domingo, 1 de agosto de 2021

Férias de lagarto

      Recebi muitas mensagens dos leitores nas últimas semanas. Estranharam a ausência de minhas crônicas no Facebook. Eis a razão: férias. Resolvi tirar férias da escrita. Mas férias no duro, pra valer. Férias de lagarto, como fazem lá no Sítio do Picapau. Me dei o julho inteiro para ficar “cochilando como lagarto ao sol!”. Fiquei à toa, sem fazer nada, feito Adão no paraíso, porém, agasalhado porque o frio está de doer os ossos... Bem, “sem fazer nada é um modo de dizer, pois que eles ficam fazendo uma coisa agradabilíssima: vivendo! Só isso. Gozando o prazer de viver...” Tomo emprestadas, mais uma vez, as palavras de Monteiro Lobato para resumir o que me propus neste mês.

         O dileto leitor, se ainda não lagarteou na vida, não sabe o que está perdendo. Faça-o, já! Urgentemente. Não deixe para lagartear amanhã se pode lagartear hoje. Aceite o conselho de Dona Benta, a mais sábia das avós: “(...) a maior parte da vida nós a passamos entretidos em tantas coisas, a fazer isto e aquilo, a pular daqui para ali, que não temos tempo de gozar o prazer de viver. Vamos vivendo sem prestar atenção na vida e, portanto, sem gozar o prazer de viver à moda dos lagartos. Já repararam como os lagartos ficam horas e horas imóveis ao sol, de olhos fechados, vivendo, gozando o prazer de viver – só, sem mistura?”

         Devemos aprender com os velhos sábios. Assim, nessas férias não escrevi nada, um bilhete sequer. Tranquei cadernos, canetas, lápis e papéis nas gavetas, suspendi as postagens no blog, preguei na porta o aviso: SÓ VOLTO NO COMEÇO DE AGOSTO e fui viver. Ignorei as ideias que o vento, volta e meia, me trazia e, tal como Ulisses no episódio das sereias, tapei os ouvidos para não sucumbir ao canto das Musas.

         De papo para o ar, coloquei a leitura em dia e, sentado à varanda, apurei os sentidos para os cheiros e os sons da vida. Tentei, enfim, praticar os versos da canção: “A vida tem sons que pra gente ouvir/Precisa aprender a começar de novo”.

         A pandemia, de certa forma, me obrigou a lagartear quase todo o ano passado e quase metade deste. Mas acho que lagartear por obrigação não conta. Para “gozar o prazer de viver” é preciso espontaneidade. As férias de julho vieram a calhar. Agora, mais leve, enveredo pelo segundo semestre. Os futuros textos atestarão se as férias foram frutíferas. Aguarde, leitor, e, qualquer coisa, não titubeie em me enviar sua mensagem. Só lhe peço que não envie corrente de oração, vídeos do Tik Tok e bobajada político-partidária talkei. 

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor
 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A PONTE


