domingo, 7 de janeiro de 2024

Aí é que está o busílis

 

Na fila do correio, encontro Euzebiozinho. Cabisbaixo, receoso de encarar o mundo. É assim desde a faculdade...

— Faz tempo, ô se faz — comenta, como se adivinhasse meu pensamento.

Assinto com a cabeça. O tempo nos fez assim: sem assunto, feito desconhecidos que se cruzam em uma repartição qualquer. 

Euzebiozinho encara, com ar filosófico, o escarro que alguém largou no piso. Parece abatido.

O cabeludo à minha frente chia:

— Não é possível, só um funcionário pra atender! 

Continuo a observar meu antigo companheiro: bastante grisalho, óculos tortos, roupas largas e amarrotadas, camisa manchada, corpo encurvado. A pandemia, definitivamente, não lhe fez bem.

Num suspiro, confessa estar cansado. De tudo, frisa, sem me encarar. Quer desabafar, percebo. Na faculdade era assim: quando se perdia numa página de doutrina ou diante de um panfleto no mural, era batata: precisava desabafar. Como nos velhos tempos, empresto os ouvidos. Ele aceita. De bom grado, a julgar pelo sorrisinho amarelo que se esboça na barba malfeita.

            — Amigo, ando cansado. Aliás, farto. Todo dia a mesma ladainha lá na secretaria, a mesma coisa de anos. Mas a falsidade, a hipocrisia, o cinismo daquela gente é que me impacientam e me fazem perder a fé no bicho-homem. Ontem, pra você ter ideia, uma mocoronga falou, com todas as letras, que devia trabalhar menos e fazer como ela. Porque, sendo efetivos, nada vai nos acontecer. Jogou a bituca pela janela e completou: fazendo muito ou pouco, nosso vencimento é o mesmo. Foi pra cantina, ignorando os que esperavam atendimento. Se parar pra pensar, errada ela não está. Nesses anos todos, nunca vi servidor ser punido. Mas a fala dela é asquerosa, antiética, reforça o discurso do povo — e de certos políticos — de que o serviço público não presta, que é um mafuá onde transitam parasitas indolentes à espera dos vencimentos. Discordo mas, infelizmente, muitos servidores contribuem para essa visão. Por isso, amigo, minha sina é triste. Toda tarde, aquela lengalenga: falam de tudo, principalmente dos outros. E trabalhar, que é bom... deixam sempre pro dia seguinte, ou pra alguém fazer. Nessas horas me sinto um alienígena que abandonaram no meio de humanos preguiçosos, inoperantes, cínicos. Sei que não devia dar bola, que devia continuar fazendo minha parte, bater o ponto e ir pra casa de consciência tranquila. Mas é difícil. Outro dia, uma boçal disse que destilo ódio com minhas ironias. Tudo porque comentei que, sendo contratada, devia se colocar no lugar dela e parar de se meter em assunto de efetivo. Ih, não gostou. Me chamou de tóxico, ameaçou se queixar ao chefe. Vai, eu disse, e dá um abraço nele por mim. A criatura tem as costas quentes, eu sei, mas não abaixo para qualquer um, não... Amigo, estou farto. Farto da mediocridade, de nadar e sempre morrer na praia. Farto de produzir e ver os colegas puxando pra trás. Outro dia, soltaram esta pérola: quando alguém se empenha em produzir muito, prejudica os que não conseguem acompanhar... Ou seja, em vez de mandar a cambada trabalhar, querem que eu reduza o ritmo! Quem trabalha incomoda. Sinto-me desmotivado, essa é a verdade. O serviço público — com suas regras estúpidas, sua burocracia arrogante, seus desmandos irracionais — é desalentador. E digo mais, é enlouquecedor. Quase sempre me sinto perdido em ordens e contraordens, cercado de índios que se julgam caciques. Semana passada, a chefia sugeriu que eu devia me afastar, pedir férias-prêmio ou licença. Vá viajar e arejar as ideias, foi o que disse. Desde o entrevero com a contratada, corre o boato de que não bato bem da cachola. A faxineira me contou. Loucos são eles, não eu! Estou em pleno gozo das faculdades mentais, como dizia nosso professor. Lúcido o suficiente pra enxergar o caráter daquela corja. Não me suportam porque digo a verdade. E, como não tenho rabo preso com ninguém, me dou o direito de falar o que penso. Dane-se se me criticam pelas costas. Mas esgota tanto viver num lugar desses... chego em casa desanimado, a cabeça pesada, não consigo prestar atenção no noticiário. Quando deito, o sono custa a vir. Pra ser curto e direto, amigo: estou de saco cheio daquele bando de cretinos.   

Durante todo o tempo, Euzebiozinho não desgrudou os olhos do escarro. Os ombros cada vez mais encurvados, o rosto hirto como um boneco de madeira. 

Em vermelho-sangue, brota no painel o 26. A fila retoma a marcha.

— Num era sem tempo — resmunga o cabeludo.

Euzebiozinho, seduzido pelo escarro, nem percebeu que o funcionário se ausentara por longos minutos. Dou-lhe um empurrãozinho. Ele se arrasta até o balcão. À distância, parece um senhorzinho às portas da aposentadoria.

Rabiscando qualquer coisa em um papel, o atendente informa:

— As correspondências tão sendo entregues mais devagar porque estamos sem pessoal.

Euzebiozinho acompanha a caneta com os olhos:

— Todo mês os boletos chegam atrasados e tenho que pagar juros.

— Entendo, senhor, mas não podemos fazer nada.

Há desdém no sorriso do atendente. Euzebiozinho também nota e brada que é um absurdo, que vai reclamar na ouvidoria.

Aí é que está o busílis, tenho vontade de alertá-lo — como aquele personagem do Rubem Fonseca. Mas o 27 se acende no painel, imperativo, me convocando.  

 


        Texto: Raphael Cerqueira Silva 
      Foto: acervo do autor 


domingo, 31 de dezembro de 2023

No escurinho do cinema

          

O tempo está virando para chuva. Inclusive, sinto a umidade no vento. Apresso o passo. E, para encurtar o caminho, me espremo entre motos mal estacionadas. Minha sacola engancha no guidão de uma Shineray, obrigando-me a retroceder para soltá-la. Bem feito, tivesse ido até a faixa de pedestre, não acontecia isso, digo a mim mesmo.   

