domingo, 18 de abril de 2021

CASINHA BRANCA À BEIRA DA ESTRADA


      Livros são trampolins para histórias diversas, sem fim. Com um salto, o leitor mergulha em universos paralelos; na velocidade do faz-de-conta cruza o mar dos piratas, viaja ao céu e ao país das fábulas, regressa aos tempos mitológicos sem se esquecer das cantigas de roda e da amarelinha. O leitor pisca: reina ao lado do saci; pisca de novo: visita as cortes de princesas encantadas; piscou-piscou: aprende que, para qualquer vivente falar feito gente grande, basta tomar as pílulas do doutor Caramujo.

         No mundo há um lugar onde bonecas, sabugos de milho e leitões têm títulos de nobreza; onde uma menina morena como o jambo e do narizinho arrebitado se casou com um príncipe peixe; e um valente menino, que só tem medo de vespas, se recusa a crescer tal como Peter Pan. Para este sítio correm os personagens da carochinha, das mil e uma noites, dos contos de Grimm e Perrault sedentos por novas aventuras. De trem ou charrete, a pé ou sorvendo pó de pirlimpimpim, na Hiena dos Mares ou no Pégaso, chega-se àquela casinha branca à beira da estrada. Onde, “na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz” vive “a mais feliz das vovós”. Nesse rincão encantado cortado por um riachinho (portal para o Reino das Águas Claras) há espaço para o sonho.

         O leitor, ao ouvir os serões da bondosa vovó ou os causos da mais prendada das cozinheiras, aprende a valorizar o poder do sonho. E sonhar, como certo alguém já o disse (e se não o disse, fica valendo como dito) é essencial ao viver. Assim é o Picapau Amarelo: parada obrigatória para a fantasia, a aventura, o sonho. Refúgio para todos que acreditam ser a vida um pisca-pisca. E, por isso, se recusam a abandonar o faz de conta.

      Os livros de Monteiro Lobato (1882-1948) mostram que não é preciso muito para ser feliz: basta ter imaginação. À luz do lampião, enquanto os grilos cricrilam lá fora e o cheiro de bolinho e pipoca espalha-se pela casa, sentado ao lado da Emília o leitor descobre o segredo da liberdade. E ser livre é ser feliz.

         No dia do nascimento de Lobato e dia nacional do livro infantil, a crônica de um menino que se sentou ao lado da Marquesa de Rabicó, tomou emprestada a cartola do Visconde e, do sítio, jamais saiu. 


Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: Museu Monteiro Lobato/Taubaté (fonte: Google imagens) 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

À ESPERA


    Andejo. Assim é o cronista. Que precisa andar pela cidade, ouvir o padeiro, o quitandeiro, o apontador do bicho, a balconista, os lamentos daqueles que perderam outra causa; ver a briga no trânsito, a juventude voltando trôpega da balada... A vida pulsa nas ruas e essa pulsação precisa ser sentida e absorvida pelo cronista. Daí Antônio Cândido considerá-lo o cão farejador do cotidiano.

      Contudo, em tempos de lockdown e toques de recolher, me pergunto: por onde andar. Impedido de exercitar meu lado andarilho, escrevo sobre o cotidiano doméstico, “a dor e a delícia” de viver confinado em um quarto no quarto andar.

      Para Xico Sá, a crônica “dá conta das miudezas da vida em comum”. Enquanto espero o entardecer e o repicar dos sinos na São João Batista, olho à janela. Não me faltam as palavras, falta-me o som das ruas... aflito, garatujo outras idiossincrasias no caderno já cansado de tanto palavrório.

    E daí? ecoa o brado retumbante na caserna do planalto central. Cansado, continuo a escrever. E a esperar. 




Texto: Raphael Cerqueira Silva 
Foto: acervo do autor 

domingo, 11 de abril de 2021

PÁGINAS ABERTAS


O dia se arrastava. Desatento, eu lia revistinha na varanda. As ruas continuavam silenciadas: novo decreto entrara em vigor. Indiferente aos comandos normativos, o cão da vizinha ladrava como um danado. Fevereiro, sempre propício a nostalgias, me fez recordar outras tardes ensolaradas. No ano em que Momo não pôde botar seu bloco na rua, minhas memórias desembestaram para outros carnavais.

