domingo, 22 de maio de 2022

PRIMEIRO DIA DE AULA


Primeiro dia de aula. Como sempre, o ônibus atrasou; já me acostumei: ano passado foi todo assim. Numa noite, o trânsito congestionou a Beira Rio; noutra, o ônibus demorou a cortar as ruas estreitas do Centro; na época das chuvas fortes, os buracos no asfalto reabriram e foi uma dificuldade vencer os vinte quilômetros entre minha cidade e Ares Formosos... Às vezes, eu achava que chegaria no horário, mas o ônibus custava a conseguir vaga no estacionamento; resultado: descer lá longe e andar até a faculdade e encarar seus setenta e um degraus porque o elevador... ah, o elevador vive na promessa da reitoria. Nessas horas invejo a galera da Pedagogia: o curso é no térreo. E ainda dizem por aí que vida de estudante é fácil. Fácil é a vida de parlamentar em Brasília. 

Porta entreaberta. O professor, de pé, ereto no terno preto como um sabugo encasacado, lia o que julguei fosse o conteúdo programático ou a bibliografia. Caminhei até o fundão. Doralina, sempre gentil, deixou o caderno marcando lugar para mim. O Gianecchini sorria, sem camisa, na capa. Sentei, enxuguei o suor da testa; Doralina recolheu o caderno, sorriu; ao contrário do Gianecchini, um sorriso compreensivo: antes de se mudar para Ares Formosos, ela também passou pelos mesmos perrengues que eu. 

No alto do quadro, em letra feia: DOUTOR CLÁUDIO CÂNDIDO. Os colegas acompanhavam a leitura em folhas A4 semelhantes às do professor-doutor. Pedi-lhe uma. Ele abaixou a folha que lhe encobria parcialmente o rosto mal barbeado; o indicador sujo de tinta empurrou os óculos do nariz, a mão voltou ao bolso da calça. 

- Meu caro, não tolero interrupções. Esta foi minha primeira advertência ao adentrar a sala. Mas, como o senhor atrasou-se para a aula... Recapitulando, senhores: atrasos e interrupções não são, e não serão, admitidos; a dinâmica da aula é, como comunicado anteriormente, exposição do conteúdo por cinquenta minutos; findo este prazo, concederei aos senhores, no máximo, dez minutos para perguntas. Friso: perguntas atinentes ao conteúdo abordado em sala de aula; quesitos referentes a tópicos estudados anteriormente não serão admitidos. Vale dizer, os senhores quedarão sem resposta. Matéria lecionada é como água do rio: flui, segue seu curso. O conteúdo ministrado é levado pela correnteza do tempo e o Direito, como os senhores devem saber, não socorre aos que dormem. Regra básica para o bom jurista: nunca perca o prazo. Preclusão, senhores; portanto, aula dada, assunto encerrado. Outrossim, não tolerarei questões sobre tópicos ainda não lecionados; futurologia é para cartomantes, adivinhos e os ingênuos que creem neles. Se os senhores sobreviverem ao longo do semestre, terão oportunidade de ouvir-me prelecionar sobre suas eventuais questões. Dito isto, espero ter deixado claro a metodologia empregada, e espero também não regressar mais a este assunto. Duas coisas enfastiam-me profundamente: I) alunos descompromissados com o horário da aula e II) repetir-me. 

Doutor Cláudio destampou a garrafinha que suava ao lado das canetas, bebericou. Não entendi se a careta foi para mim ou em razão do trem esverdeado que engoliu. Ignorou minhas desculpas com um pigarro, tornou a cobrir o rosto com a folha. Doralina puxou a carteira, seu ombro tocou o meu: acompanha comigo. O professor retomou a leitura, voz arrastada, monótono como as ladainhas de novena que ouvi na meninice.

- Ele só vai dar uma aula mesmo? 

- Disse que ninguém presta atenção no outro por mais de cinquenta minutos. É científico, diz ele. 

- Mas ele vai receber pelas duas aulas né, retruquei, concluindo mais uma espiral no caderno. 

- Pois é. E teve a cara de pau de dizer, desse jeito empolado aí: espero os senhores não tenham quesitos, assim regressarei mais cedo à minha casa: tenho artigos para finalizar e publicar.  

Doralina imitou a voz do professor, tão direitinho... parecia o Tom Cavalcante imitando outros artistas. Sufoquei o riso, copiei os títulos que o professor acabara de anotar no quadro com sua letra ridícula. 

- Estes a inoperante da estagiária não digitou, então os senhores anotem, pois usaremos alguns capítulos do Sussekind a partir da sexta aula, e do Maranhão logo após nossa primeira avaliação. 

- Ninguém questionou esse absurdo de apenas cinquenta minutos de aula? 

Doralina, com a caneta rosa, transcrevia os títulos em caligrafia caprichada; com a roxa, sublinhou-os duas vezes. Metódica, como sempre. 

- O Dauro questionou, foi o único. 

- E? 

- E o professor disse que a metodologia dele é assim, que tem base científica e respaldo da direção da faculdade... só faltou dizer que foi abençoada pelo papa João Paulo II.  

