terça-feira, 22 de novembro de 2022

Adeus, Erasmo Carlos

 


Abro minha caixa de e-mail. São 14:08 horas, de uma tarde ordinária, dessas bem burocráticas que nos arrasta junto com ofícios, alvarás e mandados. Mas, como eu dizia, abro minha caixa de e-mail: preciso solicitar qualquer coisa no portal da informática.

Chegou um desses e-mails que recebo aos montes, enviados por jornais e sites de entretenimento. Normalmente, não os abro; mas este aqui preciso abrir: MORRE O CANTOR E COMPOSITOR ERASMO CARLOS. Assim está grafada a matéria. Um soco em caixa alta, bem no meio do estômago, certeiro como aqueles que o Stallone dá nos filmes.

Aqui, no computador da repartição, não consigo abrir sites de noticiários, portanto, sou impedido de saber o que se passa no mundo. Isso pode ser bom ou ruim, depende do que está a acontecer; se eclodir uma guerra, por exemplo, só saberei quando chegar em casa, lá pelas seis e tanta (isso se eu chegar vivo, porque posso ser alvo de uma bomba qualquer enquanto caminho, vá saber). Assim, só fico sabendo das novidades quando abro algum desses e-mails que me chegam como mariposas no verão e leio suas manchetes. É o que faço agora. 


Mesmo sem acesso ao conteúdo integral, a manchete por si só já me abala. Ainda há pouco, coisa de uns trinta minutos, eu ouvi uma canção do Tremendão - uma das muitas que estão dispersas em minhas playlists. Erasmo é parte de minha trilha sonora diária, e isso faz tempo.


Corro a vista pelo Google Notícias. Infelizmente, não é fake news: aos 81 anos, o Gigante Gentil sai de cena. Parte para o andar de cima, fará companhia à Gal Costa (cuja passagem ainda não superei). Ícones da música estão partindo... é triste ver gente que eu ouço todo dia, desde os tempos dos vinis, indo embora. É da vida, alguém pode argumentar. Sim, é, mas não deixa de me entristecer.  


Inevitavelmente meu lado nostálgico dispara - eu tenho um lado nostálgico que é, tipo, o lado B dos velhos discos: vive tocando e me levando a outras eras. A memória auditiva mais antiga que trago do Erasmo é a canção que ele gravou com a Turma do Balão Mágico: "barato bom barato bom é o da barata dona girafa que gravata..." esses versos tocaram tanto na vitrolinha lá de casa. Trilha sonora de infância marca, desperta-me a nostalgia.  Outra canção me vem à mente: Papo de Esquina, que o Tremendão gravou em 1988 com seu irmão de fé Roberto Carlos, e que ouvíamos muito no toca-fitas do Chevette do pai.
 

 Lá em casa também rodava bastante o "Erasmo... Convida", com duetos de velhas canções de sua autoria. Anos e anos depois, quando lançado o segundo volume (já nos tempos do CD) fiz questão de comprá-lo na pré-venda da internet. E eu o ouvi muito no meu discman, indo e voltando da faculdade...  está guardadinho nalgum canto do meu quarto, junto com outros discos e dvds do Erasmo.


Essas memórias musicais são disparadas enquanto já nem me lembro mais por que abri a caixa de e-mail. Deixa pra lá, é de somenos importância. Decidido, volto a redigir os ofícios e as cartas, enquanto o Spotify, aleatoriamente, executa "Abra seus olhos". E os meus olhos, bem abertos, represam uma lágrima de despedida: "aqui não é lugar para sentimentalismos", sentencio a mim mesmo, antes que outros o façam.  





Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: internet 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A última sessão de música

 

        Acordo antes do galo cantar, olho o céu: “é, parece que não vai chover”. Visto-me, vou à rodoviária.

        Uns gatos pingados esperam ônibus. Os passageiros desembarcam, alguns sonolentos; abraços e cumprimentos, malas e bolsas, olhares perscrutadores: a vida se repete na plataforma.  Encostado na pilastra, observo o vai e vem: uma mulher leva a criança no colo, senhoras com sacola, um homem com o cigarro no canto da boca, um jovem desengonçado com a mochila no ombro, o velho televisor ligado sempre no mesmo canal... É a vida desse lugar, é a vida.