        Os veículos descem lentamente, parece cortejo fúnebre. Impaciente, espero uma brecha para atravessar. Brecha que, pelo visto, não virá tão cedo.

        O sino da matriz bate as três. Um corolla para. Agradeço com um aceno. Uma gestante passa por mim a levar um menino pela mão. “Num quero ir, quero ficá!”, berra, tentando se soltar. Buzinas cobram agilidade. Um motoqueiro xinga o motorista do corolla, avança a toda pela direita. Por um triz, não levou o birrento.  

 Nessa cidade, as pessoas se impacientam até com uma gentileza. Já a salvo na praça, rio de mim mesmo: censurei as buzinas, mas há alguns minutos era eu o impaciente que resmungava contra a lentidão do trânsito.

O cadarço do tênis me afasta das divagações. Deixo a sacola no banco, agacho para amarrá-lo. Donde estou, vejo, num ângulo interessante, o prédio onde funcionou o cinema. Em reformas. ‘Restauração da fachada’, publicaram n’ A Voz. Segundo a reportagem, ao término das obras, terá ‘uma sala para atividades audiovisuais’... Queiram os deuses protetores da Sétima Arte não fique só na promessa!

Pego a sacola. Retomo minha marcha apressada.

        Os antigos contam dos tempos que o Cine Brasil funcionava ali naquele prédio. Alguns, cuja memória não se foi junto com os cabelos e o vigor, recordam os filmes assistidos: sessões de faroeste, musicais em preto-e-branco, comédias do Mazzaropi, chanchadas da Atlântida... Certa feita, um senhorzinho me confidenciou: os peitos de mulher mais bonitos que eu vi na vida foram nesse cinema aí. Cofiou o bigode à lá Charles Bronson, seguiu calçada afora levando o sorrisinho dúbio. E eu fiquei a cismar se estariam os peitos em techinicolor ou ao alcance de sua mão na poltrona ao lado.

As árvores sacolejam com a ventania. Um galho tomba a poucos centímetros de mim. Os velhinhos desfazem canastras, recolhem o tabuleiro. Devem ter frequentado o Cine Brasil e chupado muitos drops de anis, penso... lamento não ter, como se diz, pego esse tempo: quando nasci, o cinema estava desativado há décadas.

De repente, o dia veste cinza-chumbo. Vou pela Raul Soares feito um expressinho.

A chuva me pega na porta de casa.  

Subo as escadas. Nalgum apartamento entre o segundo e o terceiro andar, assistem a um filme: as sirenes da polícia americana são inconfundíveis. Os sons vêm ao meu encalço como se fora eu o meliante que os tiras pretendem capturar.

Destranco e tranco a porta, ligeiro como um foragido de Alcatraz.

Enquanto as pipocas estouram, guardo a compra. Um antigo jingle vem à ponta da língua: pipoca na panela começa a arrebentar/pipoca com sal que sede que dá... Abro a geladeira. Não tem guaraná. O jeito é tomar a limonada que sobrou do almoço.

Dou o play em Gênio Indomável. Matt Damon, no auge da juventude, e Robin Williams (pra mim, a eterna babá quase perfeita) hão de me fazer esquecer o toró, as inquietudes que sempre me assaltam no fim do ano, essa vontade doida de beber um Antartica.

O clássico dos anos noventa e Maestro, que assisti ontem, exigem do espectador atenção, entrega e, sobretudo, paciência: são lentos e ultrapassam duas horas... ou talvez não exijam nada disso, eu é que entendo patavina de cinema. Porém, uma coisa sei: à medida que o tempo passa (e não me refiro à duração dos longas), dou conta de que preciso apenas de cenas com bons diálogos, silêncios bem dosados e pouca, ou nenhuma, ação. Ação é para a juventude. Ou, como disse Olyveira Daemon:

“a galera acha que filme adulto é filme com sexo & violência extrema... meu povo, isso é filme juvenil. filme adulto é sempre ritmo lento, lentíssimo, cheio de silêncios & vazios, sem enredo bem definido sem hora pra acabar.”

A chuva salpica a janela. Talvez, enciumada: tenho, em 42” e só para mim, a bela e indomável rebeldia de Will Hunting.

Fecho a cortina. O filme vai começar.    


Texto: Raphael Cerqueira Silva 
Foto: acervo do autor 

domingo, 24 de dezembro de 2023

Noite de teatro

 

 

        A decoração ilumina árvores, bancos, meus passos. Ilumina, sobretudo, minhas esperanças. Apesar da chuva que, incansável, despenca desde as quatro da tarde. Vou pelo parque, desvencilhando-me das poças, encantado com as lampadazinhas que anunciam a proximidade do Natal.   

Em frente à igreja, um grupo conversa. São jovens: nota-se pela descontração. Seguram mochilas, sacolas, bolsas; parecem indiferentes aos pingos que tombam como se quisessem varar os poliésteres das sombrinhas. A conversa segue animada. E eu sigo adiante. Sorrateira feito uma espiã soviética, a chuva penetra meus Asic, infiltrando-se nas meias.  

        Alojado na fachada do Paço Municipal, um Papai Noel sorri para as poças que se avolumam, para os veículos que rasgam o asfalto e cospem água pútrida na calçada. Ou, talvez, sorri da minha metáfora um tanto quanto anacrônica: afinal quem, nos estertores de 2023, e debaixo de um toró desses, ainda se lembra de espiões soviéticos... No meio de tanto neoclassicismo, o sorriso plástico e condescendente parece anunciar: trarei boas novas, aguardem ho ho ho!

        Aguardo o sinal abrir, mantenho o devido distanciamento da pista: não quero chegar molhado e, pior, imundo. Apresados, ônibus, táxis, entregadores do Ifood continuam a passar. “Eu ando pelo mundo/E os automóveis correm para quê?”

A mulherzinha ao meu lado me olha com rabo de olho. Penso mandá-la ouvir Adriana Calcanhoto, contudo, continuo a cantarolar: deve ser tão tapada quanto minha estagiária que, ao ver minhas fotos no show, soltou esta pérola: nunca ouvi falar dessa mulher... Ignoro a criatura, como ignorei a estagiária naquele dia. E continuo a cantar: “Exponho o meu modo, me mostro/Eu canto para quem?” 