Poucas casas, muito pasto, um boi ou outro a vagar junto às horas. Depois da ponte se escondia o nada. E o nada, naquele tempo, era uma imensidão de mistérios... tanta coisa passava por minha cabeça de menino. 
Quando a serra esbranquiçava e o vento anunciava chuva, atravessava de bicicleta os trilhos do trem, a pracinha com o busto oxidado do coronel, a rua da prefeitura. Depressa. Debruçado na ponte, olhava o rio se avolumar, levando galhos, sacos plásticos, brinquedos quebrados... O rio ganhava corpo. Fazia barulho sob a ponte. Desmanchava o abrigo dos selvagens. 
 Os selvagens, diziam os antigos, eram criaturas perversas que viviam escondidas nos pilares da ponte. À noite, saíam sorrateiros pelas ruas a praticar o mal. Mijavam na escadaria da Matriz, pisoteavam os canteiros coloridos da praça, tão bem cuidados por Seu Ernesto. Na madrugada, colocavam pedras nos trilhos para descarrilar os trens que chegariam, na manhã, carregados de bauxita. Furtavam galinhas, mangas... crianças. Os selvagens eram a síntese do mal. Por isso eu só ía à ponte durante o dia. Para ver a água turva girar e girar debaixo do bambuzal e, tonta, passar pela ponte. Para, enfim, seguir seu desconhecido destino.
Numa noite pavorosa de dezembro, choveu muito. Minha rua encheu de barro. Barro vermelho, escorregadio, que desceu do morro da Cafuringa. Trovejava sem parar. Tive medo. Deu goteira no meu quarto: dormi no colchonete ao lado da cama de mamãe. Pela manhã, os passarinhos não apareceram na laranjeira do quintal. O vento frio me deu soluço. Fiquei enrolado no cobertor, vendo os heróis na televisão. Quando chovia muito era bom: não tinha aula. 
Mamãe desceu para esperar o padeiro no portão. Voltou com dois pães-tatu e três de sal. Contou que o rio transbordara e invadira a casa da professora Maristela. Fiquei tentando imaginar como era possível.  Afinal, a casa dela era tão alta, imponente com suas janelas de madeira sempre pintadas de azul... Estendendo a toalha xadrez na mesa, mamãe explicou que o rio passava atrás da casa da professora: a enchente viera pelo quintal. 
“Enchente”. Palavra estranha, pesada. Que encheu minha cabeça. Foi a primeira vez que ouvi falar em enchente. Fiquei a pensar na professora – velha, solteirona, sozinha - assustada com a enchente invadindo o quintal, entrando pela porta da cozinha, molhando os livros na estante da sala. Fui duas ou três vezes com mamãe à sua casa. Para rezar a novena de Natal. Era a última casa da rua da Igreja. Depois dela, o bar do Índio, um terreno baldio... e a ponte. Voltei a atenção para o televisor: Superamigos começando. Mas com a vista inundada de enchente não acompanhei o episódio direito. Quando dei por mim, passava o comercial da Philco. 
O tempo enveredou pelo calendário. Dias viraram semanas, que viraram meses, que terminaram em formatura do primário... Entrei naquela fase em que super-heróis, novenas e pontes não interessavam mais. Agora, o que me tirava o sono, além do vídeo game, era o rosto róseo da Luciane, o uniforme ligeiramente desabotoado da Tati, as histórias que os rapazes do segundo grau contavam na saída da escola. 
Nessa época eu passava todo dia pela ponte. Contra minha vontade: o pai me transferira para a escola recém-construída no São Pedro. Bairro novo, calçado e arborizado. Vizinhos e professores diziam que o progresso estava chegando além da ponte. Ia e voltava, quase sempre a pé, vez ou outra na Monark azul e amarela. E lá estava a ponte: intacta, carecendo apenas de pintura. 
Quando os caras mais velhos, em grupos de três ou quatro, iam à minha frente contando vantagens e proezas da juventude, eu diminuía o passo. Se estivesse pedalando, descia. Seguia empurrando lentamente a bicicleta. Excitado, prestava atenção nos gestos, trejeitos e, sobretudo, em suas palavras. Palavras ditas às vezes em bom som, noutras sussurradas. Palavras interrompidas pelo ploc de uma bola de chiclete, outra ajeitada nos cabelos avolumados, cuspidelas na calçada. À noite, sem sono, remexia na cama. Tentava imaginar as cenas que eles descreviam com tanta naturalidade entre baforadas de cigarros e grossas gargalhadas. 
A ponte era ponto de encontro dos casais após as aulas. Para não atrapalhar os amassos dos mais assanhados eu arriscava ser atropelado pelas bicicletas que, vindas também da escola, zuniam por ali. Passar pela ponte era parte da minha rotina, assim como atravessar o trilho da ferrovia desativada, cortar a pracinha, a rua da Prefeitura, passar em frente à casa da professora Maristela... 
A casa de amplas janelas azuis, que sempre nos recebia para as novenas natalinas, agora vivia trancada: a professora fora levada para o asilo, na vizinha Ares Formosos. As paredes, outrora pintadas e bem cuidadas, agora lamentavam a falta das ladainhas, dos doces que ela distribuía no vinte e sete de setembro. Doces de coco, mamão, figo, leite... que eu devorava com meus amigos. Sentados na mureta da ponte, com os lábios e dedos lambuzados, esperávamos a tarde se despedir. E, sem saber, com a tarde desciam também as derradeiras ilusões infantis. 
Certamente, a ponte também lamentava a ausência da professora. Quem, além dela, ainda se lembraria de lançar no rio perfumadas rosas brancas na virada do ano? E, olhando firmemente suas águas, fazer silenciosas preces na primeira sexta-feira de cada mês? 
 As águas que passavam pela ponte não contavam mais segredos. Transportavam tanto lixo das fábricas, que silenciaram. A ponte era apenas mais uma parte da cidade. E, como a cidade, não me despertava mais prazer, curiosidade, sequer especulações. Eu já estava na fase de sonhar com outras terras, outras cidades. Queria ver coisas e gente nova, enfim.