        Espero o trocador entregar as bagagens. Entre os que desembarcam, Carmô, bolsa e jaqueta penduradas no braço. Desce com dificuldade, um senhor a ajuda. Cumprimenta-me com seu sorriso de alvorecer – é daquelas que nunca acordam de mau humor, uma espécie de Maria que mistura a dor e a alegria, sempre driblando as vicissitudes da vida com um sorriso. Ela bota a bolsa na cadeira, pega o celular “vou ligar pro Osvandir que, na certa, perdeu a hora de vir me apanhar”.

Os passageiros retiram as malas no bagageiro, eu aguardo.

        “Estou vindo de BH, fui assistir o show do Bituca”, ela me diz. Rapidamente me vem à memória aquela época em que trabalhamos juntos: Carmô chegava ao expediente, sempre sorridente, cantarolando canções do Milton. E, mesmo depois da tragédia que vitimou seu filho e parte de seus sonhos, Carmô continuou cantarolando na repartição.   

        “Assisti pelo Globoplay, foi muito bom” digo.

        “Muito bom, maninho? Foi MA-RA-VI-LHO-SO! Mineirão lotado, o pessoal numa energia incrível. Quando as cortinas se abriram, me senti transportada para o céu... chama, chama e ninguém atende”. Carmô tenta outra vez, peço licença.

        O trocador me entrega a caixa. Carmô ainda tenta falar com o marido. “Não posso te dar carona. Tô a pé, como sempre” justifico-me, ela sorri: “Maninho, tô extasiada até agora, nem consegui pregar o olho na viagem. Fiquei lá na frente... apareci na televisão?” Nego com a cabeça, coloco a caixa no chão (puxa, mais pesada que imaginei, penso).

“Me emocionei pra caramba. E pensar que não veremos mais o Bituca nos palcos da vida, dá uma dó! Ontem, quando ouvi Cuitelinho, ah maninho, não aguentei e chorei: lembrei os tempos em que eu morava na roça, meu menino ainda pequeno correndo no terreiro com as galinhas...”

“Ele dedicou o show à Gal, né. Achei tão bonito isso.”

“Tudo foi lindo. Não acredito que participei desse momento histórico... Alô, Osvandir, onde você tá? Como assim onde eu tô... Na rodoviária, uai, o ônibus já chegou... Que adiantou o quê, já viu ônibus adiantar, Osvandir! Você é que perdeu a hora... Tá, vou esperar.” Carmô guarda o celular, comenta: “Desde que saiu do coma que o Osvandir ficou assim, meio esquecido... bem que o médico avisou: nada será como antes. O que se há de fazer, né? É a vida, maninho, é a vida... mas, voltando pro show: na hora que reabriram as cortinas e o Wagner Tiso tocou os primeiros acordes de ‘Coração de Estudante’... ah, não aguentei. Mas não foi só eu que desandou a chorar não: perto de mim um monte de gente foi às lágrimas...essa música é forte, né, e muito significativa, ainda mais em um momento como esse... Peraí, o celular tá tocando. Oi, Osvandir. Hein, o portão enguiçou? Não, vai amolar vizinho a essa hora, não... hoje é emenda do feriado, esqueceu? O povo vai dormir até mais tarde. Eu pego o táxi, pode deixar. Tchau.”

Carmô desliga e, apesar do contratempo, mantém a ternura ao falar: “De novo o portão eletrônico deu defeito. E o Osvandir não consegue levantá-lo, sabe. Desde que fez aquela cirurgia no braço, por conta do acidente, não consegue levantar nada pesado... e aquele portão parece de chumbo. Enfim, meu caminho é de pedra, maninho, mas... é a vida”.