Rabisquei no topo do caderno: ASSHOLE TEACHER.  Doralina riu; sinal que meu curso de inglês estava servindo para alguma coisa. 

- Uai, e ficou por isso mesmo, ninguém falou mais nada? 

- A Danusa pediu pra aula começar um pouco depois das sete. Falou que muitos colegas vêm de outras cidades e chegam atrasados devido ao trânsito e aos ônibus que custam a estacionar... comentou que os outros professores esperam uns dez minutos ... 

- E ele? 

- Disse que é diferente dos outros professores. E Doralina imitou-o novamente: a começar pelo meu título: caso os senhores ainda não saibam, sou o único professor com doutorado contratado por esta instituição de ensino. O único, aliás, desta cidade provinciana... Depois ele falou que a primavera antecede o verão e as andorinhas, o inverno... não entendi muito bem, acho que quis dizer que o bom aluno chega antes do professor. Ah falou também que não é dono das empresas de ônibus, nada tem a ver com “questões de mobilidade de trânsito”, que os prejudicados devem reclamar na prefeitura, ou sair mais cedo de casa. 

- Disgramado filho duma...

- Caso minha preleção esteja a perturbar a confabulação dos senhores aí dos fundos, por favor, avisem-me: não quero ser inoportuno. Posso, outrossim, ceder-lhes a palavra a fim de compartilharem conosco vosso brilhantismo e sapiência. Afinal, o que os senhores têm a dizer certamente é mais instrutivo que minha aula. 

Os bajuladores de plantão riram, feito hienas. Encarei o doutor: seus óculos novamente na ponta do nariz, o deboche escancarado entre as desagradáveis rugas de expressão. Danusa, três carteiras à frente, fez um gesto para eu me acalmar. Dauro saiu, deixou a porta escancarada: um grupo do décimo período conversava debruçado no parapeito do corredor; o relógio da igreja de Santo Ivo marcava 7:35; o tempo virava para chuva.  

 I WILL KILL THIS GUY, garatujei no caderno. Doralina acarinhou minha coxa. Doutor Cláudio bebericou mais um pouco, fez outra careta, tornou a ler. Tentei me concentrar na mão de Doralina ainda a brincar no meu jeans, ousando um pouco além da coxa. Lembrei a noite em que nos entregamos entre as estantes de Constitucional e Penal... por pouco, não ficamos trancados na biblioteca. Não teria sido nada mau, penso. Doutor Cláudio fechou a porta com força, resmungou sobre os alunos no corredor. Àquela altura a mão de Doralina me despertava outros sentimentos, e eu estava pouco me lixando para “o único doutor da instituição”.    




Texto: Raphael Cerqueira Silva 
Foto: acervo do autor 

sábado, 7 de maio de 2022

LEITURA PUXA LEITURA



Leitura puxa leitura, me disse, certa vez, um professor. Vendo-me, como de costume, lendo no pátio da escola, ele parou e explicou: um livro faz referência a outro(s) livro(s) e a filme(s) e a música(s) que, por sua vez, citam outros livros, filmes e músicas... a espiral de referências é infindável e, assim, vamos acumulando repertório, descobrindo novas leituras. 

     Antigamente, as pessoas faziam listas de futuras leituras; o professor mesmo tinha um caderno enorme, brochurão e capa dura, onde anotava títulos de livros para comprar e de filmes para alugar. Com a internet, penso, ficou mais fácil para os curiosos sairmos em busca das referências. Vejam o que me aconteceu ontem. 

Sexta-feira. O Conservatório fechado, a Praça 28 de Setembro - ó milagre! - respeitando o sossego do contribuinte, aproveitei o raro momento de silêncio para ler Ao correr da máquina, crônica de Clarice Lispector escrita em abril de 1971. Depois de discorrer sobre o amor e a verdade, sobre o “dia lindo de outono” e o “homem que veio consertar o toca-discos”, Clarice diz que assistiu ao filme Cada um vive como quer; e arremata: “tinha música e eu chorei”. Rapidamente meu lado curioso se manifestou: opa! preciso ver esse filme que tirou lágrimas de Clarice... Como eu disse, a internet facilita nossa vida: o filme está no Youtube, completo e dublado. Assisti. 

Não chorei, como Clarice; é preciso muito mais para me fazer chorar. Contudo, gostei do filme. Jack Nicholson é Robert, um ex-pianista que rompe com o passado e a família, vive um relacionamento fracassado com Rayette, tem um trabalho e relações de amizade que não lhe satisfazem. Enfim, Robert é o típico homem de trinta e poucos anos que arrasta o viver sem saber para onde... e, além de tudo, tem que ouvir de duas garotas, no fim do boliche, que está ficando careca. Acompanhei o drama de Robert, com atenção. O filme termina do jeito que eu gosto: abrupto, inesperado; só dei conta que acabou porque os créditos surgiram na tela. 

Como leitura puxa leitura... o filme tem muitas músicas, algumas executadas ao piano; fui pesquisar na internet: Chopin, Bach, Mozart. Adicionei-as à minha playlist: música clássica, ouvi vários escritores dizerem em entrevistas, ajuda na hora de escrever. 