*publicado em Confissões, meu livro de contos


Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor 




domingo, 27 de junho de 2021

Espero silêncio

 

 

         À janela, tento ouvir a Ave-Maria. Vem suave e bela, subindo a ladeira, ecoando nas ruas. Tento. Não é fácil ouvir toda a melodia: carros e motos trespassam a Benedito Valadares... oh, eu odeio os carros e as motos que feito flechas inglórias varam a Benedito Valadares no começo da noite. São incômodos, desrespeitosos... passam como hordas bárbaras a caminho de Roma.

         Os alto-falantes da Santo Antônio se esforçam, eu sei, como o colibri da fábula que, gota a gota, tentava apagar o incêndio na floresta. A Ave-Maria chega até mim entrecortada por esses desprezíveis veículos que, ingênua e pobremente, elegemos como símbolos do progresso. À janela, também me esforço para ouvi-la... A árvore na escola contempla o descerrar do dia, ignora o destino que os deuses tramaram: será abatida em breve, se se confirmarem os boatos.

         Os derradeiros acordes de Schubert inauguram a noite. Recolho-me. Com minhas frustrações e meus moletons e os cabelos que insistem em branquear, recolho-me. Noutros tempos, e nessa hora, eu ouvia as palavras de reflexão do Xavier Pereira. Hoje, esforço-me para ouvir a Ave-Maria da Santo Antônio. Recolho-me.

         No quarto, escrevo pequenas considerações. Bobagens de quem se angustia sem saber ao certo com o quê... é defeito de nascença, acho. Eu disse isso em um poema que, na companhia de outros poemas igualmente inéditos, espera um editor... Enquanto garatujo bobagens, as crônicas de Clarice me aguardam para serem desbravadas. Também na escrivaninha, a estatueta de Jorge Amado que eu trouxe de Ilhéus faz companhia ao He-Man. A palavra e a força, lado a lado, lembram-me que uma não exclui a outra, ambas são necessárias. Ah, como eu gostaria de rogar aos orixás da Bahia de Jorge e gritar “eu tenho a força”...

         A noite impera, fria e inquieta. O tráfego não cessa. As palavras titubeiam. Um pernilongo insolente se esconde atrás da cortina. Eu espero silêncio, para pensar. 


 

          

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

quarta-feira, 23 de junho de 2021

VERSOS AO SENHOR ENGENHEIRO


 

Senhor Engenheiro,

depois que construístes este prédio

nunca mais pude ver

a serra da Piedade

 

e aquela casinha caiada

perdida na imensidão vespertina.

 

Senhor Engenheiro,

depois que concretizastes vosso sonho

fiquei a imaginar as chuvas apressadas

descendo a serra

 

crianças de mochilas subindo as ladeiras,

o Cruzeiro iluminando-se ao anoitecer. 

 

Senhor Engenheiro,

com vosso projeto dito progressista

cobristes com eterna sombra

os bancos e as calçadas da Praça

 

a piscina da vizinha,

meus obscenos sonhos de primavera.

 

Senhor Engenheiro,

quando cedestes ao chamado

do insensível capital

esquecestes que além de dígitos

 

contas bancárias

concreto e fama

 

alguém na janela

não veria mais os pombos

no telhado da Matriz

 

a banda passando no treze de maio

pela Floriano Peixoto

 

a chuva descendo nervosa

a Serra da Piedade.

 


 

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

domingo, 20 de junho de 2021

Medos

         Na esquina da Anita Garibaldi com a Tonelero, eu esperava minha refeição e lia o G1. Na mesa ao lado, dois homens bebiam chope e comiam tira-gosto. Falavam muito alto, não pude deixar de prestar atenção.

         _ Duas coisas me dão medo nessa vida: uma, enlouquecer. Tenho alguns doidos na família; meu avô chegou a ser internado em Barbacena... os fardados também me dão medo. Aliás, tenho muito medo de tudo o que acompanha o pacote militar: armas, hierarquia, nacionalismo e conservadorismo exacerbados, autoritarismo, discurso belicista, certa paranoia em enxergar inimigos em todo canto... A tal ponto vai meu temor que sequer passo em frente a um quartel e desvio o olhar se vejo militares circulando pelas ruas. Sou assim desde meus tempos de moço, quando ainda vivia lá em Minas.      

_ Besteira. Você vê televisão demais. Já falei que a mídia é contra a ordem e a disciplina, a favor da bandidagem... Eu tenho medo dos togados, que criam exegeses para tudo e decidem destinos e liberdades. Medo das suas jurisprudências marotas, sempre preenchendo lacunas conforme interesses de A ou B. Medo também dos tais “entendimentos”, que mudam de rumo como o vento e de humor como o mar... Essa gente, de tempos em tempos, deveria ser substituída como as fraldas dos bebês.