Pego minha caixa, ela, a bolsa e a jaqueta; vamos pela rampa. “Sei muito bem o que o Bituca tá passando; quando fui forçada a parar com minha carreira... você sabe, o acidente estúpido com o ônibus quando voltávamos dum show, a perda do meu menino, o coma do Osvandir... Nossa, foi duro. A gente começava a ampliar nosso público, a se apresentar em outras cidades, aí, de repente, acontece tudo aquilo... Enfim, seguimos a vida, porém, nada mais foi como antes: Osvandir aposentou por invalidez, eu continuei na repartição. Mas, como eu simplesmente não consigo parar, em casa solto a voz para tentar sufocar a tristeza e, na repartição, canto para suportar a burocracia... No violão, porém, nunca mais mexi: me entristece, lembro do meu menino, ele aprendeu a tocar de ouvido, diziam que tinha um futuro promissor... Osvandir, coitado, não consegue tocar mais nada.”

Carmô me oferta mais um pouco de seu sorriso de alvorecer, tenta conter uma lágrima: “E você, que notícias me dá de você?”

“Caí da cama cedo para buscar esta caixa. São livros que um amigo de Belo Horizonte me enviou. Ele está de mudança para Lisboa, me presenteou com um monte de livros.” Carmô segue manquitolando ao meu lado. Digo-lhe que estou finalizando um livro de crônicas, “já em fase de revisão”, ela comenta que o pessoal da repartição “sente muito sua falta, gostavam de você”. Assinto em silêncio, embora eu não possa dizer o mesmo deles, penso.

 “Qualquer dia a gente se vê”, diz, acenando do táxi. Apesar da caixa pesada, sigo a pé pela avenida, pensando: quanta disposição! Encarar mais de sete horas de viagem, ter que cruzar a Rodovia dos Inconfidentes onde tudo aconteceu... claro que ela relembrou o acidente com a banda, a morte do filho: essas lembranças são inevitáveis. Puxa, que travessia! Sem contar que passou o dia inteiro na capital, pegando táxi para ir e voltar do estádio, varou a noite nesse ônibus desconfortável... é cansativo para mim, imagino para ela que, depois da tragédia, ficou com aquele problema na perna. Enfim, é preciso ter gana, não é assim que diz aquele verso do Milton? Se fosse comigo, não teria essa força toda, não.

 

       

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

INTENSA E FORTE

 


Nuvens cinza-chumbo fizeram da manhã, noite. Pelas frestas da janela, penetra um ventinho frio; meus pés pedem meias, meus olhos querem palavras. Em dias assim, recordo os versos de Djavan: “um dia frio/um bom lugar pra ler um livro”... abro o armário: ainda embalados, alguns livros adquiridos em minha penúltima viagem a Juiz de Fora cobram-me leitura (eu e minha velha mania de comprar mais livros que dou conta de ler). Desembrulho o Verissimo... crônicas ajudarão a levar esta manhã.

A chuva volta a cair, o quarto escurece ainda mais. Vejo-me obrigado a puxar a poltrona mais para perto da janela... Ontem, no fim da tarde, choveu granizo - cada pedra de amedrontar, pensei que ia furar as telhas da cobertura. Mais tarde, enquanto assistia Travessia, mais chuva despencou, exigindo-me moletom e cobertor.

Atipicamente, o novembro vai se entristecendo com chuva e frio. Viro uma página, outra, mais outra... as cenas e situações bem humoradas acalentam. Todavia, não afastam a vontade de roer alguma coisa: uma, duas castanhas talvez sejam suficientes para engambelar o estômago até o almoço ficar pronto.

No quarto ao lado, a criança assiste desenho; na rua, alunos e carros e motos apressam-se para fugir dos grossos pingos. Indiferentes, as maritacas cantam sua estridente e, aparentemente, desarmônica sinfonia. Ontem, antes do toró, pausei a leitura do Batman, observei-as: duas – talvez um casalzinho – há dias tentam fazer um buraquinho entre a parede e o caibro do telhado. Todavia, ariscas como só elas o são, futricavam o buraco, paravam, me olhavam... e, de repente, num tremendo alarido, voaram até a árvore da escola.