De pesquisa em pesquisa, ocupei a noite, que deixou de ser silenciosa: ganhou até trilha sonora. Quem dera o silêncio noturno fosse sempre rompido desse jeito... 

         No momento em que escrevo esta crônica, penso no livro que comprei na internet, cuja indicação apareceu numa crônica do Drummond. Espero que o carteiro não demore a trazê-lo... Em Compre livro no táxi, o gauche conversa com um taxista que, além de levar e buscar passageiros, exerce o árduo ofício de vender livros.... o árduo aí vai por minha conta, afinal, em um país onde poucos leem  - e são as Senhoras Estatísticas que o dizem, não eu – vender livro não deve ser uma atividade muito rentável. 

           Quando o livro chegar, talvez eu escreva umas linhas; desde já, torço para que o autor faça referências a outro(s) livro(s), filme(s) ou música(s)... e que eu tenha mais noites silenciosas para ler/assistir/ouvir em paz.  



Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor


segunda-feira, 25 de abril de 2022

HAPPY HOUR ANTECIPADO



Sem subornar teu coração/com feitio de paixão/farei tudo pra ganhar tua confiança...

_ E aí, tá onde? 

Eu voltava do escritório ouvindo minha playlist. O fim de semana ainda estava distante, contudo, o bafo da nostalgia já se fazia sentir no meu cangote. 

_ Na fila da lotérica. 

_Vamo antecipar o happy hour? 

_ Hoje?!

_ Pra agora. Camila e eu vamos sair daqui direto pro Lamparina. O Marcondes vai passar primeiro em casa, dentro duns trinta minutos brota lá. A Deise já foi. 

Normalmente nos reunimos às sextas. Mas, o mais estranho: ninguém – nem a boquirrota da Deise – comentou nada durante o dia. Quando saí, o Marcondes se queixava dos estagiários com a chefe; o Higor no telefone reclamava do inventário que não andava; o Orestes e o novo estagiário voltavam do arquivo; Deise, sentada na mesa da Camila, debochava da voz de não sei quem. 

_ Te pego aí.  

_ Não precisa, não. Daqui lá é um pulo. 

Camila, em tom alterado, disse “ainda bem que...” Higor desligou. Paguei o boleto, recusei de novo o maldito jogo que a atendente tentava me empurrar, saí.  

(...)

O tempo virava para chuva.  

Sorria!/Meu bloco vem, vem/descendo a cidade/vai haver carnaval de verdade... 

Na porta do clube, um garoto de short e cabelos úmidos riu. 

_ Desafino, sim, e daí? 

Me mostrou o dedo. Eu o chamei de viadinho. Atravessei a rua.  

(...)

Deise escolhera uma mesa na calçada. É uma estúpida, mesmo: se chover, teremos que sair correndo como na semana passada... Guardei os fones no bolso da camisa, sorri. Vou aproveitar que os outros não chegaram pra saber, tintim por tintim, o porquê de anteciparem o happy hour. Braço no encosto da cadeira, perna cruzada feito um menino desengonçado, Deise fumava cigarro eletrônico. 

_ Aroma de cereja. 

Soltou uma baforada. Mas a fumaçada da churrasqueira e o futum do bueiro não me permitiram sequer imaginar como seria o tal aroma. Falou do tempo, que o primo perdeu tudo em Petrópolis... já, já entra no que interessa, pensei.   

_ O pessoal não tá satisfeito com a chefona. 

Bingo. Se eu tivesse sorte assim no jogo, teria comprado aquele bilhete. 

_ A panelinha reuniu ontem no Bar da Praça. Com direito a fotinhas nos stories... Precisa ver que ridícula aquela estagiária do ladinho da chefona, arreganhando a carantonha com uma mandioca na boca... E o Orestes? No karaokê, se insinuando pro estagiário bombadinho...     

Deise sempre bem informada. Por isso, dou corda.   

_ Ih, deixei de seguir essa gente faz tempo. 

Ela soltou a gaitada costumeira. Higor e Camila chegaram. Deise, à meia voz: 

_ Repara, discutindo de novo. Um ano morando juntos e eles brigam como velhos rabugentos que se suportam há quarenta anos. 

Camila me cumprimentou formalmente, sentou-se ao lado de Deise. Higor parou com dois sujeitos que riam e falavam alto. 

_ Fez outra grosseria no carro. Tô sufocada...

Não estendeu o assunto: Higor se aproximou, deu tapinhas nas minhas costas, puxou a cadeira pro meu lado: 

_ Aquele careca com a camisa do Vasco é o tal agiota que te falei noutro dia. Bancou a candidatura da prefeita e do atual presidente da câmara. O outro é irmão dele, foi nomeado secretário de cultura e turismo. 

Deise soltou outra baforada: 

_ E desde quando tem turismo nesse cu de mundo? 

_ Nem cultura.  

Camila alfinetou, tirando o celular da bolsa. 

O Lamparina trouxe uma porção farta de torresmo, mandioquinha e linguiça. O vascaíno fez um brinde pra nós; Higor acenou. Como não me envolvo na vida política da cidade, fiquei quieto. 

(...)

Marcondes tinha dificuldades para fazer a baliza. Deise aproveitou a deixa: 

_ Carteira comprada dá nisso. 

