha de frutos, por uma cadeira de madeira que vive o inverno de seus praianos dias.

Entro na recepção.

      O dono da pousada no computador, a mesma cara de desmantelo do check-in. Hoje, no entanto, não desperdiçarei cumprimentos. Já calejado, largo a chave no balcão.

            — Ó, o senhor faz favor de levar ela.

            Olho a pequena recepção, que faz às vezes de lojinha. Camisetas e cangas, canecas e chaveiros, ímãs de geladeira e chapéus esperam alguma palavra, uma pergunta talvez. Comento apenas que gostaria de deixar a chave do quarto.

      O sujeitinho franze as sobrancelhas e, riscando o bloco à sua frente com uma Bic quebrada, retruca:

— O hóspede fica com ela até o dia de ir embora.

Ora, essa é boa. Como se eu quisesse levar esse lindo e exótico souvenir pra casa...

       Passo a mão na chave, enfio-a no bolso da bermuda.

            — Num vai perder ela, hein?

O excessivo emprego do pronome pessoal me irrita demasiadamente, deixo a porta arreganhada.

     — Mas assim num tem ar-condicionado que dê conta.

   Penso num palavrão. Mas a juventude que desfila na calçada, shorts e bonés coloridos, músculos e tatoos me diz que não compensa desperdiçar um mísero palavrão com esse camarada.

Os rapazes param diante dos buggies. O cara com jeitão de Caio Castro entra na loja.

Agora são duas senhorinhas que vêm, lenta e domingueiramente, pelo oitão. Perguntam para a que está sentada se já providenciou o táxi. Ela repete a história num tom entre o revoltado e o indignado.

Observo uma rolinha, que me observa da guarita malcuidada do ponto de ônibus. Não, não é rolinha, é uma pomba-de-bando, informa a proprietária da pousada, que vem com garrafas d’água sob os braços. Ela deixa um bom-dia sorridente, entra na recepção. Fico imaginando como os opostos, realmente, se atraem: o marido, um tosco; ela, uma lady que, desde minha chegada, se desmancha em zelos e agrados. 

Olho novamente a rua. A pomba-de-bando se mandou, foi caçar companhia mais agradável. Os rapazes fecharam a locação do buggy. O Caio Castro salta ao volante, os outros se dividem: o descamisado a seu lado, cooler e ecobags entre as pernas tatuadas, os outros dois atrás. O motor ronca, ruge, cospe fumaça azulada.

A senhorinha de enormes óculos indaga se vou ao Porto. Largo meus pensamentos quase indecentes na grama esturricada, respondo que sim.

— Quer dividir táxi com a gente?

As outras duas se aproximam, rostos e ombros besuntados de protetor solar. Concordo: toda economia é bem-vinda, ainda mais num lugar carésimo desses.

— Ah, que bom. Então pode chamar o carro que a gente vai esperar ali na sombrinha.

E dizendo isso, o trio caminha para o oitão, onde o sol matutino ainda não marcou presença.

Ora, essa é boa, penso. E como aqui no paraíso a Uber ainda não espalhou seus carros, o negócio é dar uma googlada para descobrir o telefone de um táxi.



          Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor

domingo, 27 de abril de 2025

Mais em conta

 

Na recepção da loja/pousada, me informam: a água no mercadinho é mais em conta. Quede esse oásis que vende "mais em conta" nesta ilha onde tudo custa os olhos e os rins do cidadão? A resposta: o senhor entra naquela ruazinha, aquela ali onde o microônibus tá parado, e mais na frente vira à direita, o mercado fica na esquina.

Memorizadas as coordenadas e engolido a seco o "senhor", pergunto se é pra deixar a chave na recepção (deviam padronizar isso no país: nunca deixar ou deixar sempre). O camarada que até então acompanhava a conversa, me encara por cima dos óculos tortos: leva, mas não vá perder hein.

Olho as personagens atrás do balcão. De senhor sedento a menino estabanado numa fração de minuto. Começamos bem, penso, esperando os buggies passarem pra atravessar a rua.