***

Findo o almoço, e com a chuva rareando, deito-me na cama. (Nesses dias de férias, é possível fazer a sesta.) Deslizo os dedos fatigados pelo feed do Instagram. Súbito, um daqueles posts que não se quer ver: morre Gal Costa, aos 77 anos. Não é uma notícia fácil de se digerir... infelizmente, mais uma voz – e que voz, senhores! – silencia-se.

Assisti a um único show de Gal, há alguns anos, em Juiz de Fora. Numa noite de muito frio, sua voz inigualável me aqueceu e enterneceu. Um show intimista, voz e violão. Daqueles momentos que a gente guarda na memória, para sempre.

Meus dedos continuam a deslizar no smartphone, fotos e vídeos de Gal se revezam na tela. Uma grande perda...

***

Lembrei-me daquela vez que o vendedor da loja de CDs me telefonou (faz tempo isso, bicho, eu ainda comprava CDs e ainda tinha telefone fixo em casa).

“Alô.”

“Alô, tudo bem? A Gal chegou!”

Por um instante, não captei a mensagem. Eu assistia a um filme no quarto, irritado porque o vento não deixava as cortinas paradas e a claridade dava no televisor e, súbito, o telefone tocou; corri para atender e alguém, sem se identificar, exclama: “A Gal chegou!”. Achei que era trote, ri. Do outro lado da linha, a criatura, enfim, se identificou. E só aí me dei conta: era o cara da loja ligando para me avisar que o disco que eu encomendara chegou.

***

“Estratosférica” foi, se não me engano, um dos últimos CD’s que comprei. Da Gal, foi o último: tempos depois migrei, definitivamente, para o universo digital... estas linhas, por exemplo, são escritas enquanto uma de minhas playlists no Spotify está tocando.

Enquanto finalizo esta crônica, e os acordes iniciais de “Lágrimas Negras” se insinua entre os livros e a luminária forçosamente acesa às duas e pouca da tarde, lá fora a chuva cai novamente, intensa e forte, como o canto de Gal Costa. 

 


      Texto: Raphael Cerqueira Silva 

foto: acervo do autor 

sábado, 29 de outubro de 2022

A ira de Sandovalino

         Vou pela avenida, fones nos ouvidos, cantando em dueto com Cássia Eller. (Depois da pandemia, larguei mão de ser bobo, passei a cantar na rua, no trabalho, em qualquer canto... sem me importar com o que pensam de mim, e sem medo de ser feliz). Mas, como eu dizia, lá vou eu pela avenida; passos firmes, sinto o frescor da manhã primaveril roçar-me o rosto. Súbito, alguém grita: “Ei, ei, coisinha!”

A princípio, não olho, afinal, não sou “coisinha”. A pessoa insiste, parece irritada: “Coisinha, ei, peraí!” Digo aos meus botões (pensando bem, não há botões no meu traje de academia mas, para fins literários, deixo a expressão): deve ser comigo. Olho.

Sandovalino me acena, esperando uma brecha para atravessar. Como não reconheci sua voz? Essa música deve estar muito alta, resmungo, baixando o volume. Encostado na mureta da ponte, eu o aguardo. O short jeans, justo e curto, deixa seus gambitos à mostra; na camiseta verde-amarela, sob a carantonha do Imbrochável, o asqueroso lema: Deus, Pátria, Família.

O ônibus passa, Sandovalino atravessa; no rosto, um misto de fúria e desencanto. Mais uma vez seu namorado saiu de casa, comento para meus botões imaginários.

Sandovalino se aproxima, dedo em riste, a outra mão na cintura fina. O que será que esse cara chato quer comigo?, me pergunto, baixando ainda mais o volume do celular.

- Olha aqui, tô achando RI-DÌ-CU-LAS suas postagens no Insta. Que decepção, menino, que decepção! Eu fazia outra imagem de você: um bofe culto, que vive lendo e fez não sei quantas faculdades, que publicou livro... eu até comprei seu livro... agora vem declarar voto naquele ladrão condenado pela justiça. Nossa, vi suas postagens e fiquei chocado. Ainda ontem comentei lá no meu serviço: tô passado, decepcionado mesmo.

