domingo, 22 de agosto de 2021

Tudo tem dois lados

 

         O sol tomba no chão rubro de sangue. Há sangue por todos os lados: no planalto, sob as estátuas chamuscadas, nos adros, nos jardins, nas câmaras, nas fazendas do agronegócio, nas salas de estar dos cidadãos de bem, nos gabinetes, nos puteiros, entre os livros tombados em desuso, nos discursos moralistas, no canto de artistas de bota e chapéu, nos corredores forenses e hospitalares... O país sangra. Como o touro alanceado na arena. O país sangra. A plateia, extasiada, urra e aplaude. O touro bravamente resiste, suportando sua sina. Lentamente, o país sangra. O toureiro, no afã de sagrar-se campeão, desfere implacável golpe. Olé, grita a patuleia agitada. O país esvai-se em sangue. Aplausos.

         Nos tempos de escola aprendi que sangramentos contínuos, se não estancados, levam ao óbito. Não sei se entendi direito a lição de ciências, talvez não me ensinaram corretamente... Tudo tem dois lados, como as moedas que eu usava para comprar chiclete na venda. Noutro dia, nevou em Gramado e Canela; vi na internet um monte de panguá aglomerado nas ruas, olhando o céu e rindo e saltitando na neve, esquecidos dos protocolos que os novos tempos exigem. Lembrei também de uma aula de geografia: o Brasil, localizado abaixo da linha do Equador, possui clima tropical e, portanto, em seu espaço territorial não há formação de neve, como ocorre nos países do hemisfério norte, de clima predominantemente temperado. Ou não aprendi corretamente a lição ou me ensinaram errado... Tudo tem dois lados, como aquela borracha azul e rosa da Mercur que manchava meu caderno.

         Voltando ao sangramento – quase hemorragia – entendi o significado da expressão “boi de piranha” ao assistir Pantanal: em certo capítulo, a peonada precisava atravessar o rio. Para salvar a boiada da fúria das piranhas, feriram um boi e atiraram-no rio acima. A comitiva de Seu José Leôncio passou então, incólume, enquanto as piranhas devoravam o animal. Sacrificou-se, assim, um bicho velho ou doente para preservar a boiada... Ainda não sei quem é o boi de piranha da vez; talvez tenhamos vários sacrificados pois, conforme a voracidade do cardume, será necessário imolar mais de um membro do gado. A comitiva passa. Da janela, observo.

         Por ora, o que vejo é o touro esmorecendo, o chão da arena tetricamente rubro e o toureiro, como um bufão, rindo extasiado com os hurras e vivas e aplausos da plateia. Mas, tudo tem dois lados e há aqueles que, como Dom Afonso da Maia, acreditam na vantagem da tourada: “É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza...”.

          



 Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

AOS POUCOS, FICAMOS ÓRFÃOS

O dia amanheceu ensolarado. Quem diria que depois da ventania de ontem à noite, a manhã se derramaria amena. Aos poucos, o sol tomava para si as cerâmicas da varanda. Não liguei o televisor - raramente o faço pela manhã -, também não corri os olhos pelas redes sociais; respondi apenas duas mensagens desnecessárias no WhatsApp. Sentei-me à sala para reler O Morro dos Ventos Uivantes. Entre um parágrafo e outro, minha mente retornava aos desencontros e atropelos burocráticos de ontem...

Os sinos das igrejas anunciavam o meio do dia quando cheguei ao trabalho. Enquanto esperava o computador ligar, uma colega comentou comigo: Tarcísio Meira faleceu. Comentou porque sabe que sou noveleiro. Embora eu já soubesse que o Tarcisão estava internado e entubado por complicações decorrentes da COVID-19, a gente sempre nutre um cadinho de esperança...

A tarde passou, arrastada como sempre. Mais do mesmo, como diria minha professora: mais burocracia, mais negacionismo, mais falácias, mais prazos vencidos para certificar, mais audiências para redesignar, mais biscoitos para roer na hora do café... a gente se acostuma. O jogo é sempre o mesmo e este reles peão já entendeu: é mera e dispensável peça no tabuleiro. A gente se acostuma. Mas não devia, como diz aquela crônica da Marina Colasanti.