Passo pelo tal microônibus, um posto da Marinha. Na fachada, em azul marinho, Capitania dos Portos de Pernambuco. Há mais coisas escritas, mas me chama atenção mesmo é a placa na cerca: PROPRIEDADE DA UNiÃO ENTRADA PROIBIDA. Não sei direito se nessa ordem: o sol às vezes não só racha como confude minha cabeça.
O portão aberto é um convite; a placa, porém, um imperativo. Como se eu - e certamente a maioria dos turistas -  quisesse botar os pés neste lugar. É o que vai pela minha cachola cansada e ainda não adaptada à mudança de fuso horário quando, súbito, uma galinha preta entra correndo no jardim que pertence à União. Pensando bem, ainda é uma franga. Uma franga cambeta e esquálida que desconhece certos limites.

Mais uns passos, vejo água, muita água, jorrando pela caixa da União. Como a vida do turista é injusta: eu aqui, na maior secura, e a água vazando, não só pelo ladrão,  mas também pela tampa da União. A franga atrevida parece captar o que vai em meu pensamento, ensaia um voo, vem desgraciosa e desengonçada pro meu lado. Ah, vá caçar sua turma, coisa feia!

Desço a calçada, mais uns passos. Duas outras frangas, tão esquálidas e cambetas, com uma ninhada de pintinhos pretíssimos ciscando ao redor. Se já têm filhotes, ainda são frangas? Uma caminhonete quase dá ré em cima de mim: estou no que parece ser o estacionamento do tal mercadinho.
Entro: coxinhas e pastéis a treze reais, um pacotinho de fandangos a onze. Só Jesus na causa, resmunga a dona ao meu lado, nitidamente turista como eu. Paro diante dos freezers: água mineral sem gás por oito. Deve ser o "Mais em conta" da personagem lá da pousada/loja. E levando em conta que ouvi da vizinha de quarto que "a garrafinha de quinhentos ml foi dez conto", estou no lucro com essa aí, de um litro e meio.

Recebo o troco. Quede a sacola, quase pergunto ao atendente, mas aí lembrei: aqui não utilizam sacola plástica. Então lá vou eu, fazer o caminho de volta, passar pelas penosas esquálidas e cambetas, os pintinhos pretíssimos, a propriedade da União, o microônibus, agora com uma garrafa em cada mão, rezando pra não ser atropelado, de frente ou de ré, por uma caminhonete. 



domingo, 12 de maio de 2024

Outra vez no cinema

         Viu nas redes sociais que está em cartaz o novo longa dos Caça-Fantasmas. Nessas horas servem pra alguma coisa útil, essas redes... Pensando assim, tratou de pedir a conta no restaurante. Como estava de bobeira à tarde, resolveu conferir o filme.

Pessoas passavam apressadas com sacolas e pacotes, adolescentes uniformizados zoavam uns aos outros, carros buzinavam no engarrafamento. À sombra, ele aguardava o Uber, pensando que, em tempos não tão distantes, bastava atravessar a Rio Branco para encontrar um cineminha. Ali mesmo, na esquina da Halfeld com a Batista, assistiu a bons filmes: O Discurso do Rei, Star Trek: Além da Escuridão, Os Senhores da Guerra, e tantos títulos que não se lembra mais. Sempre no meio da tarde, tendo por companhia a Coca e as pipocas... Ah, só quem escapou da vida ordinária no meio de uma tarde e se refugiou nos braços de uma poltrona de uma sala quase vazia conhece bem o que é felicidade. Mas, hoje em dia os cinemas de rua desapareceram, sucumbiram ao império dos shopping centers.

 Saudoso daquelas tardes, tornou a olhar o celular: motorista a caminho. Claro que bater perna no shopping no meio da tarde tem lá seus encantos. A juventude zanza entusiasmada pelas escadas rolantes; as lojas estão às moscas; compra-se o sorvete, o lanche, o ingresso sem precisar enfrentar fila. Mesmo assim, os cinemas à beira da calçada com seus cartazes e letreiros a disputar a atenção dos transeuntes são insubstituíveis, pensou, deixando a brisa outonal levar outro suspiro.   

***

No balcão, a atendente responde com enfado ao seu boa-tarde: não pode deixar, um instante sequer, de checar as novidades no smartphone. “Perder meu precioso tempo emitindo um ticket? Ah, este sujeito bem que podia me poupar desse esforço, né? Instalaram o terminal de autoatendimento ali, perto da porta, pra quê?”