Sandovalino fala sem tomar fôlego. A saraivada de palavras, no entanto, não me impede de recordar algumas declarações atribuídas pela mídia ao seu candidato: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele”, “Moro num condomínio, de repente vai um casal homossexual morar do meu lado. Isso vai desvalorizar minha casa!”... Sandovalino continua falando, lembro-me outras frases, inclusive aquela famosa: “menino veste azul e menina veste rosa” dita pela ministra-que-vê-Jesus-na- goiabeira. Sandovalino fala cuspindo feito o Frajola, olho a foto estampada em sua camiseta, me pergunto: não lê jornal, não vê televisão? Decido não discutir: como dizia minha professora de História Antiga, é cegueira mental.

- My God, eu não sabia que você era petralha... eu tenho ranço dessa gente. Por isso, eu peguei seu livro e rasguei em mil pedacinhos; fiz que nem a Sandra de Sá: joguei fora no lixo! E depois taquei fogo, pra não restar nem uma vírgula, nem um ponto daquele lero-lero comunista.

Sorrio com sarcasmo. Sandovalino bufa e, antes que me empurre pela mureta, sigo meu caminho. Ele grita, me acusa de não ter argumentos, retruco: “Minhas postagens falam por mim. Tchau, querido!” Ele nota, claro, a ironia.

- CAN-CE-LEI você! Tá amarrado que eu vou continuar te seguindo. Não sigo comunistas, apoiadores de ex presidiário. Meu presidente será reeleito no domingo e, em nome de Jesus, vai mandar vocês todos pra Cuba, pro paredão, pro diabo que os parta.

Com o indicador e o polegar, faço-lhe o “L”; aumento o volume, vou caminhando e cantando: “O que está acontecendo?/O mundo está ao contrário e ninguém reparou/O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou”.

Em casa, tiro a roupa suada. Antes de procurar o chuveiro, checo as redes sociais: perdi mais alguns seguidores. Leio os novos comentários: ataques de direitistas radicais, mais ofensas e, entre tantas baboseiras, um comentário de Sandovalino na minha postagem mais recente: um 22 seguido de um monte de bandeirinhas do Brasil.

Apago ou não apago, eis a questão. Olho as maritacas que me olham dependuradas nas telhas, decido: apago. Faço como aquela santarrona lá da repartição, que anteontem deletou meu link no grupo do WhatsApp. Faxina feita, posso tomar meu banho sossegado. 

 


Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

domingo, 23 de outubro de 2022

Ainda não sei

 

Ainda não sei

No banco da praça, o Professor Gê está sentado como O Pensador do Rodin. Cumprimento-o, não me responde. Estranho, não é de ficar acabrunhado assim... dou meia-volta, sento-me ao seu lado: afinal, ele me ajudou tantas vezes, não só quando fui seu aluno mas, e principalmente, quando comecei a lecionar. A fim de lhe desanuviar o cenho, pergunto: que se passa. Era desse jeito que nos abordava em sala de aula ao notar que algo nos incomodava.

O Professor Gê aponta a bandeira do outro lado da rua:

“É um absurdo, para não dizer uma afronta, o dono dessa padaria hastear a bandeira em uma conjuntura dessas... vê-se, claramente: também debandou para o lado de lá.”

“Professor”, digo-lhe, “a bandeira é um símbolo nacional, pode – e, penso eu, deve - ser hasteada sempre, em qualquer ocasião.”

“Meu caro, você é um rapaz inteligente, portanto, não venha com esse discursinho hipócrita, fingindo uma neutralidade que, eu sei, não é do seu feitio.”

O Professor Gê assume a postura anterior. Insisto:

“Também não dá para dizer que a bandeira foi colocada ali pelo dono da padaria. Olha, o mastro está fixado no muro e, ali do lado, funciona uma repartição pública.”

