domingo, 21 de março de 2021

De volta ao passado


       Ainda outro dia vimos manifestações verde-amarelas nas ruas, praças e janelas. Saudosistas pseudopatriotas pediam, contrariando as diretrizes da Razão e da História, o regresso da nação ao decantado paraíso perdido das décadas de 1960/1970... esse oásis tão, tão remoto que, no mercado, não se encontram mapas, bússolas, radares ou GPS que nos conduzam até lá. Felizmente. Graças a Cronos, ficou para trás.

— Que pena! — suspiram aqueles manifestantes (em geral, cidadãos de bem; gente de escol, como se dizia no tempo deles).

            Mais recentemente, começaram a zanzar por aí pessoas esclarecidas, seguidoras de um ex-astrólogo (hoje filósofo), bradando contra a vacinação. Inevitável, pois, recordar o verso de Nando Reis: o mundo está ao contrário e ninguém reparou.

Tudo ficou de ponta-cabeça, os absurdos tornaram-se aceitáveis. E não há como dialogar com essa gente de bem — afinal, como o Rei canta naquela canção, todos estão surdos. Ensurdecidos e ensandecidos, prostram-se ante o Twitter e o Facebook, esses irresistíveis titãs da nossa era.

            O que está acontecendo?

            Vão-se os anos... voltamos no tempo. Parece que regressamos a 1904, época de pestes, desordens e incompetências administrativas regadas a café-com-leite. De repente, fomos expelidos no centro da capital federal por uma invenção mequetrefe do Professor Pardal. Nossa republiqueta vive em polvorosa contra a vacinação obrigatória promovida por Oswaldo Cruz.

Cruz-credo!, nos persignamos, enquanto erramos por ruas esburacadas, entre cortiços em ruínas e bondes incendiados.

— Quero regressar a 2021! — grita o camarada ao meu lado.

Mas... será mesmo um bom negócio?

Afinal, aqui temos também nossas pestes: COVID-19, manifestantes pró-ditadura, terraplanistas, fake news, lockdown, toque de recolher, um certo mito megalomaníaco... O que está acontecendo?, repete o questionamento do poeta.

Alô, Doutor Brown, me empresta o DeLorean para eu voltar à barriga da mamãe? 







Texto: Raphael Cerqueira Silva 
foto: Forte de Copacabana (acervo do autor) 

 

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