Camila pediu chope, Higor a acompanhou. Querendo fazer média, ela sussurrou para Deise. Marcondes, enfim, chegou à mesa.   

(...)

Em casa, fiz o balanço da noite: Deise falou de Deus e o povo; Marcondes reclamou dos estagiários e da chefe; Higor contou em detalhes os esquemas do agiota; Camila não desgrudou os olhos do celular, atenta às mensagens de duplo sentido que eu lhe enviava. Eu ouvia tudo o que os colegas diziam e assentia sorrindo. Afinal, como disse Cartola: a sorrir/eu pretendo levar a vida...  



Texto: Raphael Cerqueira Silva

Foto: acervo do autor

domingo, 17 de abril de 2022

PROCURA-SE: MÁQUINA DO TEMPO

Na crônica de hoje, eu poderia discorrer sobre a Páscoa e seu significado, citar passagens bíblicas, comentar sobre o sermão desta manhã... poderia, contudo, não o farei. Afinal, o leitor conhece tudo isso de cor e salteado e, se ainda não conhece, certamente é porque não se interessa por tais assuntos. Por outro lado, poderia me queixar das barras de chocolate (cada vez menores e mais caras), lamentar que os bombons estão mais açucarados e com menos chocolate; poderia também me lamuriar acerca dos preços da cenoura, do bacalhau, dos ovos de chocolate, do tomate, do azeite que anda caro e com gosto de óleo... mas isso a leitora também sabe pois, assim como eu, vai ao mercado diariamente.  Enfim, motivos não faltam para dar um ar queixoso à minha crônica. Todavia, a Páscoa não merece ser maculada com as reclamações de um cronista/consumidor.

Escrever é preciso, principalmente quando nos propomos o desafio de escrever semanalmente uma crônica. Às vezes, não é fácil encontrar um assunto; mas, tal como os paleontólogos e os arqueólogos que não desistem e cavam mais fundo, vou escarafunchando assuntos.... ainda que sejam os preços dos pescados ou dos chocolates. Quem para de procurar não se renova, disse Ivan Ângelo. Uma vez que hoje é domingo e preciso cumprir minha missão... mãos à obra.

Páscoa. As manhãs de Páscoa trazem sempre a lembrança dos meus sete anos. Oh idade linda, de ingenuidades e fantasias, época em que os sonhos povoam nosso cotidiano e ainda somos capazes de enxergar nas nuvens castelos e unicórnios e balões e dinossauros... Na escola, escolheram algumas crianças para participar do teatrinho sobre a Páscoa; da classe da tia Rosa, se não me decepciona a memória, fui o único escolhido. O figurino, simples: a meninada em traje de banho, um pompom branco colado no traseiro, dentões de plástico, orelhas de coelho feitas à cartolina. Rosto e nariz pintados, as tias nos fizeram sentar no comprido banco de madeira atrás da cantina; impacientes, esperávamos para entrar em cena.

Quando a diretora, finalmente, deu a deixa, caminhamos enfileirados sob o sol e, saltitantes como coelhinhos felizes, nos apresentamos no palco improvisado. Não recordo se decoramos alguma fala, acho que não: éramos muito pequenos, alunos ainda em alfabetização... Na plateia, crianças, pais, professoras, cantineiras, o pessoal da secretaria.

Depois da apresentação, cestinha de vime à mão, voltamos às nossas respectivas salas; como bons coelhinhos, fomos distribuir nossos ovos de chocolate. Os coleguinhas, ansiosos, esperavam nas carteiras; um ou outo bestalhão fez piadinhas igualmente bestas... no fundo, no fundo, morrendo de inveja por não participar da brincadeira.

Naquela tarde festiva e ensolarada, tias e merendeiras também ganharam seu quinhão: um ovinho embrulhado em papel celofane colorido. E, assim, a tarde passou, no ritmo da brisa que relava a bandeira no mastro, no ritmo do trem que executava a última manobra do dia, no ritmo das rodas da carroça que rangia na rua levando leite, queijo ou doce.

A criança que ainda se esconde em algum cômodo do meu ser corre e grita e reina neste domingo de Páscoa; suas peraltices atiçam minha memória, dão trabalho à caneta: a sunga marrom-claro que a mãe encomendou à costureira especialmente para o teatrinho, o gramado retomando as cores no outono, minha sandália, os trabalhinhos colados no mural, os coleguinhas recortando orelhas de coelho nas cartolinas e pintando cartõezinhos de “feliz Páscoa”, as folhas mimeografadas ainda cheirando a álcool, o coqueiro na porta da farmacinha indiferente ao vaivém escolar...

O vento sussurra na fresta da janela: recordar é viver... sei lá; só sei que às vezes dá vontade de regressar à Prof. Ormindo. Mas, enquanto não inventam a máquina do tempo, fico com minhas doces e chocolatíferas lembranças de Páscoa. E encerro esta crônica, que começou resmungona e rapidamente enveredou para o saudosismo, com o ensinamento de Paulo Coelho: se escutamos a criança que temos na alma, nossos olhos voltarão a brilhar.