“Suponhamos, meu caro, que a bandeira foi hasteada por alguém do funcionalismo: ainda assim me incomoda. Sabemos que, neste momento, os fascistóides que nos desgovernam se apropriaram da nossa bandeira para vender a falsa imagem de que são patriotas... Você sabe disso.”

“Sim, eu sei, professor, e me sinto igualmente incomodado. Mas, não me surpreendo com essa bandeira aí há uma semana das eleições, afinal, sabemos de que lado a política local está... Lá no meu prédio está a maior quizumba: o síndico não aceita bandeiras nas sacadas e janelas, os condôminos penduram assim mesmo... Agora, me explica uma coisa: outro dia você comentou que não estava mais engajado na política, que se afastou das redes sociais...”

O Professor Gê empertiga-se; no estilo catedrático e aguerrido de sempre, me diz:

“Até o primeiro turno eu estava quieto, sim. A princípio, prometera não me manifestar porque, você sabe, os tempos estão cascudos e vem chumbo grosso por aí. En passant, comentei com alguns amigos que não votaria mais no Ciro, afinal, era preciso derrotar o Imbrochável já no primeiro turno e só o Lula tinha condições políticas para isso... Mas não externei publicamente meu voto. Aí entramos na campanha do segundo turno: avalanches de fake news, discursos de falsos crentes e conservadores, baixaria em cima de baixaria, tanta canalhice... fui forçado a me manifestar nas redes. Mesmo assim, estou postando pouco: uma reportagem aqui, uma entrevista ali, um resultado de pesquisas, evito responder comentários... os senhores algoritmos deixam você ver?”

Assinto, atento ao menino que se aproxima.

“Francamente, não me reconheço: nunca fui contido assim, você sabe... serão estes cabelos brancos? Lembra o quanto fui engajado, militante mesmo, nas eleições anteriores? Na época do golpe contra a Dilma, travei discussões infindáveis na escola particular onde eu lecionava. Conclusão: perdi o contrato. Mas, feito Carlota Joaquina, saí descalço daquela choldra para dali não levar sequer o pó. Olhando pelo retrovisor, meu caro, noto: reduzi muito a marcha... Mesmo assim, ontem fui a Juiz de Fora ver o comício do Lula... bonito, bonito mesmo todo aquele mundaréu de gente na Praça da Estação.”

O menino oferece chocolates, diz que não vendeu nada e que precisa ajudar a mãe doente. “Quantos chocolates tem aí na caixa?”, o Professor Gê indaga. Com o dedo, o menino conta. O Professor tira da carteira duas notas de vinte. “Me dá todos”. Os olhinhos do menino brilham e, saltitando feito um antílope, ele atravessa a praça.

Ah, o bom e velho Professor Gê. Lembro-me dele, de pé na mesa da cantina da escola, bradando contra os professores e funcionários que devoravam a carne da merenda e deixavam para nós, os alunos, a sopa rala de macarrão.

“Não é comprando estas porcarias açucaradas e cheias de química que mudaremos o país, mas é o que dá para fazer, por ora... Escuta, estou possesso com a diretora lá do colégio.”

“Ainda é a Rivanilda, professor?”

“A própria. Aquela fascistinha de merda, adoradora de falsos mitos se adonou do colégio como um césar romano: ninguém consegue tirá-la da diretoria... Na pandemia, criou um grupo de whatsapp “para facilitar nossa comunicação”, ela justificou. A principio, relutei em participar daquilo: muita bajulação, muita hipocrisia... mas acabei ficando no grupo, embora deixe as notificações silenciadas... Imagina o nome do grupo?”

Minha vez de franzir o cenho. Ele sorri:

 “Colégio Altruístico. Por Júpiter, que título mais besta. Por que esse nome? Não sei e, se bobear, nem ela sabe, porque o espírito da solidariedade ou da fraternidade passa longe daquele coliseu, você conhece aquilo lá... A não ser que se possa considerar altruísmo ficar enviando mensagens pretensamente religiosas, versículos, orações e essa presepada de igreja... Rivanilda posta todo dia essas papeatas; acha que, sendo administradora do grupo, precisa dar o exemplo. “Deus, Pátria e Família”, ela vive escrevendo sem saber donde vem esse lema.”