Sem acesso à internet, não pude checar as notícias sobre a partida do Tarcísio, que marcou gerações de noveleiros com seu carisma, seu talento, seu charme, seu jeitão próprio de dar vida a personagens tão diferentes entre si... foi mocinho, jagunço, político corrupto, vampiro, empresário, lorde britânico, vilão, filho, pai e avô. Tarcísio é daqueles atores que, mesmo calado em cena, captura nossa atenção só com o olhar ou o sorriso. Enquanto escrevo esta crônica, me vem à memória a minissérie A Muralha. Tarcisão vivia o asqueroso e inesquecível Dom Jerônimo; para mim, um de seus melhores momentos na telinha. 

Tarcísio Meira vai fazer falta. Muita falta. E acho que, nesse caso, a gente não se acostuma. Ainda bem que temos o Youtube e o Globoplay para podermos rever grandes momentos da nossa teledramaturgia. Ontem mesmo à noite, enquanto o vento açoitava a janela do quarto e eu tentava desanuviar os pensamentos, assisti a mais um capítulo de A Favorita, onde Tarcísio disputou com Mauro Mendonça o amor de Glória Menezes. 

Aos poucos, a televisão e, consequentemente, os telespectadores vamos ficando órfãos dos grandes atores. Quem diria que um dia que nasceu tão reluzente fosse terminar enlutado. Esse ano, assim como o passado, não está sendo fácil.

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A gente sonha com cada coisa

 

                A noite desce fria e silenciosa.  O vento ainda brinca nas janelas.  Minhas vistas estão um pouco irritadas: não sei se um resfriado se aproxima ou se li demais durante o dia. Ligo a televisão. Luís Ricardo apresenta o sorteio da Tele Sena. Como diria um antigo comercial: o tempo passa, o tempo voa... E as bolinhas numeradas continuam a girar e a girar, como faziam nos meus tempos de menino. Antigamente, minha gente comprava Tele Sena. Hoje, temos esperança em quase nada.

          Ajeito o cobertor sobre o corpo.  A mãe, vira e mexe, recorda um antigo comercial das Pernambucanas sobre o frio que bate à porta e quer, a todo custo, entrar... lembro o jingle enquanto me cubro até o pescoço. Este velho cobertor, sem querer, me trouxe reminiscências da infância... Ajeito também as almofadas. Limpo as lentes dos óculos, em vão: meus olhos estão ligeiramente irritados desde antes da janta. Acho que um resfriado bravo vem aí... Olho para uma traça que, lenta e insistentemente, sobe pela parede. Já a derrubei mais cedo e, mesmo assim, voltou a escalar. Persistentemente. Parece até atleta olímpico.

      A noite vai esfriando ainda mais. Notificações chegam à tela do celular, mas recuso a olhá-las. Já cansei de ver vídeos do Tik Tok e fotos de gente sorridente à beira mar. Que fiquem com seu sorriso Doriana e sua praia e seus corpos sarados pra lá... não lhes darei meu like. Quero apenas terminar minha noite, sossegado, vendo televisão.

       Oito horas. “Agora é hora de alegria, vamos sorrir e brincar...” Sílvio Santos entra diferente no auditório: de pijama. Um simpático pijama branco com listras pretas. Parece um avô que vem contar histórias para o neto ao pé da cama. Neste domingo dos pais, frio e silencioso, Sílvio recebe suas colegas de trabalho assim: íntimo. Quando criança, sonhei em frequentar seu auditório e trazer para casa um aviãozinho de cem reais. Menino sonha com cada coisa!

      Também estou com meu pijama. Enrolado no cobertor e de pijama. Final de semana gelado pede cobertor, cama e pijama. Ah, se eu pudesse emendava este domingo ao outro e ao outro, emendava os dias nas noites e, assim, levava o agosto até às barbas do feriadão de sete de setembro. Pra ficar só deitado, lendo e vendo televisão. Nada de vestir a fantasia da sociabilidade, andar pelas ruas que nada me dizem, sujeitar-me às engessadas e pavorosas regras da burocracia, gastar meu tempo com portarias e relatórios e certidões e provimentos e metas... Passar os dias e as noites deitado, de pijama, enrolado no cobertor... Adulto sonha com cada coisa!