        Protegido pelo guarda-chuva que me emprestaram no hotel, encaro o bonequinho vermelho do outro lado da avenida. Não vejo mais o Bom Velhinho; mas, eu sei, ainda sorri. Assim como sei que não desperta qualquer sentimento nessa gente azafamada que passa por aqui, nos automóveis ou a pé.

        Súbito, um Siena ignora o bonequinho que mudou de cor, avança escarrando grosseria e imundície... Não canto mais. A vontade é mandá-lo pra ponte que caiu. Mas, me contenho: sinto uma coisa incendiar o peito. Não é raiva, ao contrário, é algo bom. Apesar da sujidade que escorre pelas barras da calça e macula meus tênis, sinto uma energia diferente aflorar em mim. Se fosse dado a superstições, como minha ex-estagiária, diria que são bons fluidos emanados pelo Papai Noel do Paço.

 No meio da avenida, tenho ímpeto de proclamar: tô vendo uma esperança! Todavia, como essas pessoas que atravessam junto comigo não devem se lembrar da Graúna, mantenho o silêncio: receio ser chamado de biruta. 

A mulherzinha passa à frente. Paro no calçadão. Olho novamente o Papai Noel. Tímido, ensaio um adeus com a mão livre. O vento, insensível, tenta me arrancar o guarda-chuva.

Sob marquises, gente enrolada em trapos e desamparo. Algumas tentam engambelar a fome com restos de qualquer coisa, outras fumam desilusões cercadas de lonas e papelão encharcados. Uma mulher acalenta o bebê. Há espaço para a esperança entre tanto descaso e abandono, questiono aos pisca-piscas que compõem uma passarela dourada no calçadão.

Piso as poças iluminadas: inútil evitá-las. Um vira-lata persegue uma ratazana vinda não sei de onde. Mais astuta, a bicha se escafede pelas grades da galeria. Longe, a sirene do SAMU estrangula a noite.

        Outra morada improvisada. Alguém, envolto numa manta suja, dorme diante do Banco do Brasil. As luzes amarelas e azuis do letreiro velam seu sono. Porém, com tanta umidade, barulho e claridade, consegue dormir?

        Adiante, lixeiras abarrotadas com restos de capitalismo, outras poças. O pipoqueiro tenta garantir o pão na porta do teatro, onde um grupo se aglomera. Comentam as expectativas para o espetáculo, os ingressos já adquiridos para os próximos eventos... entremeadas de gestos e risos, as palavras, tal como a sirene do SAMU, ocupam a noite. Esquecidos da chuva, e de um mendigo que jaz aos pés da bilheteria, fazem planos para a resenha de amanhã, o réveillon. Parafraseando Lulu Santos: gente fina, elegante e, talvez, sincera.        

        Pergunto à atendente o valor do ingresso. Ela aponta o cartaz pregado à parede com durex. Varia conforme o setor: plateia A, plateia B e balcão nobre. Pagamento com PIX ou cartão, me informa, estendendo um mapa mal impresso dos assentos. Como a diferença entre os preços é ínfima, opto pela plateia A. Pode ser a fila IV, cadeira 5. Pétreo, o homem continua largado no degrau. Vivo, indago à maquininha. Digito a senha. Transação efetuada.

        “Como pode acontecer o que aconteceu e eu continuar normalmente minha vida medíocre?” A frase, lida no café da manhã, ressurge implacável para martelar minha consciência. É o questionamento que José Castello se faz ao ver um garoto esfarrapado adentrar o restaurante onde comia seu contrafilé com arroz negro. Defronte a bilheteria, me lanço a mesma pergunta enquanto a moça deseja ‘bom show’.

        Guardo o ticket no bolso. Por um triz, não tropeço na peleja que esconde quase nada do infeliz. Sinto-me incomodado: o valor que paguei para curtir o entretenimento de duas horas daria para alimentar este sujeito por uns dias. C’est la vie, alguém dirá em tom blasé. São as mazelas do sistema, o pragmático argumentará. Deus quis, sentenciará o crente. Betinho, certamente, o consideraria “um problema ético”. E essas pessoas aí na porta do teatro, o que pensam? Simplesmente acreditam que não há o que fazer ou, se há, está além de sua alçada? Aliás, será que pensam sobre?

 Olho para o céu: a chuva aperta. Mesmo de costas para o teatro, ainda tenho entranhado na retina o corpo enrolado na peleja encardida. Perdemos, mesmo, a capacidade de nos indignar, questiono ao guarda-chuva que emperrou e se recusa a abrir. 

         

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 




quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Ficam memórias e ensinamentos


Invariavelmente, as más notícias chegam pela manhã. Pelo menos, à minha porta sempre batem quando os primeiros raios do sol se adonam da sacada. Bem, ‘bater à porta’ é modo de dizer: as más notícias vêm assim que ligo o Wi-Fi. Talvez brotem com a alvorada porque a maioria das dores - e das mortes - ocorrem sob o pálio da noite.  Então, amanhece e as tristezas precisam ser levadas a quem possa interessar.

        Hoje, não foi diferente. Eu arrumava a cama quando a mensagem saltou pelo celular. Uma colega de labuta – a única que me escreve regularmente ou, noutras palavras, a única que tolera minha casmurrice crônica – me enviou esta mensagem: Soube que o Wagner Inácio faleceu. Poucas, diretas, e tristes palavras.

        Estendi o lençol, troquei a fronha, não com a atenção de antes. O bem-te-vi que tentava impor seu canto à desarmonia dos pardais se calou; e estes, respeitosos, debandaram. Olhei os reflexos do sol nas vidraças do prédio vizinho, fiquei a recordar:

        Wagner Inácio foi meu professor. Assumiu a cátedra quando eu cursava o segundo ano. Confesso, o Direito Civil não me seduzia muito e, por isso, não fui um dos melhores da classe. Naquele tempo, eu preferia os historicismos do Constitucional e as teorias do Penal... Contudo, o Professor Wagner, apesar da juventude ou talvez por isso - regulava idade com a maioria de nós – conseguia imprimir dinamismo e frescor às aulas. Didática inconfundível, laçava minha atenção mesmo quando o tópico era, para mim, enfadonho ou confuso. Espirituoso, um senso de humor acurado e uma autoironia com a qual eu me identificava, me ensinou: é preciso saber rir de si mesmo. Repetindo o gesto do Jô Soares, deixava um “beijo do gordo”, e saía corredor afora. Apressado, corria à sala da coordenação, onde outras responsabilidades acadêmicas o aguardavam.

