Linguiça,
pernil, alcatra, contrafilé, coxão mole... Tudo em promoção: assim berra o
anúncio, em patrióticas letras verde-amarelas, no meu feed.
Hoje
é domingo. Pelo badalar irritante do sino, tem missa. Praia e céu de anil, porém,
só na canção do Raulzito. Por cá, o tempo se fechou em rigoroso inverno. Mesmo
assim, aparece um sujeito — cabelo na régua, descamisado, short, Mizuno
colorido, headphone trincando de novo — correndo num reel mal gravado e falando
pra câmera que “tá nubladin e nós tá como?” Melhor guardar para mim o adjetivo.
Enquanto
o vizinho desce a escada assoviando feito a cigarra da fábula, visto a roupa de
sempre — t-shirt, blusão de moletom, calça jeans, boné e o primeiro tênis que encontro
pela frente —, pego as chaves e a carteira. Apesar do vento frio e da completa falta
de vontade de socializar, preciso ir à rua.
Um
velhote cochila no banco da praça; uma senhorinha, toda empertigada, caminha
sob o arvoredo; um bobalhão ri para a tela do celular enquanto outro comenta
que “a seleção deu uma puta sorte de pegar o Marrocos naquele dia”. E eu, que
nem sabia que a terra da Jade e do Tio Ali estava participando da Copa, passo
batido.
Duas
moças passam correndo por mim. Devem ser do time do bestalhão que vi ainda há
pouco no Instagram. A que vai à frente até que é bonitinha... Um Corolla branco
buzina. Como sempre, respondo com um aceno, sem saber quem é.
Atravesso
a rua.
Na
porta do mercado, encostada num carrinho vazio, uma mulher de moletom.
“Ei,
moço, faz favor”.
Paro
e a observo. Não tem cara — nem jeito — de pedinte.
“Bom
dia. Tô precisando de ajuda pras cinco crianças que tenho em casa. Né dinheiro,
não. Já ganhei uma cesta básica e queria uma ajuda com a carne. Pode ser um
pouquinho só.”
Me
enganei: ela quer pedir, sim. Aliás, o mundo só sabe pedir. Pedem atenção,
pedem dinheiro, pedem likes, pedem tolerância, pedem benefícios, pedem carne...
Emprego, alguém ainda pede?
Digo
que vou ver o que posso fazer.
Entro
no mercado.
Há
fila no açougue. O povo acordou cedo para aproveitar a promoção e queimar uma carninha
durante o jogo. Sim, futebolístico leitor, eu sei que a seleção joga hoje — não
sou tão alienado assim.
Coloco
queijo, pão, rosquinhas de coco, latas de sardinha na cesta. Falta alguma
coisa? Ah, sim: o mel. Mas aqui está caro.
Desvio
dos pacotes de carvão — também em promoção — e esbarro na bolsa de uma figura,
que me olha com desdém.
Súbito,
lembro da infeliz lá fora, tomando vento frio e pensando — talvez — na carne
das cinco crianças.
Volto
à gôndola dos biscoitos.
Pego
um pacote de Ninfa. Não é carne, mas tem leite. Segundo minha nutricionista,
ambos são fonte de proteína.
Passo
novamente pela figura, que torna a me encarar com o mesmo desdém. Mentalmente,
mando-a para o inferno.
Pago
no cartão e peço à atendente que coloque o pacote de biscoitos numa sacola
separada. É para doação, digo. Ela me olha como quem pensa: “Outro trouxa”.
Volto
à calçada.
Agora
são duas encostadas no carrinho.
Entrego
a sacola à moça; comento que não deu para comprar a carne. Ela agradece e diz
que “Jesus vai me dar em dobro”. Respondo com um amém chocho.
Enquanto
desço à rua, ouço-a dizer para a outra: “Carne ele não comprou.”
Apresso
o passo.