         Um copo espatifou-se perto do balcão. A cerveja tingiu o piso branco. Seu Clístenes, habitué dos bares de Copacabana, secava o suor da testa com o dorso da mão, desculpava-se sem parar. Pareceu-me meio desarvorado. O atendente foi à cozinha; voltou com uma vassoura e uma pá de plástico... Perdi parte da conversa na mesa ao lado.

         _ O poder da arma pode, temporariamente, calar a nação. Isso às vezes é até necessário, para destruir o inimigo, evitar o caos e garantir o progresso. Todavia, as decisões proferidas nos gabinetes, ao som de indolentes canetas, são mais belicosas que as pistolas e a ideologia da caserna. Tem sido assim há tempos... porém, essa corja reescreveu a história nos últimos anos e, com o conluio da mídia, doutrinou o povo. Por isso, hoje em dia ninguém respeita a ordem e a hierarquia... renegam os símbolos nacionais, a própria pátria.

         O celular tocou: bom dia, vou estar passando os novos planos da... desliguei. Não ouvi o que o mineiro retrucara. O palestrinha afrouxou a gravata, bebericou e prosseguiu:

         _ Alguém disse, alhures: a força da palavra é infinitamente mais destrutiva que o tiro de fuzil. A arma fere, pode até matar alguns... afinal, na guerra não se pode ter céu limpo todos os dias. A palavra, por outro lado, castra o espírito; cala, angustia, corrompe, traumatiza, tolhe a liberdade, física e psíquica. A palavra age nos gabinetes e palácios, em surdina; é traiçoeira como a serpente e, portanto, impossível ser derrotada. O povo pode fazer passeata, piquete, panelaço, apelar para esse papo furado de voto e eleição, bradar nas redes sociais... nada disso destrona a palavra. Esses jornais que você lê estão cheios de exemplos: quem manda não é o povo, é quem tem caneta e cacife para encomendar as decisões. Basta saber ler nas entrelinhas... E não se esqueça: foram as palavras que selaram o destino de Cristo, não a força; esta foi apenas o meio de execução. Por isso, precisamos de um governo com mais pulso, que assuma as rédeas e...

         O garçom trouxe meu pê-efe e minha coca. O palestrinha, com o celular na mão, dava gaitadas. A julgar pelo som, acho que assistia a algum vídeo. Também chegavam em meu WhatsApp vídeos com a carantonha do Mito sempre a bradar falácias... O mineiro, sem tirar os olhos do companheiro, tomava o chope.  

 


 

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor (Rio de Janeiro) 

domingo, 13 de junho de 2021

Sexagésima sexta noite

 

                Angustiado de novo. É a sexagésima sexta noite da quarentena.  À varanda, senti a chuva que se aproxima, ouvi o carrilhão da Santo Antônio anunciar nove horas.  De algum apartamento vizinho vem esse cheiro enjoativo de pipoca de micro-ondas... Confinados, estamos todos à base de filmes e pipocas.

                No quarto, procuro palavras coloridas. Caço Manoel de Barros na estante. Abro-o aleatoriamente: página 44. O pensamento regressa àquela tarde em Viçosa quando comprei estas “Memórias Inventadas”. Dia quente, muita luz, frescor n’alma... Revejo-me sentado à poltrona 27 do Unida, lendo Manoel, alheio ao falatório dos passageiros. Calor, ônibus, juventude... fui transportado aos meus policromados sonhos de menino. O sol me bulia através da janela, os pássaros e rios pantaneiros me seduziam a cada virar de página. Em casa, notei: metade do meu rosto estava avermelhada.  

                Maravilhado, li quase todo o livro. As palavras, as ideias, a tarde, até o ruído do motor irmanavam-se com meus pensamentos. Desembarquei na rodoviária quase vazia. Um cão ressonava sob as cadeiras quebradas, um infeliz falava às paredes, a televisão exibia a novela para ninguém. A mochila não me pesava mais. O sol, que desfilava harmônico pela avenida,  me inspirou novos sonhos. Que, felizmente, não ficaram escamoteados na lembrança, como tantos outros. Estão hibernando, à espera da estação certa para florescer. São sonhos que também estão sonhando...

                A chuva ê vem, como diziam lá onde morei. Deixei o livro. Peguei caneta e caderno. Há silêncio enquanto escrevo. Demasiado silêncio. Escrevo para tentar conter a angústia. Tomara que a chuva banhe meus sonhos. E quando tudo isso passar, que eles floresçam e me revelem seus sonhos. Assim, juntarei meus sonhos aos sonhos sonhados pelos meus sonhos. Para que eu possa, então, dizer: valeu a espera. Porque deve haver sentido em tudo isso...