        Lecionava, muitas vezes, sentado no tampo da carteira dos alunos. Nessas horas, dizia chistes sobre a caneta de uma – “olha, a caneta dela é toda delicada” -, folheava o caderno do outro – “pra eu ver se tá anotando direitinho o que falei”. Ou, simplesmente, remexia nossos estojos. Certa noite, enquanto discorria sobre a teoria concepcionista no Código Civil de 2002, tirou o Passatempo da minha pochete. Sem cerimônia, abriu o pacote já pela metade e, com o biscoito à boca, comentou: tá meio murcho. Mesmo assim, se serviu de mais um. Espalmou as mãos afastando as migalhas, fechou o zíper da pochete, e prosseguiu com a aula. Eu, que desde o primário nunca fui de dividir lanche com ninguém, tive que engolir aquilo calado. O Wagner Inácio era assim, tinha dessas idiossincrasias... Acho, era adepto da máxima: perco o aluno, mas não perco a piada. Não me perdeu, contudo, passei a guardar meu lanche na pasta.

        Tempos depois, um sorteio: Wagner estava empolgado com a publicação de seu livro sobre o erro médico e suas consequências jurídicas. Largado na minha carteira, perguntou: se você ganhar esse livro, vai ler. Sorri, e retruquei que nunca ganhara nada num sorteio. E emendei: se eu passar no meio duma briga onde as pessoas estão jogando pedras, é capaz de eu não levar uma pedrada sequer... Ele riu, e disse: você vai ganhar, e vai ler. Feito o sorteio, fui contemplado. E li o livro, que está guardado nalgum canto deste apartamento na companhia do Sílvio Rodrigues, Humberto Theodoro, Damásio e outros... Com a leitura, aprendi, entre tantas coisas, que nosocômio é sinônimo para hospital. Engraçado, passei meses encasquetado com essa simpática palavra... mas, até hoje, nunca a usei.

        Nos já saudosos tempos das audiências presenciais, em que partes e advogados precisavam comparecer ao fórum, encontrei o Dr. Wagner muitas vezes. (Hoje, com o processo eletrônico e as audiências por videoconferência, a gente não vê ninguém, o fórum quase fica às moscas... nos dias nublados e chuvosos, aqueles corredores parecem casas mal-assombradas de filme B).

Mas, como eu dizia, o Dr. Wagner comparecia às varas para consultar os autos, protocolar documentos, participar de audiências. Em um desses encontros, pedi-lhe para prefaciar um livro de poemas que pretendia publicar. Ele topou, mesmo a literatura não sendo muito a sua praia. Dias depois, enviei-lhe o arquivo. Todavia, por questões contratuais, não fechei com as editoras: uma me exigiu o livro com menos páginas, ou seja, eu teria que mutilar minha obra; a outra propôs que eu bancasse os custos da publicação... Não topei, o livro está engavetado. Contudo, sem o prefácio do Wagner: inexperiente nesses assuntos e frustrado, lhe enviei e-mail dizendo que não havia previsão do livro ser publicado, e se seria, e que, portanto, não precisaria se preocupar com o prefácio...

A Indesejada das Gentes, nesta semana que antecede o Natal, fez mais uma visita. Todavia, não levará as memórias e os ensinamentos que o mestre nos legou.

Ao Wagner Inácio, esta crônica.

 



 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 
Foto: acervo do autor 

domingo, 17 de dezembro de 2023

Tradições

 

O ano vai chegando ao fim. Tradicionalmente, as pessoas que conheço viajam para Guarapari, organizam novenas, prometem o que não cumprirão, se entopem de rabanada e peru e lentilha e panetone, montam árvores (algumas tão pavorosas que me pergunto como o Noel ainda deposita presentes ali). Nas repartições, burocratas planejam confraternizações, onde se empanturrarão de churrasco, farofa e vinagrete, e beberão como se não houvesse amanhã.  Enfim, como diz o outro, tem gosto pra tudo.

Como eu disse noutra crônica, a cada dia fico mais parecido com o Raul: aprendendo a ser louco, um maluco total. Contudo, também cometo certas idiossincrasias. Uma delas: devoro um chocotone enorme e, ao cabo, lambo dedos e beiços para, quem sabe, brotar outro em meu colo. Dava certo com o papel dos presentes no aniversário: jogando-os debaixo da cama, sempre ganhava mais presentes. Com o chocotone, ainda não deu certo. No entanto, continuo insistindo, como insistem alguns conhecidos em vestir branco na virada do ano. 

Outra de minhas tradições – e, creio, de uma legião de súditos: esperar, ansiosamente, o Roberto Carlos. Desde novembro, começo a pesquisar no Google quem são seus convidados, o repertório do show, onde foi gravado… Navegando como um descobridor português, acabo sempre atracando no porto da saudade. Ali, desembarco, miro o horizonte: vejo além dele imagens doutros tempos. 

Nos tempos anteriores à internet, para conseguir aquelas informações, eu precisava adquirir o Caderno da TV, que saía aos domingos n’O Globo. Ou esperar a chamada durante os intervalos dos programas. Tempos de menos informação, de mais encantos. Talvez por isso mesmo, inesquecíveis.

 Assim como não me esqueço: comprava, meses de antecedência, uma fita para gravar o Especial. Foram anos e anos marcando na agenda, esperando a novela das oito terminar para apertar o REC no videocassete.

Escrevendo o parágrafo anterior, senti a brisa da nostalgia revolver as memórias. Como o cabeçote do videocassete, fez um chiado e, sem querer querendo, deu o play. Agora desfilam apressadas pelas retinas, feito um filme do Chaplin, imagens de minha juventude, das VHS empilhadas na estante, da programação da tevê recortada do jornal, de ‘tantos sonhos feitos em pedaços’ pelo implacável Sr. Tempo.

Se, por um lado, este Senhor jogou para escanteio as fitas, os videocassetes, as tevês de tubo e os jornais impressos, por outro, trouxe novas tecnologias: o streaming e o Youtube permitem ver e rever os especiais do Rei a qualquer hora, o ano todo.

E, quando o vejo, majestoso, na tela da minha Philips, não deixo de recordar: no Nilson Nelson, em Brasília, recebi de sua mão uma rosa vermelha. Acho, já comentei sobre esse momento lindo nalguma crônica… às vezes, me pego repetindo temas e lembranças. Caduquice, indago aos livros na estante. Eles permanecem em silêncio; eu, com minhas inquietudes. Nessas horas, recorro à televisão: alguém sempre está falando qualquer coisa.