No entorno da Raul Soares, entre risos e gritinhos de satisfação, a molecada corria. Enorme e desengonçada, os braços esticados à frente feito a cuca, Maria Pereira chispava atrás. Os mais arteiros puxavam sua saia estampada revelando, por instantes, o rapaz de short e camiseta que manipulava a boneca. Da calçada do Bradesco, eu observava a criatura girando, girando, indo e vindo... quase esbarrava nos galhos desnudos do ipê da praça, na amendoeira que sombreava a banca de jornal.

Sem tirar os olhos da Maria, eu chupava picolé. Na mente rodopiava a história que ouvira dias antes. Ao sair da padaria, vi um homem e um menino de mãos dadas. Tinha mais ou menos a minha idade, comia Surpresa e olhava para a direção em que o homem apontava. “Lá, naquela casa roxa de janelas amarelas, mora a mãe da Maria Pereira”. Talvez para refrescar a memória do menino, arrematou: aquela boneca que só sai de casa no carnaval. Eu conhecia a senhora que morava do outro lado da rua; contudo, até então ignorava que ela concebera uma boneca de pano, tal como fizera tia Nastácia. Fiquei encucado: gente de carne, osso e cabelos brancos podia ser mãe de boneca, ainda mais boneca gigante, de cabeleira colorida, que saía apenas no carnaval para correr atrás da criançada e rodar a longa saia? Minha cabeça girou como lápis no apontador... até esqueci de comer meu Skiny.

Enquanto os meninos corriam na praça e tropeçavam nos paralelepípedos, aquela questão voltou a martelar meu pensamento. Encantado, eu matutava... O picolé derretia; um pingo travesso pingou no meu pé. A cabeçorra da Maria Pereira ultrapassava a fiação dos postes, parecia tocar o céu. Outro pingo; desta vez caiu no matinho que crescia no meio-fio. Maria corria em frente à papelaria da Odila; os meninos insistiam em puxar sua saia; os medrosos ficavam nos bancos da praça escancarando as janelinhas, comendo pipoca, soprando bolas de chiclete...

Perdi o rumo das lembranças quando uma moto rasgou o silêncio da tarde. O sino da Santo Antônio marcava o tempo, o vento brincava na árvore da escola e, no chão, a revistinha jazia com as páginas abertas.  


*Agradeço ao Centro Cultural de São Geraldo que, gentilmente, me enviou a foto abaixo. 





Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do Centro Cultural de São Geraldo/MG

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Em casa


Sobre a mesa, R$24,00 trocados para pagar o moço do queijo. Em volta, e até no chão, restos da borracha que ainda a pouco apagou bobagens sentimentais. Quase todo dia me lembro do Patralhão: baboseira, baboseira, baboseira... é só o que escrevo ultimamente. Resultado de um coração em frangalhos. Pandemia, home-office, obituários, outono...

Nada anda: o computador tropeça na memória abarrotada de arquivos inúteis, o sistema cai – por consequência, a produtividade. A internet, como o bêbado equilibrista da canção, vai-não-vai; fico sem saber onde estou.

O canto de Maria ecoa pela casa. No vizinho, alguém fura a parede. Segundo o infalível D.I.V.A (Departamento de Investigação da Vida Alheia), estão instalando internet. A dúvida paira no ar, densa e incômoda como as fumaças de agosto: como ele conseguiu viver até agora sem internet?! Em breve, os agentes infiltrados do D.I.V.A hão de descobrir...

A brisa não refresca o início de abril. O caminhão do Abacatinho por pouco não se choca com o táxi que entrou na contramão. Sem recôncavos e reconvexos, arrasto o viver esperando, ao menos, concluir o alvará que, pela terceira vez, um chatonildo me pediu pelo WhatsApp.   








Texto: Raphael Cerqueira Silva 
Foto: acervo do autor 

 

domingo, 4 de abril de 2021

Eduardo Marciano, a falta do pão de cada dia e otras cositas más


         Semana de feriadão. Sim, eu sei que é estranho falar em feriadão quando passamos todos os dias em casa. Em tempos de pandemia, quando os dias – e, por conseguinte, as noites - são todos iguais, feriadão é feito olho azul em gente feia. Mas, apesar da inutilidade, oficialmente meu feriadão começou na quarta-feira.