       As noites de domingo costumam ser angustiantes: lembram-me, de um jeito bruto, que na segunda começa tudo outra vez. Quem inventou o trabalho não tinha mais o que fazer, li certa vez em um para-choque de caminhão... As pancadas na janela não cessam. Não adianta bater, eu não vou deixar você entrar, tenho ganas de gritar para o vento. Mas não ouso. Prefiro aumentar o som da televisão.

O tempo passa, o tempo voa, já não temos mais a poupança Bamerindus – aliás, nem sei se ainda me restam alguns reais na poupança – e eu continuo aqui: enrolado neste velho cobertor, de pijama, assistindo ao Sílvio Santos.


Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: internet

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O IMPORTANTE É COMPETIR

 

         Dizem: o importante é competir. Em tempos de Olimpíadas (até a Praça 28 de Setembro se enfeitou com os anéis olímpicos) esse lema volta à moda. Como não entendo nada de esportes (fui daqueles alunos que odiava aulas de educação física), costumo competir noutra área.

         Recentemente, me inscrevi em um concurso de poesia. Enviaram-me o edital pelo WhatsApp, me interessei e coloquei a cabeça para pensar. Tentei compor um poema cujo tema fosse “esperançar”, como exigiu o edital, que partiu da frase de Paulo Freire: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo...”. Pelejei, escrevi, reescrevi, rabisquei, cortei adjetivos e verbos, amassei um monte de papel... difícil para mim falar de esperançar, concluí. Primeiro, porque vivemos tempos áridos. E porque me dei conta que até hoje não li um parágrafo sequer de Paulo Freire. Só o conheço de citações que, volta e meia, passam pelo feed de minhas redes sociais.

         Assim, foi muito atrevimento de minha parte escrever um poema – que por si só já é uma tarefa árdua – baseado em um autor que nunca li. E ainda por cima usar um verbo que, até ler o edital do concurso, eu desconhecia. Esperançar... palavra forte, incômoda, sobretudo para quem, como eu, apenas espera... Vivendo e aprendendo, como diria o outro.

Mas, como o importante é competir, este atrevido que vos escreve acabou produzindo um poeminha, e se inscreveu. Um poeminha meia boca, mequetrefe mesmo. Mambembe, seria assim chamado se ainda usassem esse termo... Os atrevidos e os competidores são assim: metem a cara, chutam pro gol e dane-se se vão pontuar. Como eu quero mais é botar meu bloco na rua, e não me importa o que vão pensar de mim, segue o poema “Esperançar” para a apreciação dos leitores:

 

O verbo esperançar

carrega consigo

a imensidão da utopia...

Paulo Freire o conjugou.

Vamos também?

 

         O resultado do concurso saiu esta semana. Como esperado, não pontuei. Aliás, não é a primeira vez que passo longe da lista de classificados. Não me importo. Sigo o lema: o importante é competir.  

 

 


 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

domingo, 1 de agosto de 2021

Férias de lagarto

      Recebi muitas mensagens dos leitores nas últimas semanas. Estranharam a ausência de minhas crônicas no Facebook. Eis a razão: férias. Resolvi tirar férias da escrita. Mas férias no duro, pra valer. Férias de lagarto, como fazem lá no Sítio do Picapau. Me dei o julho inteiro para ficar “cochilando como lagarto ao sol!”. Fiquei à toa, sem fazer nada, feito Adão no paraíso, porém, agasalhado porque o frio está de doer os ossos... Bem, “sem fazer nada é um modo de dizer, pois que eles ficam fazendo uma coisa agradabilíssima: vivendo! Só isso. Gozando o prazer de viver...” Tomo emprestadas, mais uma vez, as palavras de Monteiro Lobato para resumir o que me propus neste mês.