Todavia, quando me sinto farto do silêncio livresco e das baboseiras televisivas, olho a parede. A imensidão branca me acalma: imagino que é um enorme bloco de gelo vindo em minha direção para afastar esse calor dantesco.

Neste exato momento, encaro mais uma vez a parede. Mentalmente, conto quantos dias faltam para o Especial do Roberto Carlos. De repente, uma barata cascuda e asquerosa invade o quarto. Como ousa, sua sacripanta! Sem esperar resposta, dou-lhe uma chinelada. A bicha estremece, contudo, resiste. Outra chinelada. Mais outra, para garantir. A invasora jaz aos pés da cama. Torno a olhar a parede: mais tarde, com o chinelo, empurrarei seu cadáver nojento à varanda e, com um chutão pelé, o lançarei na escuridão da noite.

Mas, como eu dizia, voltei a olhar a parede. Minhas vistas acompanham a rachadura, sobem até o topo do guarda-roupa, onde repousa uma caixa de pinus. Ao longo dos anos, ela guardou tanta coisa: brinquedos, revistinhas, chaveiros, adesivos, lápis de cor; hoje, preserva fotografias. E, o que poucos sabem, uma relíquia: a rosa que recebi do Roberto. Murcha e seca, todavia, intacta. Quer dizer, intacta em termos: ao sair do ginásio, uma dona, vendo que eu levava a rosa feito um troféu, me cercou pedindo uma pétala… pediu com tanta sofreguidão, um certo desespero até, que cedi: arranquei uma petalinha. Ela se foi, saltitando igual a Tieta nas dunas do Mangue Seco. Eu entrei no táxi.

A rosa vermelha, que hoje não é mais tão vermelha, resiste ao tempo, como outras tantas lembranças. Não fossem estes livros aí na estante me perscrutando o tempo inteiro, eu treparia no tamborete, abriria a caixa, me entregaria sem pudor à Senhora Nostalgia.

Um desses indiscretos perscrutadores é o A Descoberta do Mundo. Nele, Clarice comenta que folhas sempre caem em seus cabelos. Quando li isso, imaginei-a flanando pelo Leme, a brisa lhe entregando tais bilhetinhos... Afinal, como diz a canção do Roberto, “folhas são bilhetes deixados aos homens do nosso tempo”. Na crônica, a escritora confidencia que recolhe tais delicadezas que Deus lhe concede. “Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança.” 

A mim, contudo, me interessa manter guardadinha a rosa que ganhei. Fetiche? Rotulem como quiser: a rosa segue na caixa. Livre do vento que bate a porta do quarto, longe das patas imundas duma barata desclassificada, a salvo do silêncio constrangedor dos livros. Sobretudo, protegida de mãos que, por ventura, queiram tocá-la e, desastrada ou dolosamente, destruí-la. 

O ano vai chegando ao fim. Do nada, me pego a pensar em coisas sem nexo. E, o que é pior, a escrever coisas sem nexo. Porém, é melhor escrevê-las que montar árvores pavorosas, viajar para praias lotadas, encher a cara e dar vexame nas confraternizações que os burocratas insistem em realizar. Afinal, todos têm a sua tradição. Inclusive os burocratas. 



Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 


domingo, 3 de dezembro de 2023

É primavera


Vou distraído pela calçada ouvindo Simone.

“Gás de cozinha, cem real. Isso mesmo, só cem real!” Entre chiados e vilipêndios gramaticais, o alto-falante anuncia a promoção. O caminhão passa, vagarosamente, levando os botijões e a voz fanha.

Aumento o som.

Tento não pensar no sobe-e-desce dos preços: você vai ao mercado, o produto custa X; retorna amanhã, custa X+2; daí a alguns dias cai pra X+1 para, no dia seguinte, saltar para X+3... “PROMOÇÃO”, “OFERTA” insistem as letras vermelhas nos cartazes espalhados pelo mercado. Na minha terra isso tinha outro nome.

O caminhão do gás, que agora dobra à esquerda, também vive nessa roda-viva. Aliás, quem não vive?

Já posso baixar o volume. 

Em dueto com Simone, pareço um besourão com amigdalite. Mesmo assim, canto. Para não pensar na inflação, na fatura do cartão, na xaropada da burocracia e, sobretudo, para não pensar no joelho. Que dói, depois das extravagâncias no treino: tentando impressionar certa pessoa que malhava ao meu lado, abusei dos exercícios. É o preço que pagamos por nossas, digamos, vaidades bestas.

Retomo a marcha pela calçada. E quase piso na pipoca que, laboriosamente, vai ladeira acima.

Lembro-me da fábula: as formigas já começaram seu mister. Unidas, somam forças para carregar o troféu. Deram sorte: fui eu a passar neste momento. Fosse um apressadinho qualquer, desses que andam como se tivessem as asas de Hermes nos calcanhares, teriam sido esmagadas junto com a pipoca.

Observo a fileira de operárias. A Cigarra continua seu canto melodioso em meus ouvidos.

Súbito, feito a M60 do Rambo, uma moto dispara: “hoje! é hoje a grande inauguração da Pizzaria Mamma Mia!”.

Tento lembrar a última vez que saí para comer pizza. Afinal, convenhamos, pedir pizza ou qualquer outra coisa pelo Ifood não é o mesmo que sair para comer... Ainda que o estabelecimento esteja lotado, que as pessoas se esgoelem ao conversar, que o cantor continue entoando seu canto “não importando se quem pagou quis ouvir”, ainda que ao cabo da noite cobrem um absurdo pelo lanche que só servirá para aumentar a circunferência abdominal e o peso da consciência...

A moto avança o ‘PARE’ quase apagado, leva o retrovisor do Onix. Junto, minhas conjecturas.

O motorista xinga. O motoqueiro acelera, escapole pela travessa.

Esquecido das pizzas e formigas, sigo meu caminho.

Vou cantando, antecipando-me aos festejos natalinos: O ano termina e nasce outra vez... Recordo aquela noite no Central. Simone desfilou grandes sucessos para comemorar seus cinquenta anos de carreira. Uma noite memorável. Preciso escrever sobre, penso.

