domingo, 5 de julho de 2026

A seleção joga hoje

 


Linguiça, pernil, alcatra, contrafilé, coxão mole... Tudo em promoção: assim berra o anúncio, em patrióticas letras verde-amarelas, no meu feed.

Hoje é domingo. Pelo badalar irritante do sino, tem missa. Praia e céu de anil, porém, só na canção do Raulzito. Por cá, o tempo se fechou em rigoroso inverno. Mesmo assim, aparece um sujeito — cabelo na régua, descamisado, short, Mizuno colorido, headphone trincando de novo — correndo num reel mal gravado e falando pra câmera que “tá nubladin e nós tá como?” Melhor guardar para mim o adjetivo.

Enquanto o vizinho desce a escada assoviando feito a cigarra da fábula, visto a roupa de sempre — t-shirt, blusão de moletom, calça jeans, boné e o primeiro tênis que encontro pela frente —, pego as chaves e a carteira. Apesar do vento frio e da completa falta de vontade de socializar, preciso ir à rua.

Um velhote cochila no banco da praça; uma senhorinha, toda empertigada, caminha sob o arvoredo; um bobalhão ri para a tela do celular enquanto outro comenta que “a seleção deu uma puta sorte de pegar o Marrocos naquele dia”. E eu, que nem sabia que a terra da Jade e do Tio Ali estava participando da Copa, passo batido.

Duas moças passam correndo por mim. Devem ser do time do bestalhão que vi ainda há pouco no Instagram. A que vai à frente até que é bonitinha... Um Corolla branco buzina. Como sempre, respondo com um aceno, sem saber quem é.

Atravesso a rua.

Na porta do mercado, encostada num carrinho vazio, uma mulher de moletom.  

“Ei, moço, faz favor”.

Paro e a observo. Não tem cara — nem jeito — de pedinte.

“Bom dia. Tô precisando de ajuda pras cinco crianças que tenho em casa. Né dinheiro, não. Já ganhei uma cesta básica e queria uma ajuda com a carne. Pode ser um pouquinho só.”

Me enganei: ela quer pedir, sim. Aliás, o mundo só sabe pedir. Pedem atenção, pedem dinheiro, pedem likes, pedem tolerância, pedem benefícios, pedem carne... Emprego, alguém ainda pede?

Digo que vou ver o que posso fazer.

Entro no mercado.

Há fila no açougue. O povo acordou cedo para aproveitar a promoção e queimar uma carninha durante o jogo. Sim, futebolístico leitor, eu sei que a seleção joga hoje — não sou tão alienado assim.

Coloco queijo, pão, rosquinhas de coco, latas de sardinha na cesta. Falta alguma coisa? Ah, sim: o mel. Mas aqui está caro.

Desvio dos pacotes de carvão — também em promoção — e esbarro na bolsa de uma figura, que me olha com desdém.

Súbito, lembro da infeliz lá fora, tomando vento frio e pensando — talvez — na carne das cinco crianças.

Volto à gôndola dos biscoitos.

Pego um pacote de Ninfa. Não é carne, mas tem leite. Segundo minha nutricionista, ambos são fonte de proteína.

Passo novamente pela figura, que torna a me encarar com o mesmo desdém. Mentalmente, mando-a para o inferno.

Pago no cartão e peço à atendente que coloque o pacote de biscoitos numa sacola separada. É para doação, digo. Ela me olha como quem pensa: “Outro trouxa”.

Volto à calçada.

Agora são duas encostadas no carrinho.

Entrego a sacola à moça; comento que não deu para comprar a carne. Ela agradece e diz que “Jesus vai me dar em dobro”. Respondo com um amém chocho.

Enquanto desço à rua, ouço-a dizer para a outra: “Carne ele não comprou.”

Apresso o passo.

 


texto: Raphael Cerqueira Silva
imagem criada pelo CHATGPT

A seleção joga hoje

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