quarta-feira, 23 de junho de 2021

VERSOS AO SENHOR ENGENHEIRO


 

Senhor Engenheiro,

depois que construístes este prédio

nunca mais pude ver

a serra da Piedade

 

e aquela casinha caiada

perdida na imensidão vespertina.

 

Senhor Engenheiro,

depois que concretizastes vosso sonho

fiquei a imaginar as chuvas apressadas

descendo a serra

 

crianças de mochilas subindo as ladeiras,

o Cruzeiro iluminando-se ao anoitecer. 

 

Senhor Engenheiro,

com vosso projeto dito progressista

cobristes com eterna sombra

os bancos e as calçadas da Praça

 

a piscina da vizinha,

meus obscenos sonhos de primavera.

 

Senhor Engenheiro,

quando cedestes ao chamado

do insensível capital

esquecestes que além de dígitos

 

contas bancárias

concreto e fama

 

alguém na janela

não veria mais os pombos

no telhado da Matriz

 

a banda passando no treze de maio

pela Floriano Peixoto

 

a chuva descendo nervosa

a Serra da Piedade.

 


 

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

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