 

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

sexta-feira, 8 de abril de 2022

RESIGNADO

 _____Tenho cabelos brancos. Muitos cabelos brancos. Faz tempo que os tenho. E a cada dia surgem mais, por todos os lados. Não gosto deles; contudo, não vou pintá-los: acho ridículo cabelo pintado. Quando os homens pintam de preto, parece que carregam um corvo; ficam como Johnny Depp em O Cavaleiro Solitário... Ou seria gralha aquele bicho emplumado que vivia na cabeça dele? Não importa: corvo, gralha ou anu é ridículo do mesmo jeito.

_____Por outro lado, se tingir meus cabelos de acaju, como faz certo doutor que passa todo dia na minha porta, dirão: ó, um urutau está ninhando na cabeça do cronista... porque eu penso isso sempre que vejo o doutor (não digo, porque temo ser processado, mas penso). Nem a sua pasta velha, seu terno amarrotado e sua cara de boi cansado me chamam tanto a atenção quanto seus cabelos. Enfim, preto ou acaju, o cabelo fica igualmente ridículo.

_____Resigno-me, então, aos cabelos brancos. Deve ser melhor tê-los que levar a cabeça pelada como os habitantes de Tatipirun. Afinal, o que tem de careca sonhando com cabelos, ainda que brancos... as perucas e os implantes que o digam. Pensando bem, eu não deveria escrever sobre questões capilares: vai que algum deus zombeteiro lê e arranque-me todos os cabelos, brancos e não-brancos... “Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados (...) encontrou-se em sua cama metamorfoseado” num tristíssimo velhinho, sem um fio sequer de cabelo. Parece que ouço as gargalhadas divinas, insensíveis ao meu dilema quase kafkiano.

_____Suporto, então, meus cabelos brancos. Homessa, o que se há de fazer, indago ao espelho. Sem resposta, observo a brancura capilar. Como o servo ante o senhor, a caça ao caçador, o desejo ao amor curvo-me, sem jeito e resignado.

_____Tenho cabelos brancos. Cabelos brancos que me açoitam toda manhã: o tempo passou, meu caro, agora és o tio da Sukita, em pouco serás como o Painho da novela Renascer, daí para virar o Mestre dos Magos será um pulo, um reles piscar de olhos. Meus cabelos brancos lutam e vencem e esfregam na minha cara o que o corpo diz há certo tempo: já não tens mais vinte e poucos anos. “O que que há, velhinho?” Agora entendo como o Pernalonga era maldoso...

_____Outro dia, em um fim de tarde burocrático, uma senhora que atravessa os trinta me disse: cabelo grisalho em homem é charme. Olhei a rua, os adolescentes saindo da escola, pensei: as pessoas e seus eufemismos, talvez trocando branco por grisalho achem que suavizam nosso outono. Sorvi as últimas gotas do chá, vesti a máscara, resmunguei – de uns tempos para cá dei pra resmungar como o Detetive Rabugento. A burocrata continuou o assunto, falando nos artistas grisalhos... tive ganas de dizer-lhe algo indecoroso, uma palavrinha atrevida quase saltou de minha garganta feito um refluxo, mas me contive, em respeito à sua idade, e aos seus cabelos pintados.

_____Na cabeça do Édson Celulari, do George Clooney, do Hugh Grant, do Fábio Assunção, do Richard Gere ou do Brad Pitt cabelos brancos podem ter lá seu charme. Mas como estou anos luz de ser galã, passo os dias olhando a branquitude que se espraia em minha cabeça. Sem opção e resignado, “toco a vida pra frente/fingindo não sofrer”.



Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor 


sexta-feira, 1 de abril de 2022

As viagens de Umberto

 

          Mais uma vez Umberto colocou os livros na mala, decorou meia dúzia de poemas e frases que, supôs, causariam efeito na plateia, copiou versos de Adélia Prado. Vai ser bom ler algo de uma conterrânea, afinal, a gente tem que puxar a sardinha pro nosso estado. Achou que o trocadilho agradaria ao público, anotou-o. Na manhã seguinte, conferiu a quantidade de exemplares na mala – 48 –, a escova e a pasta de dentes, as roupas emboladas entre eles. Empurrou o pão murcho com Doriana, colocou um livro na jaqueta, saiu.

         Canarinhos e pardais brincavam na rua. Desde menino, Umberto admirava a elegância das aves, sobretudo, a liberdade das aves. Arrastando a mala pela calçada, desejou estar em um desenho de Walt Disney: provavelmente os passarinhos o ajudariam a levar a mala... Versos e esperança pesam pra caramba, pensou.

         O ônibus atrasou, como sempre. Não bastasse isso, ficou quarenta e cinco minutos parado na cidade vizinha: para fazer conexão, explicara o trocador. Essa empresa copia o que há de pior nas companhias aéreas, ouviu de uma passageira. Como nunca voara, Umberto sorriu, sem saber o que dizer. Embarcaram novamente. Poltrona dura, ônibus mais fodido que o outro, resmungou.