       Quarta-feira que, noutros tempos, teria a Procissão do Encontro. Mas, em tempos de restrição à circulação de pessoas, os fiéis não puderam ver o tradicional encontro de Maria e Jesus. Assim como no ano passado. Apenas soaram os sinos na matriz. Ou isso foi na noite de quinta? Vai saber, já que tudo parece tão igual...

Mas na quarta, enquanto a maioria estava reclusa, teve gente ousada batendo perna – e continência – por aí. Vestidas de patriotismo, essa gente de bem saiu às ruas em grupinhos, tipo aqueles que a molecada formava depois da aula para tocar campainha, implicar com o nerd da sala, azucrinar a vizinhança... reunida, essa brava gente tomou ruas e praças para comemorar os 57 anos da ditadura militar (ops, movimento revolucionário, para usar o jargão daqueles cidadãos de bem). Se vivo, tenho certeza que Simão Bacamarte os levaria para uma temporada na Casa Verde. Eu até pensei em escrever uma carta para Gotham City e solicitar ao Batman que levasse esses cidadãos de bem para uma visitinha ao Arkham... mas impedido de sair de casa sequer para postar uma mísera carta, posterguei meu intento para ano que vem.

       Na quinta, depois de ver mais uma crônica minha publicada na revista Vicejar, sentei à varanda para um encontro marcado. Com o Sabino nas mãos, me perdi nas desventuras e angústias de Eduardo Marciano. Um livro de muitos encontros em bares, de desencontros em festinhas regadas a bebida e otras cositas más nos apês do Rio, com gente zanzando livre, leve e bêbeda pelas ruas de BH, com longas viagens de trem pelas serras de Minas... confesso que em tempos de isolamento me incomoda ver tanto movimento ao ar livre, tanta gente reunida. Não direi que me dá nostalgia, porque não posso sentir falta do que não vivi, isto é, da vida noturna e boêmia que Marciano, Hugo e Mauro levam em Belô. Mas, a seguir a risca o que diz outro personagem do livro é possível, sim, sentir falta do que não se viveu... melhor deixar pra lá, antes que isso aqui vire uma palestra do Karnal.

         Começaram a vacinar a turma dos sessenta e poucos anos, mas na sexta já circulava uma postagem da prefeitura suspendendo a vacinação agendada para o sábado. O motivo: falta de vacinas. No DF, um comandante da PM furou fila para ser vacinado; na cidade natal de Marciano, uma falsa enfermeira vendeu vacina igualmente falsa para empresários e, por aqui, não pudemos comprar pão. Segundo o decreto vindo lá das alterosas, e ratificado no Paço Municipal, padarias não podem abrir. Ficamos, assim, sem o pão nosso de cada dia na sexta, no sábado e hoje. Por isso, se a crônica lhe soa longa, querido leitor, é porque este que vos escreve tem fome; e, na ausência de pão, tenta se alimentar de palavras. Se Darwin estava certo, caminhamos para um novo estágio da evolução... vem aí, o homem devorador de letras. Aguardem.

         O Prata dedicou a crônica deste domingo aos fungos. Confesso que me deu uma fominha... daí passei para a coluna da Fernandinha Torres. Coitada, anda ressentida com certo Hildebrando que lhe escreve ofensas. Enquanto uns evoluem, a maioria “involuiu”, querida. Já me acostumei com essas criaturas: ao longo da semana tive vários comentários atacados por essa turba... Penso até que são os mesmos que, ainda outro dia, saudaram uma enorme caixa de cloroquina, fizeram loas aos generais da ditadura, embarcaram na canoa furada de um certo mito e que, um pouco antes, gritaram “tchau querida” abraçados a um pato horrendamente amarelo na Augusta... É, acho que vou ter que enfrentar a fila do correio e postar a cartinha pro Batman. Não vai ter jeito. 






Texto: Raphael Cerqueira Silva 
Foto: acervo do autor (Visconde do Rio Branco, MG) 

domingo, 28 de março de 2021

O PAPA ESTÁ SÓ

Só, o papa reza.

Na praça, chuva e silêncio.

Criaturas inquietas repensam

tantos projetos, outros sonhos

sob a cama.

Ouçamos o vento outonal:

traz súplicas e esperança.

