domingo, 3 de maio de 2026

Doutor Enildo

 

O relógio exige velocidade. Grudado às paredes, à cata de sombras, vou pela avenida feito uma lagartixa. O suor brinca na testa, escorre pelas costas. Só me alivio quando passo sob as raras marquises.

        Fom fom

Não olho, afinal, não me chamo buzina.

Fom fom fom

Prestes a mandar o engraçadinho para o quinto dos infernos, noto um Citroën branco encostar no meio-fio. O insulfilme baixa; um rock das antigas escapole.

        — Carona?

        Os dentes de cavalo não impedem os perdigotos de saltarem à calçada. Detesto gente que fala cuspindo — e gente que dirige com som alto e ainda cospe enquanto fala é insuportável. Mas, como diria o outro, a ocasião faz o ladrão. Melhor aceitar a carona que seguir debaixo dessa lua.

Doutor Enildo atira no banco traseiro a pasta, o celular e autos de processos que já deveriam estar arquivados há décadas.

— Calorão da porra, né? Bom pra ficar de boaça na piscina, tomando umas e outras com as novinhas.

        Ele grita, tentando vencer os acordes do Guns. Não sei o que me irrita mais: o volume ou a mania de falar como garotão? Não tem espelho em casa? São perguntas que me faço enquanto ele avança sem esperar os outros carros.  

Olhando para o retrovisor — que ele tanto ignora — penso: sujeito ridículo.  

Doutor Enildo avança o sinal vermelho. Agarrado ao banco, calculo: farei quarenta e quatro no fim do ano e, salvo engano, quando entrei na faculdade ele já estava no antepenúltimo período...

        — Mas você vem a pé todo dia?

A pergunta interrompe minha matemática.

Acostumei, balbucio.

        — Conta outra, cara. Ninguém acostuma com um calorão desse.

        Aprendi que, em Roma, faça como os romanos. Acrescento que caminhar é saudável, que chego no expediente com a mente mais arejada...

        — Conversa mole. Se bem que você sempre foi meio excêntrico. Tinha umas ideias à margem da normalidade.

        Esse doutorzinho de meia-tigela me chamou de doido ou o quê? Nunca lhe dei liberdade para falar assim. Penso em impor um limite mas, ao ver o painel e o volante salpicados de cuspe, desisto.

        — Você precisa comprar um carrão maneiro. Dinheiro pra isso você tem. Ganha bem, eu sei.

        Gosto de andar a pé, retruco.

        — Carro ajuda a pegar mulher, sô. E você tá sempre sozinho. Isso não faz bem pro brinquedo.

Ele ri de um jeito indecente e aumenta o som.

Tento me concentrar no assobio de Wind of Change, evocar o tempo em que não precisava conviver com esse pau-de-bosta.

     — Se bobear, faz tanto tempo que você não tira uma que já empedrou tudo aí dentro.

        Esqueço a música, os perdigotos, os bons tempos e, ao me virar para dizer poucas e boas…

        Criiiiich

Por um triz não esbarramos na moto. E, justiça seja feita, desta vez Enildo estava certo: sinalizou à esquerda; reduziu a velocidade; ao convergir, contudo, o motoqueiro avançou.

        — Seu viado, filho da puta! – grita, agarrado ao volante.

O imprudente dá meia-volta e emparelha à janela:

        — Por que cê me xingou? Eu te xinguei?

        Olho imediatamente para o relógio no painel, já temendo o atraso no registro do ponto.

        — E xingo de novo, seu merda. Como você enfia assim na frente do carro? Não viu a seta, não?

        — Não aceito que me xingue, tá ouvindo?

        — Ah, vá se foder. Pega a reta e some, mermão.

        Doutor Enildo arranca. O abusado emparelha novamente.

       — Tá me xingando por quê? Desce aqui pra gente acertar as contas.

A moto atravessa à frente, impedindo a passagem.

Vai dar BO, penso.

Desde pequeno tenho pavor de briga. Enquanto a molecada se engalfinhava na saída da escola, eu — imaginando sangue e porrada — passava cabisbaixo e apressado.

        — Desce aqui. Cê num é macho?

        — Vou te mostrar o que eu tenho guardado aqui, seu vagabundo.

Doutor Enildo destranca o porta-malas. Antes de descer, porém, o valentão já se escafedeu na ruazinha vicinal.

        — Marginal filho da puta!

         As pessoas na calçada olham; outros motoristas reduzem para olhar também.

        — Vagabundo desgraçado!

Deixo Doutor Enildo — Can’t Stop Lovin’You como trilha sonora — dando seu show.

Cabisbaixo e apressado, atravesso a rua.

Não quero descobrir o que tem no porta-malas.     

       


Texto: Raphael Cerqueira Silva
Imagem: criada pelo CHATGPT


Doutor Enildo

  O relógio exige velocidade. Grudado às paredes, à cata de sombras, vou pela avenida feito uma lagartixa. O suor brinca na testa, escorre...