A estrada tá tão esburacada quanto as calçadas da cidade, alguém comentou. Umberto tentou focar na leitura, apesar dos solavancos. Lá pelas tantas, largou o livro; arrependeu não ter trazido o Jorge Amado: ele, sim, é excelente companheiro de viagem. Recostou a cabeça: disgreta de livro, quase nenhum enredo, esse portuga escreveu um monte de descrições cansativas e desnecessárias... único ponto positivo: chama o sono.

         Acordou horas depois, com o barulho da cidade. Essa chuva vai esticar pelo resto do dia, afastar o público do evento, previu. Não deu outra: pouquíssimas pessoas compareceram. Umberto declamou seus versos e as frases sem, contudo, causar o efeito esperado; ao ler os poemas de Adélia (na última hora o bom senso imperou, não fez o trocadilho), aplaudiram-no.

Uma escritora lhe pediu que lesse a crônica mais recente dela: sua voz me lembra o Lombardi, vou filmar pra postar no meu canal. Umberto riu, recordando a infância: nos domingos frios e chuvosos passava o dia inteiro assistindo o Sílvio Santos com a mãe...

Após o sarau, um homem corpulento, de chapéu e botas de couro, rosto curtido de sol e fartos bigodes se aproximou, pegou o livro, perguntou se podia pagar com PIX.

         _ Me chamo Arizona. Arizona Stone.

Umberto, lembrando os filmes de bang bang que via com o pai nas tardes de sábado, pensou em escrever: para o gatilho mais rápido do oeste, estes versos, árduos como o sol e o solo texanos, com um empoeirado abraço do xerife... Arizona, mãos na cintura, esperava a dedicatória com jeito nada amistoso. Umberto garatujou: um abraço do autor, e datou. O homem recebeu o livro, sacou o celular para mostrar o comprovante de transferência, atravessou o salão. Sorrindo, Umberto recordou o que pretendera escrever: até hoje não saí da quinta série, falou para os livros espalhados na mesa.

A romancista que lançava seu quinquagésimo quarto livro o encarou. Maldoso como só um moleque da quinta série sabe ser, Umberto comentou:

_ Pelo visto, não sou o único que vende pouco...

Furiosa, a mulher foi conversar com os organizadores. Ele riu. A tarde se arrastava, a enxurrada levava folhas e sacolas. À janela, Umberto contabilizava: sonhos e livros nos estandes; nos bolsos, caraminguás. Como no ano passado, suspirou, embaçando o vidro.

No final do dia, muitos escritores trocaram livros e afagos.

_ Parecem meninos trocando figurinhas; falta bater bafinho.

 Os contistas olharam-no com espanto, os poetas com desdém, os romancistas sorriram condescendentes. Os cronistas convidaram-no para um chopinho. Umberto recusou: encerraria o dia no hotel, rascunhando bobagens e assistindo à novela.

A chuva varou a noite, deixando-o melancólico. Ele sabia que a acusação fora injusta: ainda que fizesse sol, o público não compareceria; “isso aqui é um pouquinho de Brasil”, concluiu, encarando o livro. Portuga duma figa, você não volta comigo pra casa, não. Abriu a gaveta, jogou-o sobre a bíblia. O próximo hóspede talvez goste dessa porcaria. Deitou, para cair nos braços de Morfeu, como o pai lhe dizia todas as noites.   

          

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

quarta-feira, 23 de março de 2022

Para o leitor que me escreveu

A chuva se aproxima em sua fúria habitual; o vento a denuncia antes que toque os prédios e o asfalto. Trovões imperam sobre os caminhões e as motos que rasgam a avenida. São Pedro está arrastando os móveis para faxinar o céu, dizia a mãe enquanto a serra branquejava, a tarde silenciava-se em trovoadas e eu, contrariado, recolhia os brinquedos do quintal.

      O vento “ventando pelas cortinas de tule” traz cheiro de terra molhada... lembro o dia que quase incendiei a casa: juntei um monte de papel de presente, risquei o fósforo... não fosse pela tia o fogo subiria pela cortina, se alastraria pelo forro do teto, provavelmente consumiria os brinquedos, os livros de colorir, as revistinhas, a casa toda... por que lembrei isso agora, indago ao vento; afinal, não chovia naquele dia...

      Não fosse a pandemia, neste exato momento crianças uniformizadas estariam correndo nas ruas. Certas coisas não mudam: nos meus tempos de escola, bastava relampejar ou o vento ventar mais forte para o sinal tocar; éramos liberados antes do toró cair. Como gnus desembestados nos empurrávamos no portão, descíamos a ladeira, cortávamos as ruas como coriscos. Todavia, para os meninos que moravam na roça e lá pras bandas da Bela Vista, era inútil: chegavam em casa como pintos molhados. Pelo menos, era o que nos contavam, cheios de prosa, no recreio do dia seguinte.

     Uma garça retardatária voa não sei para onde. O vento silva; na sala, as cortinas dançam. Respondo à mensagem de um leitor: obrigado e o emoji ruborizado, acho, são suficientes. As pessoas hoje não se ruborizam mais, ouvi Marilia Gabriela dizer há muito tempo na televisão. Se naquele tempo já não coravam, imagine agora. De qualquer forma, antes que o leitor me tome por grosseiro ou pernóstico, envio-lhe a mensagem.