Ele percebeu os pensamentos chispando dos olhos castanhos de Olímpia. Como sabe seu nome? Ora, nosso personagem, além de saudosista, é muito observador. E observando, leu o crachá pendurado em seu pescoço por uma cordinha de náilon vermelho.     

Olímpia não sabe, mas ele é daqueles que prefere o tête-à-tête. Afinal, de encontros assim pode surgir inspiração para um personagem ou, quiçá, o amor pode voltar a brotar em seu peito empedernido.

“Escolhe a poltrona”, ela ordena, a mão agarrando o mouse, o olhar naufragado no monitor.

Forçando a vista, ele aponta a M111. Enquanto aguarda a emissão do ticket, acompanha os longos dedos de Olímpia a agredir o teclado, as unhas recém pintadas de carmim, a pulseira de prata relando o MDF do balcão, a pequenina cicatriz no punho direito.

“Até que é bonitinha, essa menina”, conclui, enlevado. Ela   larga o ticket e o indefectível “obrigado e bom filme” no balcão.  

“Nunca entendi por que essa gente deseja ‘bom filme’, assim como os bilheteiros de teatro desejam ‘bom espetáculo’. Quem pode fazer do filme ou da peça um evento bom, espetacular ou uma bosta é o diretor, o elenco, não o espectador”, ele vai pensando, sem muita convicção, a caminho do banheiro.

***

No canto, um garoto mija rindo para o celular em sua mão.

— Há que ponto chega o vício dessa geração, ele resmunga.

O garoto passa por ele, os olhos ainda grudados na tela. “É, as coisas mudaram mesmo: no meu tempo, a molecada não saía de um banheiro sem antes se olhar no espelho, ajeitar o cabelo...” Seus pensamentos, contudo, são interrompidos por um grupo de adolescentes que acaba de entrar. O de moletom faz trocadilhos de cunho sexual, os outros riem se dispersando pelos mictórios. O de boné cospe o chiclete na louça, solta um “caralho, mais um pouco e eu mijava na calça.” As gargalhadas ecoam com mais força entre os azulejos.

Diante do espelho, ele alisa o que restou dos cabelos, saudoso da adolescência, de quando saía em turma pela tarde afora caçando um cineminha a preço camarada.

***

Para satisfazer a curiosidade do cinéfilo leitor, Ghost Busters: Apocalipse de Gelo cumpre o que promete. Entretém com toques de nostalgia, trazendo personagens e atores da franquia dos anos 1980; a fotografia é clara, à moda antiga, bem ao contrário das produções atuais que estão cada vez mais soturnas. Comparado também com os novos filmes, é um roteiro curto: 114 minutos. Embora o excesso de personagens comprometa sua dinâmica, o enredo desenvolve bem a estória. Enfim, diverte. Se o cronista fosse igual ao bonequinho d’O Globo aplaudiria, contudo, sentado.  




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

sábado, 4 de maio de 2024

Madonna in Rio

 

 

        A Rainha do pop está entre nós. Ou melhor, em terras brasilis, desfrutando a brisa que assanha os cabelos das meninas e o corpo dos rapazes que circulam e mergulham e se bronzeiam em Copacabana.

        Ai de ti Copacabana, não serás mais a mesma depois da passagem de Madonna.

        Assim como não deve ter sido a mesma depois que por ali passei, fotografando cada ladrilho do calçadão, cada folha de coqueiro, cada prédio, cada bandeira a tremular sobre a areia. Inclusive, a bandeira nacional, fincada no topo do Copacabana Palace, onde a diva americana está hospedada.

        Uma colega de ofício, que não é diva nem rainha, muito pelo contrário, disse certa vez: “Um dia, vou me hospedar lá”. Suspendi a redação do alvará, perguntei “lá em Copacabana?”. Ela tomou como ironia, franziu o cenho, retrucou: “Claro que não. No Copacabana Palace. Você vai ver as fotos, porque vou fazer questã de postar”. Tempos depois, vi: fotos pavorosamente mal feitas, dela e do marido, ambos forçando um sorriso na beira da piscina do hotel. Na repartição, o povo quis saber: será que o casamento dura o tempo das parcelas do cartão? À boca pequena, se comentou que, além de ter gasto os tubos com a festa do casório, ela pagou o dobro e mais um pouco para se hospedar por uma noite apenas no Copa... Eu, discípulo de São Tomé, até hoje não pus fé naquelas fotos.