Meus pensamentos novamente interrompidos. Agora, pelo Oran. Outros pensamentos, contudo, me assaltam: curioso passar por aqui, não é seu trajeto... Lenta e ruidosamente, ele sobe. Uma fila de veículos se formando logo atrás. Sem o saber, o velho ônibus despertou-me reminiscências:

Muitos anos me separam daquele garoto que ia e voltava no Oran. Ia sonolento, voltava faminto no uniforme amarelo e preto. (Hoje, o sono rareia. E a fome? Estrangulo-a com biscoitos e doces, poderosíssimos aliados das pizzas na invencível Batalha das Calorias). Mas, aquele garoto franzino e quatro-olhos sequer sabia o que eram calorias: suas preocupações bem diferentes dessas que me afligem atualmente: contas a vencer, cabelos rareando, metas burocráticas, amores não vividos, outros tantos fracassados...

Aquele garoto, “leve buço lhe sombreava o lábio”, sempre levava um livro nas mãos. Às vezes, lia-o durante a viagem; noutras vezes, impiedosas, as pálpebras impediam-no. Vejo-o na dura poltrona, cabelos fartos em desalinho, o Noite na taverna xerocado em seu regaço, a cabeça tombada... ainda lê as mórbidas e poéticas frases de Álvares de Azevedo, ou capitulou ante o poderio de Morfeu? Ao lado, a Company cinza, que o pai comprara, no crediário, em prestações a perder de vista. Dormindo ou lendo, certamente, preocupações rondam-no: testinhos semanais, equações matemáticas, fórmulas químicas, leis newtonianas, orações subordinadas substantivas, problemáticas envolvendo senos e cossenos e catetos e hipotenusas...

O ônibus, a custo, vence a ladeira. Vai sentido cemitério. Para onde também vou.     



 

Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor 

domingo, 29 de outubro de 2023

Cês viram?


       

Era uma turma de quase cinquenta graduandos. Poderiam ter sido sessenta e cinco, se alguns não tivessem desistido ao longo do caminho, trancado matrícula, transferido de curso... Quase cinquenta alunos e ele sabia: seu nome seria um dos últimos a ser anunciado. Já se acostumara: foram inumeráveis aulas, ao longo dos longos cinco anos de curso, que esperou ansiosamente para responder às chamadas dos professores.

        Sentado na quarta fila, sabia, tinha muito que esperar. Não só para subir ao palco e cumprimentar o reitor, o diretor, o paraninfo e alguns professores, mas também para ter em mãos, definitivamente, o diploma. Sim, porque o que estavam entregando naquela tarde não era o diploma, e sim uma certidão de conclusão do curso. Impressa em folha A4, assinada toscamente por alguém da burocracia, dobrada em três partes para caber no envelope branco.

        Estalando os dedos, observava os colegas retornarem aos seus assentos: abriam o envelope, desdobravam o papelote, liam – ou fingiam ler – os termos da certidão, tornavam a dobrá-lo e guardá-lo. Digo, estalando os dedos, porque ele nunca foi muito fã desses momentos em que se via protagonista. Quando havia seminários e trabalhos para apresentar, tremia e suava, às vezes gaguejava, a ponto de algum professor mais camarada intervir: “relaxa, ainda não é a apresentação da monografia”. E ele tremia mais ainda, só de pensar que, ao cabo da graduação, teria que apresentar a tal monografia.

        Felizmente, os deuses conspiraram e não foi preciso apresentar ou defender qualquer coisa: uma mudança na burocracia da instituição passou a exigir, apenas, que os formandos entregassem o TCC. Que, se aprovado, os libertariam da vida acadêmica... Foi o que pensou, já de saco cheio com provas, professores, chamadas, seminários, trabalhos em grupo, reuniões do fundo de formatura... No meio de tanta chatice, enfim, uma notícia boa, concluiu. Entregue o TCC, sem precisar sequer dizer: “ó, isto aqui é sobre ‘As mazelas do sistema penitenciário e suas consequências na (des)valorização da pessoa humana’, ele recebeu o protocolo, se mandou para casa.

        Agora estava ali. Suando e tremendo, o coração acelerado, esperando sua vez. Que, feliz ou infelizmente, chegaria. Afinal, a fila anda. Só não gaguejava porque estava em silêncio, olhos atentos no vaivém do palco. Não gaguejava, ainda: ele sabia que, uma vez lá em cima, teria que falar qualquer coisa ao cumprimentar os componentes da mesa. Ia se embabanar e gaguejar, tinha certeza. Diria apenas boa noite e obrigado. Palavras curtas, errar seria quase impossível.

        A fila andou. Anunciaram seu nome. Passou pelos colegas, sentiu que pisou no sapato de alguém. O coração acelerado parecia querer rasgar o peito e voltar à cadeira desconfortável que ainda a pouco abrigara seu corpo suado. Subiu os seis degraus de madeira, esbarrou o cotovelo no jarro de flores. A oradora correu em socorro do jarro que, por pouco, não tombou lá embaixo. Ela sorriu, ele baixou a cabeça.

        Mais alguns passos pelo tapete vermelho... cafonice, pensou, sentindo o rosto ainda afogueado. Parou diante de um homem de ar circunspecto. Naquele momento, já não lembrava o nome e/ou o cargo de nenhuma daquelas personagens. Sentiu a mão fria do sujeito tocando a sua, suada e trêmula. Passou adiante. Ao receber o  cumprimento do segundo componente da mesa, deu por conta: tinha um envelope branco na mão. Passou-o para a esquerda, para receber o novo cumprimento. Tremeu, dessa vez de espanto: o baixote à sua frente parecia o bruxo Ravengar, que tanto medo lhe despertar na infância. Balbuciou um ‘brigado’ e, caminhando adiante, sentiu-se ridículo: gaguejara mesmo tendo dito só uma palavra, e ainda por cima incompleta... Uma mão de longos dedos finos que terminavam em esmaltes escarlates lhe cumprimentou. Ele nada disse, seguiu.

        Enfim, de volta à cadeira, suspirou aliviado. Agora sabia o que um náufrago sente ao encontrar uma tábua em alto mar. Por um momento, achou que aquela via crúcis não teria fim... Ainda mais quando se aproximara da última pessoa para cumprimentá-la e tropeçara numa dobra do tapete e, por pouco, não beijou o chão... Sentado na cadeira, indagou-se: “quando me apoiei na mesa, não derrubei um copo?” Na hora, pareceu ter ouvido vidro se quebrando.

