sábado, 2 de julho de 2022

Um canto na tarde


O vento bole as árvores. Apesar do calor intenso, estão verdinhas, as folhas; sobretudo, as folhas daquela árvore que, à esquina, vê o dia e as ilusões do progresso passarem... Mais cedo, li n’O Estado de Minas: a temperatura no sudeste vai subir, chegará aos 40°. Aqui por estas bandas, a julgar pelo vento quente, se ainda não batemos na casa dos quarenta, estamos quase lá... colegas de trabalho se assanham, programam mais uma ida à Guarapari; olhando as árvores, penso nos livros que comprei e ainda não tive tempo de ler. 

Burocratas passam – interminável ir e vir, devem achar que zanzando assim, feito baratas tontas, estão a exercer o constitucional direito de locomoção – levam documentos, autos de processos, tantas regras. “Tento não pensar em nós” enquanto olho as motos cortando a Theophile Dubreil... Estranho, hoje são poucas: normalmente nesse horário é tanto carro e tanta moto que chega a incomodar. 

Alguém cantarola; apesar de desafinado, o canto me remete aos tempos da Professor Ormindo: ensaiamos com a tia Regina para cantar na semana da criança... ô tempinho bom: na semana da criança, a merenda era especial: arroz de forno, macarrão, frutas, às vezes até cachorro quente aparecia... e tinha teatrinho, muito desenho pra colorir... ó, desafinado cantador que varaste a tarde, teu canto abriu a torneirinha da nostalgia, agora como conter o jorro?  Diacho, por que alguém canta, no meio dessa tarde burocrática? O vento parece dizer: desconheço o motivo; eu também, mas isso agora pouco importa: o pensamento galopa apressado para outros campos. 

Vou ao escaninho, retiro meia dúzia de autos para arquivar. No balcão, um homem encurvado desliza o dedo grosso por cada linha do papel diz, em tom queixoso: descabida e absurda. Não sei se se refere à sentença ou à canção. Fecha os autos com fúria, lança ao estagiário um “obrigado” que mais parece um brado de guerra; seus sapatos rangem pelo corredor, ouço o estalar da porta do elevador. O canto persiste, mais alto, mais desafinado; vem do estacionamento, acho. Os dedos do homem, indo e vindo pelas linhas da sentença, me fizeram lembrar quando eu brincava de inventar histórias na máquina de escrever do pai... ao fim de cada linha, puxava a alavanca da esquerda, a folha rolava um pouco pra cima, eu continuava com minhas invencionices... a tarde no sindicato passava assim, ao som dos tac tac tac da Olivetti, do trim trim trim do telefone, dos rangidos das charretes que cortavam a rua. 

A viatura policial circula na avenida. Um burrico, como se senhor do tempo, atravessa calmamente à sua frente. O canto cessou. Alguém ri um riso feio e quase idiota; não vejo seu dono: depois da pandemia o balcão foi afastado mais para perto da porta, da minha mesa não vejo mais quem chega ou quem vai; para vê-los, só indo ao escaninho dos processos para arquivar. Por um lado, é bom: era um tal de ter que responder a cumprimentos falsos e perguntas de gente inconveniente... Um e-mail chegou: é a Estante Virtual me lembrando de qualificar o livreiro. Esta semana não tive tempo de ler nada – certamente na próxima semana será igual: a burocracia surrupia-me o tempo; vivo, não para mim, mas para cumprir ordens. Oh liberdade, liberdade, quando abrirás tuas asas sobre mim?! 

A colega da frente vira-se, rápida e horrendamente, como a menina do Exorcista. Dou conta, assim, que clamei alto demais. A pandemia nos deixou todos doidos, ela comenta. Envergonhado, olho pela janela... tudo isso é triste, chega a ser insano mesmo. As árvores da Theophile Dubreil agora estão paradinhas, o vento se foi... ó, Éolo, será que ruminei minhas inquietudes tão alto? Os burocratas, ao contrário, continuam indo e vindo, carregando provimentos, jurisprudências, portarias, despachos nesse eterno, démodé e medíocre bailado. O canto, ao menos, retornou. 




Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor 

Um comentário:

  1. Adorei a crônica! Desconfio que fui eu quem fiz o comentário sobre a pandemia!!!

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