“Saí de todos os grupos do zap.”

“Este babaca que vos fala devia ter feito o mesmo. Mas, não: fiquei no grupo e, volta e meia, me pego discutindo com alguns beócios. Outro dia tentei explicar ao professor de matemática, por A + B, o que foi o Integralismo e por que o lema surrupiado pelo Inominável me incomoda tanto... quase fui linchado. Meu caro, tento levar a luz da racionalidade, recebo em troca pedradas de gente medieva e tacanha.”

Ele me oferece um chocolate.

“Sabe, às vezes me sinto como naquela alegoria do Platão: sou o prisioneiro da caverna que vê a luminosidade, volta para contar e toma uma coça por blasfemar contra a escuridão. Por isso, desde que começou a campanha, fiquei mais quieto. Porém, hoje não aguentei: postei no grupo um link falando do absurdo que o governo quer fazer com os aposentados... você deve ter lido essa proposta abjeta do Guedes de desvincular o salário mínimo e os benefícios da previdência do INPC.”

O chocolate está meio mole, lambuza-me os dedos. Assinto.

“Na hora do almoço, Rivanilda me enviou mensagem no privado. Olha o que aquela ditadora de merda me escreveu...” - o Professor Gê saca o celular do bolso, mostra-me a mensagem que printou – “printei, sim, porque Rivanilda é mestra em apagar as mensagens e depois diz que suas palavras foram deturpadas.”

Ele me entrega seu celular. Pego-o com cuidado para não lambuzá-lo, leio:

“Bom dia, professor!!! Por favor, nada de política no grupo Colégio Altruístico. Veja que ninguém postou nada de política aqui, aí vem o professor com essa postagem! Fica com Deus!!!”

Devolvo-lhe o celular. O professor Gê pergunta se li sua resposta, faço que não com a cabeça. Ele, então, a resume: não se trata de politica e sim de uma matéria publicada por uma revista explicando as consequências para os trabalhadores e aposentados brasileiros, se aprovado o projeto do governo.

“Agora escuta a resposta da fascistinha: Desculpa, professor, mas no atual momento é politicagem sim! Todas as postagens servem para nortear a decisão dos eleitores! A postagem deve ser excluída!!... Ah, como esses pontos de exclamação me irritam: me lembram aquelas revistinhas onde os personagens só falam com exclamações...”

“E o que você fez?”

“Não respondi, também não excluí. Isso é censura, e eu sou veementemente contra a censura, sempre fui... Lembra aquela vez em que fui à Superintendência porque queriam proibir a leitura em sala de aula dos livros do Dalton Trevisan, sob pretexto que seus textos ofendiam a moral? “Censura, censura” bradei na Superintendência... Venci a peleja, trabalhei os textos com os alunos. E da outra vez em que vieram com papinho: Monteiro Lobato é racista, é preconceituoso, os alunos não devem ler mais suas obras... “Censura!” bradei. Ameacei procurar um jornal na capital, armei um salseiro na Superintendência... Venci de novo: não só lemos as Caçadas de Pedrinho, como encenamos uma peça baseada no livro. Mais recentemente, Rivanilda me procurou, disse que alguns pais se sentiram incomodados porque eu lecionei sobre religiões de matriz africana e levei para a classe imagens de orixás. Ah, ameacei oficiar o governador, chamar a imprensa... morreu o assunto, pude trabalhar o conteúdo em paz.”

“E a postagem lá no grupo, ficou por isso mesmo?”

“O quê, e aquela Lucrécia Bórgia ia deixar? Ela apagou o link.”

“E você vai fazer o quê?”

Professor Gê mira a bandeira, assume novamente a postura meditativa:

“Ainda não sei, meu caro, ainda não sei...”

 


Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Imagem: acervo do autor 

 

 

 

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