         O dileto leitor, se ainda não lagarteou na vida, não sabe o que está perdendo. Faça-o, já! Urgentemente. Não deixe para lagartear amanhã se pode lagartear hoje. Aceite o conselho de Dona Benta, a mais sábia das avós: “(...) a maior parte da vida nós a passamos entretidos em tantas coisas, a fazer isto e aquilo, a pular daqui para ali, que não temos tempo de gozar o prazer de viver. Vamos vivendo sem prestar atenção na vida e, portanto, sem gozar o prazer de viver à moda dos lagartos. Já repararam como os lagartos ficam horas e horas imóveis ao sol, de olhos fechados, vivendo, gozando o prazer de viver – só, sem mistura?”

         Devemos aprender com os velhos sábios. Assim, nessas férias não escrevi nada, um bilhete sequer. Tranquei cadernos, canetas, lápis e papéis nas gavetas, suspendi as postagens no blog, preguei na porta o aviso: SÓ VOLTO NO COMEÇO DE AGOSTO e fui viver. Ignorei as ideias que o vento, volta e meia, me trazia e, tal como Ulisses no episódio das sereias, tapei os ouvidos para não sucumbir ao canto das Musas.

         De papo para o ar, coloquei a leitura em dia e, sentado à varanda, apurei os sentidos para os cheiros e os sons da vida. Tentei, enfim, praticar os versos da canção: “A vida tem sons que pra gente ouvir/Precisa aprender a começar de novo”.

         A pandemia, de certa forma, me obrigou a lagartear quase todo o ano passado e quase metade deste. Mas acho que lagartear por obrigação não conta. Para “gozar o prazer de viver” é preciso espontaneidade. As férias de julho vieram a calhar. Agora, mais leve, enveredo pelo segundo semestre. Os futuros textos atestarão se as férias foram frutíferas. Aguarde, leitor, e, qualquer coisa, não titubeie em me enviar sua mensagem. Só lhe peço que não envie corrente de oração, vídeos do Tik Tok e bobajada político-partidária talkei. 

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor
 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A PONTE