     Continuo com o celular na mão, gasto o tempo e as vistas no Instagram. Quando menino, me mandavam desligar o televisor, não ligar o chuveiro, guardar facas e tesouras assim que começava a chover... Outro ribombar celeste; penso nas palavras do leitor: seus textos são melancólicos e ao mesmo tempo têm muita sensibilidade, fico com vontade de penetrar seu íntimo e conhecê-lo melhor. Fosse uma leitora a me escrever, eu tomaria tais palavras como uma cantada; mas, como se trata de um leitor, acho que é mero deboche. Por outro lado, e apesar dos trovões, ouço a voz politicamente correta a sussurrar-me: os tempos são outros, ao cronista não é permitido restringir o verbo e, muito menos, o gênero... talvez a mensagem contenha mesmo uma cantada vinda de um leitor, digamos, não tão explícito. Ou ele foi explícito e eu não percebi: sou tão lerdo para essas questões.

Súbito, a caneta salta à mão: garatujo numa folha qualquer. Como Emília, abro minha torneirinha, deixo as asneiras jorrarem. Incontroláveis, as palavras esparram-se, como a chuva que começou a tamborilar no telhado.

P.S: ao leitor que me enviou a cantada – ou o deboche, ainda não entendi bem – dedico esta crônica; que saiu assim, molhada e apressada, por culpa da faxina de São Pedro. Quanto a “penetrar-me o íntimo”... deixemos que as enxurradas levem as palavras – e as intenções, se as há -  para os bueiros e as águas turvas do Xopotó. Segue outro emoji ruborizado.

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor

sábado, 19 de março de 2022

Voando com os flamenguistas

Vocês se lembram daqueles madrugadores que tingiram de rubro-negro uma de minhas crônicas mais recentes? Pois, então, não é que embarcamos no mesmo voo! Quando os vi zanzando pelo Santos Dumont, não pensei que tinham o mesmo destino que eu. São as coincidências – ou ironias – da vida... Vou pelo corredor à procura de minha poltrona e os vejo, sentadinhos como colegiais uniformizados. Ali estão as loirinhas que furaram a fila do check inn, o casal das malas, um rapaz entre duas moças “num fogo só” como dizia vovó... enfim, flamenguistas por todos os lados.

À minha frente, um deles inventou de mexer na mala. A fila cresce como os índices do desemprego e ele lá, indiferente, esticando o braço, bufando com a máscara sob o nariz, xingando o zíper. E a fila vai crescendo, como os preços dos alimentos... o sujeito se esforça, a camisa 11 sobe revelando a protuberância abdominal. O zíper, enfim, abriu; ele tateia procurando algo no meio das roupas. Eu o observo: é parecido com o Dennis Nedry, de Jurassic Park... suspira; parece ter encontrado o que tanto procurava. Eu ainda o observo, acho que o povo na fila também. O sujeito não pegou nada; agora confere se a mala está bem fechada, se joga na poltrona, sorri pra mim feito um bobo contente. Só espero que nosso Dennis Nedry não esteja contrabandeando nenhum embrião de dinossauro... Sigo à procura de minha poltrona; atrás, vêm os demais passageiros, a maioria flamenguistas. Pensei que em um voo para Porto Alegre eu só encontraria gremistas e colorados.

Mensagens e advertências de praxe, decolamos.

Ninguém ao meu lado, atrás apenas um garoto com o rosto cheio de espinha e um headphone enorme; à frente, um homem de barbicha ruiva cochila. Condições ideais de voo e, sobretudo, ideais para colocar a leitura em dia. Todavia, mal decolamos, os flamenguistas se juntam no meio do corredor, pertinho de mim... a felicidade deste pobre cronista-leitor durou pouquíssimo. Conversam alto e animadamente, como se estivessem num bar ou no Maracanã. O barrigudo é o mais empolgado; fala, gesticula, ri uma risada que mais parece um grunhido de dilofossauro. Um menino de vozinha chata grita para ser ouvido, fala que o Gabigol isso, o Gabigol aquilo... ah, isso me dá coisas, como dizia o Dr. Chapatin. O rapaz e as moças baixaram o facho e, ajoelhados nas poltronas, dão palpites na arbitragem... Agora as loirinhas se juntam ao grupo. Que coisa mais linda, mais cheia de graça: no meio do avião, a delegação rubro-negra se encontra pra trocar figurinhas. E eu achando que em um voo para o sul encontraria o Veríssimo, a Carol Bensimon, o Assis Brasil, o Daniel Galera...

Não consigo me concentrar na leitura. Troco o Érico pelo Tex. Pela segunda vez, a aeromoça adverte: coloquem as máscaras no nariz. No nariz, frisa. Até hoje os infelizes não sabem disso, indago ao índio do terceiro quadrinho que observa a imensidão texana. Eles não sabem usar a máscara, assim como eu nada sei sobre quem jogou ontem e onde o Flamengo jogará – se jogará - nos próximos dias. “Bem aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.” Carlos Drummond estava certíssimo.

