O
relógio exige velocidade. Grudado às paredes, à cata de sombras, vou pela
avenida feito uma lagartixa. O suor brinca na testa, escorre pelas costas. Só
me alivio quando passo sob as raras marquises.
Fom fom
Não
olho, afinal, não me chamo buzina.
Fom
fom fom
Prestes
a mandar o engraçadinho para o quinto dos infernos, noto um Citroën branco
encostar no meio-fio. O insulfilme baixa; um rock das antigas escapole.
— Carona?
Os dentes de cavalo não impedem os perdigotos
de saltarem à calçada. Detesto gente que fala cuspindo — e gente que dirige com
som alto e ainda cospe enquanto fala é insuportável. Mas, como diria o outro, a
ocasião faz o ladrão. Melhor aceitar a carona que seguir debaixo dessa lua.
Doutor
Enildo atira no banco traseiro a pasta, o celular e autos de processos que já deveriam
estar arquivados há décadas.
—
Calorão da porra, né? Bom pra ficar de boaça na piscina, tomando umas e outras
com as novinhas.
Ele grita, tentando vencer os acordes do
Guns. Não sei o que me irrita mais: o volume ou a mania de falar como
garotão? Não tem espelho em casa? São perguntas que me faço enquanto ele avança
sem esperar os outros carros.
Olhando
para o retrovisor — que ele tanto ignora — penso: sujeito ridículo.
Doutor
Enildo avança o sinal vermelho. Agarrado ao banco, calculo: farei quarenta e quatro
no fim do ano e, salvo engano, quando entrei na faculdade ele já estava no antepenúltimo
período...
— Mas você vem a pé todo dia?
A
pergunta interrompe minha matemática.
Acostumei,
balbucio.
— Conta outra, cara. Ninguém acostuma
com um calorão desse.
Aprendi que, em Roma, faça como os
romanos. Acrescento que caminhar é saudável, que chego no expediente com a
mente mais arejada...
— Conversa mole. Se bem que você sempre
foi meio excêntrico. Tinha umas ideias à margem da normalidade.
Esse doutorzinho de meia-tigela me
chamou de doido ou o quê? Nunca lhe dei liberdade para falar assim. Penso em impor
um limite mas, ao ver o painel e o volante salpicados de cuspe, desisto.
— Você precisa comprar um carrão
maneiro. Dinheiro pra isso você tem. Ganha bem, eu sei.
Gosto de andar a pé, retruco.
— Carro ajuda a pegar mulher, sô. E você
tá sempre sozinho. Isso não faz bem pro brinquedo.
Ele
ri de um jeito indecente e aumenta o som.
Tento
me concentrar no assobio de Wind of Change, evocar o tempo em que não
precisava conviver com esse pau-de-bosta.
—
Se bobear, faz tanto tempo que você não tira uma que já empedrou tudo aí
dentro.
Esqueço a música, os perdigotos, os bons
tempos e, ao me virar para dizer poucas e boas…
Criiiiich
Por
um triz não esbarramos na moto. E, justiça seja feita, desta vez Enildo estava
certo: sinalizou à esquerda; reduziu a velocidade; ao convergir, contudo, o
motoqueiro avançou.
— Seu viado, filho da puta! – grita, agarrado
ao volante.
O
imprudente dá meia-volta e emparelha à janela:
— Por que cê me xingou? Eu te xinguei?
Olho imediatamente para o relógio no
painel, já temendo o atraso no registro do ponto.
— E xingo de novo, seu merda. Como você
enfia assim na frente do carro? Não viu a seta, não?
— Não aceito que me xingue, tá ouvindo?
— Ah, vá se foder. Pega a reta e some,
mermão.
Doutor Enildo arranca. O abusado emparelha
novamente.
— Tá me xingando por quê? Desce aqui pra
gente acertar as contas.
A
moto atravessa à frente, impedindo a passagem.
Vai
dar BO, penso.
Desde
pequeno tenho pavor de briga. Enquanto a molecada se engalfinhava na saída da
escola, eu — imaginando sangue e porrada — passava cabisbaixo e apressado.
— Desce aqui. Cê num é macho?
— Vou te mostrar o que eu tenho guardado
aqui, seu vagabundo.
Doutor
Enildo destranca o porta-malas. Antes de descer, porém, o valentão já se
escafedeu na ruazinha vicinal.
— Marginal filho da puta!
As pessoas na calçada olham; outros motoristas
reduzem para olhar também.
— Vagabundo desgraçado!
Deixo
Doutor Enildo — Can’t Stop Lovin’You como trilha sonora — dando seu show.
Cabisbaixo
e apressado, atravesso a rua.
Não
quero descobrir o que tem no porta-malas.