        Os nomes continuaram a ser anunciados. Secou as mãos na beca, abriu o envelope. Vazio. Piscou os olhos, como se assim a certidão se materializasse ali dentro. “Coisas do ardiloso Ravengar”, pensou, tornando a olhar o palco.

Selidônia comentou: “Ah, o seu também veio vazio!”

        Ele franziu o cenho, encarou a colega sentada ao seu lado.

“Tô com as mensalidades do último semestre todas atrasadas. Meus pais divorciaram, aí ficou aquela confusão lá em casa pra saber quem ia pagar os boletos... Acabou sobrando pra mãe. E pra mim também, porque tive que ajudar com o que ganho no estágio. Mesmo assim, as últimas mensalidades a gente não conseguiu saldar.”

“Eu estou em dia com os pagamentos. Tanto que me deram um nada consta na tesouraria”, retrucou, notando condescendência e sarcasmo no sorriso de Selidônia. “Essa vai dar uma ótima promotora de justiça”, concluiu, amassando o envelope.

        A beca o incomodava, o capelo não parava no lugar, aquela falação de nomes anunciados o irritava, os aplausos e cochichos do público tiravam-o do sério... Súbito, levantou.

“Não pode ir embora. Lembra que o diretor falou que se alguém saísse antes da hora, ele ia anular a colação?”, Selidônia alertou.   

“Dane-se! Pra todos os efeitos, não formei mesmo”, vociferou, lhe mostrando o envelope entre os dedos.

Selidônia ainda tentou retê-lo, ele puxou a beca, furioso; passou pisando nos sapatos dos colegas, trombando em seus joelhos e pernas... no meio do corredor, puxou a beca e, feito a Cinderela à meia-noite, fugiu.

        No estacionamento, extravasou a raiva pulando e sapateando em cima do capelo. Bufando, telefonou à mãe: “Tô aqui do lado do carro. Vambora!”

        Quando os pais chegaram, já havia se despido da beca, aberto a camisa, arregaçado as mangas. O capelo jazia ao lado da roda. Não quis dar explicações; recusou o convite do pai para irem à pizzaria e, emburrado, ignorou os comentários da irmã:

“Um jarro tão bonito... quase foi espatifado por esse desastrado, cês viram?”



 


 Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

sábado, 2 de setembro de 2023

O que faz a vida valer a pena

 

 

Eu estava sentado ali, no bar, tomando minha Coca, comendo os pastéis absurdamente engordurados – e, por isso, absurdamente gostosos – que só o Caô sabe fazer.

As  meninas dançavam uns pagodinhos antigos, os rapazes, entusiasmados, castigavam os pandeiros e as mesas que, àquela altura, viravam um instrumento qualquer. Na quadra ao lado, a molecada jogava peteca. E, vez ou outra, aquela merda caía perto de mim.

_ Tá com a mão torta, moleque?

Perguntei prum gordinho que veio correndo buscar a peteca. Ele enrubesceu; não sei se pelo esforço da corrida, ou pelo o que eu falei. Também não me importei: o importante eram as meninas se requebrando.

A tarde ia assim, harmônica e prazerosa, quando Petronílio chegou. Fumando feito uma maria-fumaça, puxou a cadeira, levou a mão peluda no meu prato. 

_ Se quiser pastel, manda fritar pra você. Nos meus ninguém bole. 

Petronílio refreou a mão, abandonou a binga debaixo da mesa e, trunfando a cara, disse:

_ Pô, hoje nada tá dando certo pra mim. 

_ E não vai ser comendo os meus pastéis que vai melhorar.

Levei mais um de queijo à boca, pensei: “Tanta gente pra esse homem atazanar, e vem justo em mim. Parece que tenho um ímã que atrai chatos, puta-que-pariu.” 

Loura, ex do Caô, passou, rebolando e sorrindo, com uma latinha na mão. Seu shortinho microscópico me fez esquecer, por uns instantes, o chato do Petronílio. Mas, como felicidade de pobre dura pouco, voltei à sua incômoda presença ao sentir a fedentina doutro cigarro aceso. 

_ Ô, vai fumar esse troço pra lá! 

_ Tô vindo agora do banco. Cê não sabe o que me aconteceu. 

_ Sei, não. E, se você não desembuchar, vou continuar sem saber. 

Ele tragou fundo, suspirou fumaça e desalento em cima da mesa. 

_ Diacho, assim meus pasteis vão ficar fedendo... vai fumar pra lá! 

A peteca riscou o ar e as notas da canção, tirou fino no cabelo da ruivinha, veio rolando até parar, de novo, embaixo da minha mesa. O gordinho voltou, botando os bofes pra fora. 

_ Ô, moleque, avisa lá que se essa peteca cair aqui de novo, eu vou fazer essa merda em pedacinhos. 

De quatro sob a mesa, o gordinho resmungou qualquer coisa, pegou a peteca, desceu correndo. “Maldita hora que o Caô mandou fazer essa quadra aí”, resmunguei, de olho na moreninha que entrou, toda arrebitada, no banheiro. 

_ Fui no banco. Tô vindo de lá agora, sabe.

_ Ah é, eu tinha me esquecido que você tava aí... foi ao banco fazer o quê, outro consignado? 

_ Não. Fui receber isto aqui.

E Petronílio tirou do bolso da camisa um cheque dobrado ao meio. 

_ Sem fundos? 

_ Sem fundos. Faz tempo, eu emprestei esses quatro e quinhentos pro Juca Torto, sabe. 

 _ Mas como você empresta dinheiro se vive pendurado no consignado? 

_ Com o jurinho que o Juca ia pagar, eu pagava o banco e ainda me sobrava um, sabe. 

_ Ah. E agora o cheque voltou? 

_ Pra cê ver, a gente ajuda um amigo, e ele faz uma dessa com a gente. 

_ Mas você não fez um negocinho com ele outro dia? Foi uma moto que ele te vendeu, né? 

- Sim. Dei quatorze mil na moto. 

- É, lembro que você comentou isso... Eu te falei que ela não valia isso tudo, mas você não deu ouvidos... Mas, peraí, se ele te vendeu a moto por quatorze e te deve quatro e pouco, porque você não abateu isso e pagou só a diferença? 