Viro a página; começou a troca de chumbo. Danação, acertaram o ombro do Tex; felizmente foi de raspão. Os flamenguistas falam mais alto, parece que quanto mais subimos, mais elevam o tom. Gargalham como se estivessem no quintal preparando o churrasco enquanto o Galvão anuncia “bem amigos da Rede Globo, em instantes começa mais um clássico...” Impossível ler: parecem apaches em guerra. E, no entanto, o barbicha ruiva ronca na poltrona. Oh, que falta me faz um Dramin!

O sol castiga meu braço; mas se eu fechar a janela, não terei o que ver e vou me irritar ainda mais com o falatório dessa gente. Só falta tirarem das mochilas pandeiros, tamborins, cuícas e improvisarem uma roda de samba... Pensando bem, ver as loirinhas se requebrando não seria nada mal... Retorna a aeromoça. Pede à turba “para usar a máscara adequadamente”, se vai. Do barulho, nada falou. Fico pensando: quem tem cabeça para falar “adequadamente” num voo desses. Os caras gargalham; uma das loirinhas, quem diria, é piadista. O grisalho encostado na poltrona ao meu lado se coça como se tivesse um ninho de carrapatos dentro da bermuda.

Volto a olhar as nuvenzinhas. “Horizonte não enche a barriga de ninguém: mas enche os olhos” como escreveu Rubem Braga. Feliz mesmo é o carinha atrás de mim: ouve sei lá que tipo de música, marcando o compasso com a cabeça e o All Star. Pelo menos, não está ouvindo essas maritacas irritantes... Será que aposentaram o urubu e a maritaca virou a nova mascote do Flamengo e eu não estou sabendo? Preocupado com os fora-da-lei, Tex cavalga sem me responder.




Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor

 

sábado, 5 de março de 2022

Madrugadores



Diz o ditado: Deus ajuda quem cedo madruga. Meu professor de História discordava: os que mais cedo madrugam são os que mais padecem. Não sei com quem está a razão; mas, as quatro e pouca da manhã, as filas já estavam “enormes de grande” no Santos Dumont. Gente com mala, com cara de sono, tensa, emburrada, roendo biscoito, esperançosa, falando pelos cotovelos ou num mutismo agradabilíssimo... pelo visto, não fui o único a madrugar, concluí. Apesar do movimento, os sanitários ainda estavam fechados. O jeito é segurar, pensei. 

Na fila, como de costume, as pessoas reclamavam: do tempo, do preço das passagens, do check in, da taxa para despachar bagagem, do governo (mais pandêmico que os tempos atuais, disse uma dona; mortífero como esse vírus que nem falo o nome, arrematou a senhora ao lado)... Enfim, nada novo: as pessoas estão sempre reclamando. Novidade, ao menos para mim, foi a quantidade de flamenguistas zanzando pelo aeroporto. Parecia que a delegação em peso do Flamengo madrugara. Como eu não tinha o que fazer, comecei a contar: um pouco à frente, quatro homens e um garoto; mais atrás, dois rapazes e um senhor; lá na ponta da fila, duas mulheres e um rapaz; no guichê, um casal despachava a mala; perto da escada, três homens e um menino; no piso superior, mais um punhado se movimentava, não deu nem para contar. Todos trajavam rubro-negro da cabeça aos pés. 

A senhora-que-não-fala-o-nome-do-vírus quis saber: o Flamengo ganhou. Coitada, perguntou para a pessoa errada: sobre futebol, só sei que são vinte e dois homens correndo atrás de uma bola; e isso, pra mim, é suficiente. Para não ser indelicado, contudo, respondi: não sei, quando saí de casa ontem à noite deixei o pai assistindo ao jogo; se o Flamengo jogava, não sei. O assunto morreu. Eu queria tanto que o assunto continuasse, ainda que fosse para falar de futebol; pelo menos o tempo passaria mais rápido, eu não pensaria no banheiro fechado, não ficaria ouvindo a reclamação dos chatos, não olharia os flamenguistas (a animação deles, àquela hora da madrugada, me irritava).  

A fila seguia a passos sonolentos. Quanta gente sem máscara, disse a baixinha que protegia o queixo com uma máscara preta. Tantos avisos espalhados por aí e o povo nem liga, né, comentou uma moça. Um homem cujo bigode me lembrou o Leôncio do Pica-Pau sentenciou: a pandemia acabou faz tempo. A baixinha assentiu, a moça se calou, olhei duas flamenguistas loirinhas que furavam a fila. 

       Uma senhora, voz rouca, cabelos pintados “negros como as asas da graúna” disse: tenho medo de avião, muito medo. Lembrei da canção do Belchior, desejei profundamente que a dona não segurasse na minha mão durante o voo... Como ninguém comentou nada, falei: a primeira vez é assim mesmo, dá medo. Ela me encarou com as lentes embaçadas pela máscara, disse em tom professoral: já viajei quinze vezes de avião, até pros Estados Unidos já fui, e não perco o medo. Olhei para as pessoas que subiam a escada rolante, pensei: eu devia ter ficado calado. Sorri; mas sorriso sob a máscara serve para alguma coisa, tive vontade de indagar à fila que se arrastava. 


Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor


*Publicado originalmente na revista Vicejar

A Seleção joga hoje

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