        Voltando à pop star: sei quase nada sobre sua carreira. Da discografia, ainda menos. Mas, como fui criado com o rádio ligado o dia inteiro na cozinha, trago na memória algumas de suas canções. La Isla Bonita, Like a Prayer, Papa Don’t Preach e Crazy for You rolaram bastante pelas ondas da Cultura. Hoje, quando as ouço, brotam saudades que não sei bem explicar. Talvez, saudade da infância que se perdeu nas brumas do tempo, da época em que minha única preocupação é se não faltaria luz para assistir à novela... Na suíte presidencial do Copa, será que a Rainha também se entrega a pensamentos nostálgicos?

        O noticiário, que cobre a passagem de Madonna desde que seu jatinho aterrou no Galeão no começo da semana, divulgou: durante o show, telões enormes projetarão imagens de personalidades brasileiras. Acredito que lá estará também Ayrton Senna: nesta semana, completam-se trinta anos do desastre que ceifou sua vida. E a pergunta que muitos fizeram na tevê, num esforço tolo de memória, é: o que você fazia naquele domingo quando o carro do piloto colidiu com a barreira de concreto em Ímola? Eu, que nunca fui chegado à fórmula 1 (aliás, a qualquer esporte), assistia desenho noutro canal, ou jogava videogame. O que me lembro mesmo é que a televisão só falou da tragédia no resto daquele dia, e no seguinte e nos seguintes. Na escola, na manhã de segunda, só se falava nisso; teve até gente chorando durante a aula de Português. Cena semelhante veria anos depois, quando do acidente com a Princesa Diana. Eu não entendia aquelas lágrimas. E, sem entender, tentava vencer mais uma fase no meu videogame.  

        Ali, nos arredores onde Madonna está hospedada, há uma estátua do Senna. Bom turista, também tirei foto lá. Como dizia aquela mulher da novela: cada mergulho é um flash... E como sob o sol escaldante de Copacabana não é necessário flash para registrar boas fotos, o turista se esbalda. Há aqueles que vão para torrar na areia, os que preferem observar os minúsculos biquinis perdidos nas curvas bronzeadas, os que bebem como se não houvesse amanhã... e os que fotografam. Ah, é há aqueles que gastam todas as economias se hospedando em hotéis badalados, como a colega lá da repartição. Que, como bem acertaram as previsões, não manteve o casamento tempo suficiente para quitar as parcelas do cartão.



Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

domingo, 28 de abril de 2024

Guerra Civil

 


Na fila da Americanas, observo. Dezenas, deliciosas e irresistíveis guloseimas espalhadas nas gôndolas. Em sacos plásticos que desfilam mais cores que o arco-íris, balas e salgadinhos, bombons e biscoitos recheados serpenteiam a clientela. Para não sucumbir às tentações, presto atenção nos dois caras que, à minha frente, também aguardam atendimento:

— Cê já foi ver o filme do Wagner Moura?

— Tá doido, velho? Vou lá perder meu tempo e dinheiro com filme daquele mamador da lei Rouanet?

— Produção americana, cara. Não rola dinheiro público brasileiro, não.

— E daí? Aquele atorzinho é esquerdopata, eleitor do ladrão-de-nove-dedos... Eu que não dou meu dinheiro pra ver a bosta desse filme.

— Eu também não.

Lá do balcão, quase escondida pelos pacotes de Fini, a atendente chama o ‘próximo’.

Os caras se despedem com risadinhas bovinas. Um vai pagar a compra, o outro fica deslizando o dedo torto pelo feed do Instagram.

Tentando equilibrar as barrinhas de chocolate, o Oreo e a garrafa de água, dou uma olhadela por cima de seu ombro. Na tela do smartphone, a carantonha do (enfim inelegível) ex-presidente aparece cuspindo uma besteira qualquer. “Ainda bem que esse cara está com fones porque ninguém merece ouvir essas boçalidades, ainda mais em pé numa fila”, suspiro aliviado.  