 

Em 27 de março de 2020, o Papa Francisco rezou sozinho na Praça São Pedro em razão da pandemia da COVID-19. Segundo os sites e jornais, foi um ato inédito na história da Igreja.

Quando a pandemia oficialmente começou por aqui, dias antes do ato papal, me propus a escrever um poema por dia enquanto ela durasse... Tolo, pensei que a peste seria abatida em poucos meses... na minha ingenuidade, duraria uns cem dias. Todo dia, então, eu escrevia um poema. “O Papa está só” foi o oitavo.  

Porém, à medida que o tempo passava, minguava a inspiração. Contabilizei pouco mais de noventa poemas no contexto de isolamento. Para não me tornar repetitivo e enfadonho, me refugiei na prosa. A crônica foi a forma que encontrei para falar sobre a peste, a pandemia, o home-office, o isolamento, as (des)informações, as indecisões das autoridades... Às vezes surgia um verso aqui, outro ali, mas foram lumes que se apagaram rapidamente.

Toda noite, ao deitar, eu tinha (e ainda tenho) a impressão que haviam soltado no mundo o grande Leviatã. E, inexplicavelmente, o monstro se fortalecia a cada dia, arrasando vidas e sonhos, angustiando e deprimindo... assim, atravessamos o ano navegando em águas turvas, desolados como as almas na barca de Caronte.

Escrevo este texto em 28 de março de 2021, Domingo de Ramos. Ainda não há o mínimo indício de luz no fim desse túnel. Faltam-me versos. Por outro lado, abundam tristezas e angústias mundo afora. Segundo o Dr. Dráuzio Varela (Folha de SP de hoje), à deriva, “só podemos contar com nós mesmos”. Resta-nos, assim, rezar. Como o Papa, no frio da solidão.





Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 

Domingo de Ramos

 

   A caminhada, curta, tradicionalmente começava cedo. Pessoas apressadas passavam por minha porta: vinham do morro, das ruas sem calçamento. Nas fervorosas mãos, ramos de coqueiros e palmeiras,  terços e velas. Alguns levavam o "Deus Conosco".
   Concentrado na pracinha, o grupo disputava as poucas sombras enquanto meninos levados corriam no gramado e se penduravam no busto do Dr.Oswaldo. Por volta das oito da manhã, lentamente, os fiéis iniciaram a caminhada.
 Paralelas aos vagões da ferrovia, domingueiramente vazios e ociosos, vozes uníssonas ecoavam cânticos de fé entremeados com pais-nossos e ave-marias.
     A marcha seguia rumo para a matriz, àquela hora já adornada de ramos. Na escadaria, o pároco e  seus acólitos aguardavam a procissão.
   A caminhada seguia, preenchendo de fé e devoção a rua. Conhecida e afinada voz puxava o coro: hosanas e vivas ao Senhor. Impassível, o lume das velas resistia à brisa matutina que, em vão, tentava amenizar o calor.
     As crianças queriam andar mais rápido: já se viam sentadas no frescor da igreja, abrigadas do sol forte, entretendo-se com as palmas bentas afixadas nos bancos e no altar.
  Quase não se via a serra, ainda ontem verdejante: nuvens baixas a encobriram, anunciando chuva. "Também pudera, com o calor fora do normal desta santa manhã", a mulher de coque comentou em voz baixa para a comadre que, a sua frente, apenas meneou a cabeça para não se perder no salve-rainha.
 Súbito, o vento passou pela procissão, apagando velas, derrubando ramos, assustando os pequenos. Inabalável, a fé manteve as orações.
 O séquito passou em frente à sede do sindicato da RFFSA, ao bar do Hebinho (onde eu sempre me deliciava com o pastel de queijo e a Coca geladinha), dobrou à esquerda passando diante do antigo cinema, subiu a escadaria da igreja saudado pelos sinos e os primeiros pingos da chuva.
     Em instantes, a missa de Ramos começou.




Texro: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor (São Geraldo, MG) 





domingo, 21 de março de 2021

De volta ao passado


       Ainda outro dia vimos manifestações verde-amarelas nas ruas, praças e janelas. Saudosistas pseudopatriotas pediam, contrariando as diretrizes da Razão e da História, o regresso da nação ao decantado paraíso perdido das décadas de 1960/1970... esse oásis tão, tão remoto que, no mercado, não se encontram mapas, bússolas, radares ou GPS que nos conduzam até lá. Felizmente. Graças a Cronos, ficou para trás.