_ Na hora não pensei nisso. Pra falar a verdade, não pensei que o Juca fosse me fintar. A gente é amigo desde os tempos da escola, a gente saía junto... foi ele que me levou pela primeira vez lá na zona...

_ E você vomitou na cama da Darleninha, eu lembro disso. Falaram na época que foi tanta porcaria que você botou pra fora que estragou até o colchão da menina...

_ Não foi bem assim, não! O que aconteceu é que misturei muita bebida, me senti meio mal... E eu tava meio ansioso também, sabe.   

_ Aham. 

_ Puxa, vira e mexe aparece um infeliz pra me lembrar daquela noite...  

_ Tem coisa que não se esquece, aliás, que ninguém esquece. 

_ Mas, vamo voltar ao cheque do Juca?

_ Se você quer... Por mim, fico em silêncio ouvindo a música. Ó só, essa molecada até que toca bem.  

 _ O cheque tá sem fundos, sabe. E, segundo o cara lá do banco, provavelmente não vou receber. Diz ele que o Juca tá devendo na praça, pra todo mundo. 

_ Inclusive pro Caô. 

_ É? 

_ Aham. E o Caô gritou aí outro dia, foi na hora do jogo, que aqui o Juca Torto não pisa mais. Só se acertar aquele monte de fiado... passa de mil. 

_  Então, não vou receber mesmo?

_ Vai não. Devia ter abatido quando comprou a moto... 

_ Nossa, tô fudido e mal pago. E agora? 

_ Agora, come um pastelzinho e aproveita a paisagem... ó aquela moreninha ali, só no requebro... é isso o que faz a vida valer a pena. 

 



Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

domingo, 23 de julho de 2023

Flanando pelo domingo


Saio do supermercado com duas sacolas. Não me custaram os olhos da cara pois ainda os conservo, míopes e estrábicos, mas que me levaram um bocado de reais, ah levaram... “A vida anda cara”, sentenciou um senhor na fila. Não discordei. Contudo, como hoje é domingo, e os domingos não foram feitos para lamúrias e resmungos, paguei as frutas e o queijo minas. 

Vou caminhando pela rua quase deserta. Passa um pouco do meio dia; nada mais natural que as famílias e os solitários estejam em casa, almoçando. Uma quadrinha de minha meninice vem à mente: meio dia, panela no fogo, barriga vazia... Era mais ou menos isso que estava escrito na cartilha que tinha lá em casa. Repleta de ilustrações coloridas e versinhos, eu a usava para brincar de escolinha. 

Um quadro negro, uma caixa de giz, a cartilha... eu desempenhava o papel de professor. Um misto de Raimundo Nonato e Jirafales, sem bigode e charuto, meio exigente, meio jocoso. O mundo, contudo, deu suas voltas e cambalhotas: não fui ganhar a vida numa sala de aula. 

Desço pela ruazinha paralela à igreja. O silêncio dominical convida a reduzir a marcha, observar. Tenho vontade de parar, deixar o sol de inverno me afagar o rosto... e, simplesmente, contemplar. Todavia, temo parecer ridículo. Eu, se visse alguém parado entre a São João Batista e o Paço Municipal, com as sacolas brancas do Zezinho à mão a mirar o nada... também o julgaria ridículo. Estúpido, com certeza. Sigo, pois. 

A praça, atapetada de folhas avermelhadas, entrega-se ao sol, hospede tão raro nessa época. Um cão vadio lagarteia, o velhinho no degrau do coreto parece imitá-lo. Uma folha da amendoeira cai, lentamente, diante do meu rosto. Por um breve e fantasioso instante, me sinto num daqueles filmes americanos onde folhas caem, rubras e belas, entregando-se ao outono. Nessas ocasiões, dou razão à canção que diz: “no outono é sempre igual/as folhas caem no quintal”... Mas, sem quintal e outono cinematográficos, me contento em flanar pelo carpete escarlate da Praça 28 enquanto o sino anuncia meio dia e meia. 

Um fato chama minha atenção: o busto de Celso Machado não está em seu costumeiro lugar. Quem levou o Celso, e para onde? É o que pergunto ao pombo que zanza no gramado. Sem resposta, encaro a pilastra despida. E, feito uma estátua mal ajambrada, me ponho a recordar a crônica que li mais cedo, antes de sair: “a história nos dias de hoje, mais do que nunca, é o assunto mais impopular, um assunto de gabinete por excelência, um apanágio de eruditos, que discutem, debatem, comparam e até hoje não chegaram a um acordo sobre as ideias mais elementares”. 

Acho, Dostoiévski estava certo; e me entristeço pensando que, entre suas palavras e este rigoroso inverno, transcorreram mais de cento e setenta anos. Todavia, como não pretendo bancar o erudito, o pernóstico ou ser mais um chatonildo de plantão (repito, os domingos não foram feitos para isso), vou andando. 

A boca pede um chocolatinho. Não devia, eu sei, mas cedo à tentação. Há quem se entregue aos deleites carnais, ao fumo desatinado, à jogatina inconsequente como Dostoiévski... eu me dou, de corpo e alma, ao prazer da mesa. Um dia, e esse dia há de vir, prestarei contas desse meu pecadilho. Por ora devoro, desabridamente, doces e chocolates. 

Saio da drugstore (a cidade agora está très chic, tem até drugstore) levando mais uma sacola. A ditadura do plástico é terrível; mas, como não tenho vocação para rebelde e/ou subversivo, curuzes!, levo mais uma sacolinha para casa. 

Os cones alaranjados sinalizam que as obras ainda não terminaram. Graças à Deusa Sensatez, demoliram aqueles quiosques horrendos que só serviam para descaracterizar o patrimônio histórico-arquitetônico, já tão descaracterizado, e atrair bebuns barulhentos à praça. Aplausos para o lúcido executor desse projeto!

Subo a ladeira do Conservatório. Tenho pressa de chegar em casa, me livrar destas sacolas e destes trajes de domingo, devorar meu Lacta. Apresso tanto o passo que, quando dou por conta, é tarde: o peloto de bosta já grudou no meu tênis... Me esqueço que os domingos não foram feitos para queixas e pragas e, feito um pirata, amaldiçoou o cagão que deixou este presente desgraçado na calçada.  




chegará o amor como no ipê, a flor: súbito no viés da noite quando menos se espera Imagem: criada pelo Chatgpt  Poema: Raphael Cerqueira S...