“Eu queria só descobrir e não descrever”, disse o poeta. Acredito que vou descobrir. Espero não seja necessário descrever. Pois descrever enclausura a palavra. Enrijece o sonhado, sufoca o ser. Descrever é ato frio. Deixo, pois, a descrição aos médicos e suas receitas, aos togados e suas sentenças, aos burocratas e suas normas.

Nesta noite de sábado, sexagésima sexta noite da quarentena, escrevo à margem do caderno um comando para mim mesmo: sonhe, menino. Talvez possa, ao menos, sufocar esta angústia.

 

*escrita em 24/05/2020

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor (Visconde do Rio Branco) 

domingo, 6 de junho de 2021

UMA OU DUAS LINHAS

 


                Não estou para leituras nesta noite. Embora sem sono, não estou para leituras. Os olhos ainda não ardem de cansaço e descrença, como invariavelmente acontece nestas horas, mas não estou para leituras. Nesta noite gelada de agosto, o vento rasga o céu, açoita as janelas, inquieta-me. Por isso, não estou para leituras.

                Olho a estante. Crônicas em noites como esta não me despertam interesse. Ao contrário, podem me conduzir por caminhos mais aterradores, sobretudo se fizerem conjecturas sobre o tempo e sua incontrolável passagem. Textos que falam de outrora agravam minha impotência em relação à vida. Por outro lado, se tratarem dos tempos hodiernos... ah, o azedume me consumirá e botará abaixo o pouco de equilíbrio que me resta. Não estou para reflexões, portanto, crônicas estão proibidas nesta noite.

                Contos, talvez, me acalmassem se contivessem menos dramas e narrassem mais aventuras rocambolescas. Mas não tenho contos assim: enchi minhas prateleiras com demasiadas filosofias e racionalidades que me atormentam a alma. Os textos que preciso ler, não os tenho; e os que tenho, rejeito-os como um exorcista esconjura o Mal. Contos, pois, estão banidos nesta noite.

                Romances há aos montes. Tantos e de temas tão variados que às vezes me custa escolher um. Contudo, ultimamente não estou tendo sorte nas escolhas. Ora me vem às mãos excessos de erudição, noutras parágrafos intermináveis. Aborreço-me e, ainda que não abandone a leitura, arrasto-a nas manhãs de sol fraco, silêncio e pandemia. Deixo, pois, os romances numa prateleira qualquer, quietos como cupinzeiros no pasto.

                Poesia também não me falta. Tenho muito livros novos, alguns ainda na embalagem. Confesso: me tornei tardiamente leitor de poemas. E, em uma tentativa vã de recuperar o tempo perdido (ou, melhor dizendo, consumido em prosa), compro compulsivamente poesia de vários gêneros e épocas. Ontem li Adélia e Bilac; anteontem, Manoel de Barros e Adelaide Ivánova; semana passada, poetas cujos nomes não memorizei. Todavia, nesta noite não quero rimas, métricas, redondilhas, sonetos, aliterações, hipérboles.... nada que me lembre um verso (branco, marrom ou vermelho-sangue). Preciso evitar que os versos alheios me deem ânsias de escrever. Não desgosto de meus poemas. Porém, como quase sempre a poesia me assalta estouvada feito o furacão que levou Dorothy a Oz, tenho escrito em grande quantidade. Aumentei minha produção, porém não soube aumentar minha produtividade. E como até o mais medíocre dos economistas sabe, isso não é bom. A que ponto cheguei: emprego conceitos de economia para contabilizar poesia... ando mesmo mal, em déficit com as Musas.

                A noite gélida que embelezou o luar, e trouxe-me soluços angustiantes que custam a cessar, não quer me ver preso às letras alheias. Não me quer também rascunhando poeminhas ordinários sobre o tempo e melancolias sobre o viver. Porém, é inútil: quando me faltam o sono e a tranquilidade, me visto de nostalgia e, armado com caneta e lápis, avanço de encontro aos moinhos de vento. Assim, maculando as alvas folhas, canso vistas, punhos e dedos para, ao cabo, produzir um amontoado de bobagens que, na melhor das hipóteses, servirá para compor uma ou duas linhas de uma crônica qualquer. 

 

* escrito em 01/08/2020 

 

 


 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

chegará o amor como no ipê, a flor: súbito no viés da noite quando menos se espera Imagem: criada pelo Chatgpt  Poema: Raphael Cerqueira S...