— Que pena! — suspiram aqueles manifestantes (em geral, cidadãos de bem; gente de escol, como se dizia no tempo deles).

            Mais recentemente, começaram a zanzar por aí pessoas esclarecidas, seguidoras de um ex-astrólogo (hoje filósofo), bradando contra a vacinação. Inevitável, pois, recordar o verso de Nando Reis: o mundo está ao contrário e ninguém reparou.

Tudo ficou de ponta-cabeça, os absurdos tornaram-se aceitáveis. E não há como dialogar com essa gente de bem — afinal, como o Rei canta naquela canção, todos estão surdos. Ensurdecidos e ensandecidos, prostram-se ante o Twitter e o Facebook, esses irresistíveis titãs da nossa era.

            O que está acontecendo?

            Vão-se os anos... voltamos no tempo. Parece que regressamos a 1904, época de pestes, desordens e incompetências administrativas regadas a café-com-leite. De repente, fomos expelidos no centro da capital federal por uma invenção mequetrefe do Professor Pardal. Nossa republiqueta vive em polvorosa contra a vacinação obrigatória promovida por Oswaldo Cruz.

Cruz-credo!, nos persignamos, enquanto erramos por ruas esburacadas, entre cortiços em ruínas e bondes incendiados.

— Quero regressar a 2021! — grita o camarada ao meu lado.

Mas... será mesmo um bom negócio?

Afinal, aqui temos também nossas pestes: COVID-19, manifestantes pró-ditadura, terraplanistas, fake news, lockdown, toque de recolher, um certo mito megalomaníaco... O que está acontecendo?, repete o questionamento do poeta.

Alô, Doutor Brown, me empresta o DeLorean para eu voltar à barriga da mamãe? 







Texto: Raphael Cerqueira Silva 
foto: Forte de Copacabana (acervo do autor) 

 

domingo, 14 de março de 2021

Aos nove anos

 

Ontem comecei a ler na internet uma entrevista com K., jovem poeta que lançou neste mês seu primeiro livro. À primeira pergunta, disse que seu contato com a literatura ocorreu muito cedo; que em sua casa livros abundavam na sala e na copa, na estante do corredor, nos quartos... enfim, em todo canto; que aos nove anos já mergulhara nos livros de Machado, Hesse, Jorge Amado, Bilac, Hemingway; que não conheceu os livros da Vaga-lume e os super-heróis das revistinhas que os coleguinhas tanto comentavam a caminho da escola... Parei de ler na primeira resposta.

Eu, que iniciei na leitura através dos contos de fadas e dos gibis do Zé Carioca e que só conheci os clássicos a partir dos quinze anos por imposição escolar, achei pouco provável a trajetória do entrevistado. Sobretudo porque ele é quase uma geração depois de mim: segundo o entrevistador, K. nasceu quando o Muro de Berlim ruía, Madonna estourava com “Like a Prayer”, Spielberg lançava “Indiana Jones e a última cruzada”, Faustão estreava na Globo, Collor vencia as eleições e, na China, ocorriam os protestos na Praça da Paz Celestial. Desliguei o celular, fui ler meu jornal.

Mas, entre um artigo e outro, fiquei a matutar: como, aos nove anos, um menino consegue ler – e compreender – Machado, Bilac, Hesse... Eu conheci Machado no primeiro ano do ensino médio; “Contos” foi meu primeiro contato com seu universo. Lembro o quanto foi custoso vencer alguns trechos, seu vocabulário, sua ironia (que eu sabia ser ironia porque o professor me alertara para seu estilo). Depois veio “O Alienista”: a leitura fluiu melhor, mas ainda derrapei em algumas passagens... Quanto a Bilac, tomei trauma desde que a professora mandou decorar aquele soneto do “ora (direis), ouvi estrelas!”... não as ouvi, porém tomei um pito da mestra que jamais esqueci. Hesse conheci aos trinta e poucos. Em uma livraria de Diamantina vi uma bonita edição de “Demian”; comprei-a para me acompanhar na viagem de volta. Gostei. Contudo, acho que se tivesse caído em minhas mãos mais cedo, talvez não me interessasse.