Volto a olhar as gôndolas.

Passo a mão em duas pastilhas de hortelã e no saquinho de caramelos.  

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Não há fila. Me aproximo da bilheteria, atento ao letreiro com os títulos e os horários.  

A atendente parece cochilar diante do monitor. Responde ao meu boa-tarde com mau humor, manda escolher a poltrona. Enquanto o ticket é impresso, encaro suas olheiras: será que ficou assim depois de assistir ao filme?

O cartaz dos Caça-Fantasmas e minha pergunta quase me fazem arrepender da compra.

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Na sala, número razoável de espectadores. Para ser sincero, me espantei: normalmente, a primeira sessão nunca enche assim. Ainda mais em tardes frias e xexelentas, como hoje.

Vou subindo a escada, atento para não tropeçar. Da outra vez, fomos eu, as pipocas e o refrigerante ao chão. Acho, nunca passei tanta vergonha. E, na telona, as peripécias do oitentão Harrison Ford soaram para mim mais como provocação que heroísmo.    

Noto que algumas pessoas sequer esperam o filme rolar para devorar as pipocas e os biscoitos de queijo.

Sigo em busca da fila R. Sempre escolho poltrona ali. Não pense o leitor que o faço por razões esotéricas ou coisa semelhante. É que, atrás desta fila, só a parede. E, embora digam que parede tem ouvidos, não importo: pior são os que têm boca e desembestam a tagarelar durante a sessão. Como aconteceu quando vim assistir Jurassic World: Domínio e tive que suportar uns enjoados palestrando o tempo inteiro. Daquela vez, cheguei meio atrasado, então não deu pra comprar a poltrona na R.

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Guerra Civil entrega uma lição: a democracia pode ser frágil, muito frágil. E mostra o quão a sociedade encontra-se polarizada. Embora seja uma distopia, é assustador imaginar que poderíamos estar vivendo tudo aquilo caso o golpe de 2023 tivesse se concretizado. E, o que é aterrador, se continuarmos condescendentes com as práticas fascistas que todo dia pululam nos noticiários, nada impede que, em um futuro não tão distante, o país passe pelo caos narrado no filme.

Alex Garland, diretor do longa, deixa-nos este alerta. Um alerta de como radicalizações e fanatismos são perniciosos. Um alerta do mal embutido nos discursos extremistas que, não raro, enfiam deus, pátria e família em cada uma de suas frases ardilosas.

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Simbólica a cena em que a bandeira norte-americana tremula ao vento apenas com duas estrelas. Significativa a fala de um miliciano que julga algumas pessoas mais americanas que outras, conforme seu estado de origem. E, com isso, se arvora o direito de eliminar os menos americanos e os estrangeiros.

Também simbólica a cidadela por onde passam os protagonistas: apesar do clima bélico em que chafurda a nação, seus habitantes vivem em aparente calmaria. Como diz a mocinha da loja, não quiseram se envolver. Sua explicação me fez lembrar alguns conhecidos que arrotam por aí: “ditadura nunca existiu”, “ditadura só é ruim pra quem não anda na linha”, “não tenho problema com a polícia porque estou trabalhando” ou, ainda, “esse papo de golpe é invenção de comunista petralha”.

Negar o óbvio: idiotia ou tática de sobrevivência? Sempre me pergunto isso. Ainda não encontrei a resposta.

As cenas de Washington, sitiada e arrasada, me fizeram lembrar a tomada de Berlim pelos Aliados. O bombardeio à Casa Branca, os ataques ao La Moneda, que ceifaram Allende e a democracia no Chile.

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Refletindo, mal dou por conta que os créditos sobem e o público se dispersa.

Recolho as embalagens vazias, bebo o restinho da água.

Desço a escada pensando nos ruminantes lá da loja: perderam um filmaço. A moça da limpeza me encara. Acho, mais uma vez pensei em voz alta. Envergonhado, enfio o derradeiro caramelo na boca e, cabisbaixo, tomo o rumo da rua.   

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 




  

 

Doutor Enildo

  O relógio exige velocidade. Grudado às paredes, à cata de sombras, vou pela avenida feito uma lagartixa. O suor brinca na testa, escorre...