segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A gente sonha com cada coisa

 

                A noite desce fria e silenciosa.  O vento ainda brinca nas janelas.  Minhas vistas estão um pouco irritadas: não sei se um resfriado se aproxima ou se li demais durante o dia. Ligo a televisão. Luís Ricardo apresenta o sorteio da Tele Sena. Como diria um antigo comercial: o tempo passa, o tempo voa... E as bolinhas numeradas continuam a girar e a girar, como faziam nos meus tempos de menino. Antigamente, minha gente comprava Tele Sena. Hoje, temos esperança em quase nada.

          Ajeito o cobertor sobre o corpo.  A mãe, vira e mexe, recorda um antigo comercial das Pernambucanas sobre o frio que bate à porta e quer, a todo custo, entrar... lembro o jingle enquanto me cubro até o pescoço. Este velho cobertor, sem querer, me trouxe reminiscências da infância... Ajeito também as almofadas. Limpo as lentes dos óculos, em vão: meus olhos estão ligeiramente irritados desde antes da janta. Acho que um resfriado bravo vem aí... Olho para uma traça que, lenta e insistentemente, sobe pela parede. Já a derrubei mais cedo e, mesmo assim, voltou a escalar. Persistentemente. Parece até atleta olímpico.

      A noite vai esfriando ainda mais. Notificações chegam à tela do celular, mas recuso a olhá-las. Já cansei de ver vídeos do Tik Tok e fotos de gente sorridente à beira mar. Que fiquem com seu sorriso Doriana e sua praia e seus corpos sarados pra lá... não lhes darei meu like. Quero apenas terminar minha noite, sossegado, vendo televisão.

       Oito horas. “Agora é hora de alegria, vamos sorrir e brincar...” Sílvio Santos entra diferente no auditório: de pijama. Um simpático pijama branco com listras pretas. Parece um avô que vem contar histórias para o neto ao pé da cama. Neste domingo dos pais, frio e silencioso, Sílvio recebe suas colegas de trabalho assim: íntimo. Quando criança, sonhei em frequentar seu auditório e trazer para casa um aviãozinho de cem reais. Menino sonha com cada coisa!

      Também estou com meu pijama. Enrolado no cobertor e de pijama. Final de semana gelado pede cobertor, cama e pijama. Ah, se eu pudesse emendava este domingo ao outro e ao outro, emendava os dias nas noites e, assim, levava o agosto até às barbas do feriadão de sete de setembro. Pra ficar só deitado, lendo e vendo televisão. Nada de vestir a fantasia da sociabilidade, andar pelas ruas que nada me dizem, sujeitar-me às engessadas e pavorosas regras da burocracia, gastar meu tempo com portarias e relatórios e certidões e provimentos e metas... Passar os dias e as noites deitado, de pijama, enrolado no cobertor... Adulto sonha com cada coisa!

       As noites de domingo costumam ser angustiantes: lembram-me, de um jeito bruto, que na segunda começa tudo outra vez. Quem inventou o trabalho não tinha mais o que fazer, li certa vez em um para-choque de caminhão... As pancadas na janela não cessam. Não adianta bater, eu não vou deixar você entrar, tenho ganas de gritar para o vento. Mas não ouso. Prefiro aumentar o som da televisão.

O tempo passa, o tempo voa, já não temos mais a poupança Bamerindus – aliás, nem sei se ainda me restam alguns reais na poupança – e eu continuo aqui: enrolado neste velho cobertor, de pijama, assistindo ao Sílvio Santos.


Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: internet

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