Aos nove anos eu queria jogar Atari, ler Almanaque Disney, Luluzinha e Bolinha, ver desenhos na televisão. Enquanto isso, as enciclopédias da Abril e o “Moça deitada na grama” empoeiravam na estante. Sobre este livro, lembro da capa: no fundo branco, o desenho de uma mulher nua deitada no chão ; na contracapa, a foto em preto e branco do Drummond. Aos nove anos não tive a curiosidade de ler sequer um parágrafo... só encarei, pra valer, um livro dele às vésperas do vestibular.

Minhas referências literárias aos nove anos eram o Pinóquio da Silva (livro do Cony publicado na Coleção Fantasminha) e os livros do Rei Canequinho traduzidos pelo Sabino. Mas só fui saber mesmo quem eram Fernando Sabino e Carlos Heitor Cony tempos depois: aquele, através de um trecho de “O homem nu” que a professora Edith leu e releu na sexta série, nas aulas de interpretação de texto, mostrando que ler também era divertido; e este quando comecei a ler sua coluna na Folha, no começo dos anos 2000.

Dobrei o jornal, pensei: um menino aos nove anos que lê todos aqueles clássicos é, para mim, como ver a USS Enterprise pousando no meu quintal. Todavia, como tudo é possível neste mundo se se tiver imaginação, vou crer no que disse K. Ao menos, sua entrevista serviu-me de mote para esta crônica. 





 Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor 

domingo, 7 de março de 2021

Alvorecendo

o dia vai alvorecendo

tenho um poema se formando

em minhas entranhas inquietas

como uma ereção matutina

avoluma-se, robusto, 

o poema ao alvorecer

contudo eu queria, apenas,

dormir mais um pouco. 




Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor 


quinta-feira, 4 de março de 2021

Uso obrigatório de máscara

 _____Espero minha vez na fila da lanchonete. À frente, o garoto de boné compra Fandangos e Galak; paga em dinheiro trocado. O baixinho do caixa separa as moedas de dez e cinco centavos em um montinho à parte. Reconta, diz: obrigado, volte sempre. Maquinalmente. Sem expressão, como Dolph Lundgren em Mestres do Universo.

_____Há quase quinze anos compro nesta lanchonete. O baixinho é o proprietário. Recebe a clientela com “bom dia, tudo bem” sem sequer levantar os olhos. O garoto sai, abrindo ruidosamente a embalagem de biscoitos. A fila anda. Não mantemos o distanciamento protocolar exigido na tevê: falta espaço para isso no estabelecimento.

_____Agora é a vez da loira de jeans coladinho. A máscara rosa cobre-lhe o queixo. Com uma nota de vinte paga a lata de Coca e o quibe já pela metade. O baixinho passa-lhe o troco, diz: obrigado, volte sempre. A moça guarda as cédulas e as moedas no bolso de trás da calça; desce rebolando para a calçada. Na parede da lanchonete, os ponteiros do relógio requebram para mim como odaliscas travessas.

_____A velhota de máscara preta paga o cigarro com cartão. De crédito, diz. Sai capengando enquanto o “obrigado, volte sempre” se perde entre os ruídos do trânsito. Enfim, minha vez. “Bom dia, tudo bem” repete o baixinho. Apresento-lhe a comanda: uma esfirra, um guaraná e um sanduíche natural (este comerei à tarde: estou farto dos sequilhos que a chefe compartilha na repartição). Peço um Halls de menta. No débito, digo, mostrando o cartão. Demoro a digitar a senha: os óculos embaçam com a máscara, justifico.

_____– Eu não uso máscara. O baixinho proclama, esfíngico. Podem vir os fiscais do prefeito, os homens, o juiz, o escambau que eu não uso máscara. Pago multa, mas não uso esse troço, conclui. Só faltou dizer que o vírus é fruto de um conluio entre a China, a Globo e o PT.

_____Em silêncio, digito a senha. Espero a emissão da via; leio o cartaz afixado com durex ao lado do caixa: USO OBRIGATÓRIO DE MÁSCARA. O baixinho me entrega a via com o indefectível obrigado, volte sempre. Na calçada, resmungo: nessa lanchonete não piso mais.



Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor 


chegará o amor como no ipê, a flor: súbito no viés da noite quando menos se espera Imagem: criada pelo Chatgpt  Poema: Raphael Cerqueira S...