Poucas casas, muito pasto, um boi ou outro a vagar junto às horas. Depois da ponte se escondia o nada. E o nada, naquele tempo, era uma imensidão de mistérios... tanta coisa passava por minha cabeça de menino. 
Quando a serra esbranquiçava e o vento anunciava chuva, atravessava de bicicleta os trilhos do trem, a pracinha com o busto oxidado do coronel, a rua da prefeitura. Depressa. Debruçado na ponte, olhava o rio se avolumar, levando galhos, sacos plásticos, brinquedos quebrados... O rio ganhava corpo. Fazia barulho sob a ponte. Desmanchava o abrigo dos selvagens. 
 Os selvagens, diziam os antigos, eram criaturas perversas que viviam escondidas nos pilares da ponte. À noite, saíam sorrateiros pelas ruas a praticar o mal. Mijavam na escadaria da Matriz, pisoteavam os canteiros coloridos da praça, tão bem cuidados por Seu Ernesto. Na madrugada, colocavam pedras nos trilhos para descarrilar os trens que chegariam, na manhã, carregados de bauxita. Furtavam galinhas, mangas... crianças. Os selvagens eram a síntese do mal. Por isso eu só ía à ponte durante o dia. Para ver a água turva girar e girar debaixo do bambuzal e, tonta, passar pela ponte. Para, enfim, seguir seu desconhecido destino.
Numa noite pavorosa de dezembro, choveu muito. Minha rua encheu de barro. Barro vermelho, escorregadio, que desceu do morro da Cafuringa. Trovejava sem parar. Tive medo. Deu goteira no meu quarto: dormi no colchonete ao lado da cama de mamãe. Pela manhã, os passarinhos não apareceram na laranjeira do quintal. O vento frio me deu soluço. Fiquei enrolado no cobertor, vendo os heróis na televisão. Quando chovia muito era bom: não tinha aula. 
Mamãe desceu para esperar o padeiro no portão. Voltou com dois pães-tatu e três de sal. Contou que o rio transbordara e invadira a casa da professora Maristela. Fiquei tentando imaginar como era possível.  Afinal, a casa dela era tão alta, imponente com suas janelas de madeira sempre pintadas de azul... Estendendo a toalha xadrez na mesa, mamãe explicou que o rio passava atrás da casa da professora: a enchente viera pelo quintal. 
“Enchente”. Palavra estranha, pesada. Que encheu minha cabeça. Foi a primeira vez que ouvi falar em enchente. Fiquei a pensar na professora – velha, solteirona, sozinha - assustada com a enchente invadindo o quintal, entrando pela porta da cozinha, molhando os livros na estante da sala. Fui duas ou três vezes com mamãe à sua casa. Para rezar a novena de Natal. Era a última casa da rua da Igreja. Depois dela, o bar do Índio, um terreno baldio... e a ponte. Voltei a atenção para o televisor: Superamigos começando. Mas com a vista inundada de enchente não acompanhei o episódio direito. Quando dei por mim, passava o comercial da Philco. 
O tempo enveredou pelo calendário. Dias viraram semanas, que viraram meses, que terminaram em formatura do primário... Entrei naquela fase em que super-heróis, novenas e pontes não interessavam mais. Agora, o que me tirava o sono, além do vídeo game, era o rosto róseo da Luciane, o uniforme ligeiramente desabotoado da Tati, as histórias que os rapazes do segundo grau contavam na saída da escola. 
Nessa época eu passava todo dia pela ponte. Contra minha vontade: o pai me transferira para a escola recém-construída no São Pedro. Bairro novo, calçado e arborizado. Vizinhos e professores diziam que o progresso estava chegando além da ponte. Ia e voltava, quase sempre a pé, vez ou outra na Monark azul e amarela. E lá estava a ponte: intacta, carecendo apenas de pintura. 
Quando os caras mais velhos, em grupos de três ou quatro, iam à minha frente contando vantagens e proezas da juventude, eu diminuía o passo. Se estivesse pedalando, descia. Seguia empurrando lentamente a bicicleta. Excitado, prestava atenção nos gestos, trejeitos e, sobretudo, em suas palavras. Palavras ditas às vezes em bom som, noutras sussurradas. Palavras interrompidas pelo ploc de uma bola de chiclete, outra ajeitada nos cabelos avolumados, cuspidelas na calçada. À noite, sem sono, remexia na cama. Tentava imaginar as cenas que eles descreviam com tanta naturalidade entre baforadas de cigarros e grossas gargalhadas. 
A ponte era ponto de encontro dos casais após as aulas. Para não atrapalhar os amassos dos mais assanhados eu arriscava ser atropelado pelas bicicletas que, vindas também da escola, zuniam por ali. Passar pela ponte era parte da minha rotina, assim como atravessar o trilho da ferrovia desativada, cortar a pracinha, a rua da Prefeitura, passar em frente à casa da professora Maristela... 
A casa de amplas janelas azuis, que sempre nos recebia para as novenas natalinas, agora vivia trancada: a professora fora levada para o asilo, na vizinha Ares Formosos. As paredes, outrora pintadas e bem cuidadas, agora lamentavam a falta das ladainhas, dos doces que ela distribuía no vinte e sete de setembro. Doces de coco, mamão, figo, leite... que eu devorava com meus amigos. Sentados na mureta da ponte, com os lábios e dedos lambuzados, esperávamos a tarde se despedir. E, sem saber, com a tarde desciam também as derradeiras ilusões infantis. 
Certamente, a ponte também lamentava a ausência da professora. Quem, além dela, ainda se lembraria de lançar no rio perfumadas rosas brancas na virada do ano? E, olhando firmemente suas águas, fazer silenciosas preces na primeira sexta-feira de cada mês? 
 As águas que passavam pela ponte não contavam mais segredos. Transportavam tanto lixo das fábricas, que silenciaram. A ponte era apenas mais uma parte da cidade. E, como a cidade, não me despertava mais prazer, curiosidade, sequer especulações. Eu já estava na fase de sonhar com outras terras, outras cidades. Queria ver coisas e gente nova, enfim.



*publicado em Confissões, meu livro de contos


Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor 




  poeta não sou sou? chamam-me assim: poeta... sei não poeta? poeta pensa poesia e põe prosa no papel?