domingo, 31 de janeiro de 2021

Campo de batalha

 

Um burro pasta ao lado do fórum. Resignado, suporta o sol de quase 13 horas. Uma égua aproxima-se claudicante: tem a pata dianteira ferida. Indiferente, o burro pasta. Da janela, vejo-os enquanto espero o bebedouro encher minha garrafa. O burro para de pastar, ergue lentamente o pescoço. Parece olhar para a janela onde estou. Ajeito a máscara: como se o burro fosse me censurar por trazê-la no queixo. 

O ano vai terminando. Lento e claudicante, como a égua. Faltam dois dias para o recesso. O burro torna a pastar, alheio aos derradeiros dias do calendário, aos prazos que serão suspensos, aos plantonistas que se organizam em escalas para continuar fazendo justiça. A égua olha para os lados, parece procurar algo. Sombra, talvez. É o que penso, sentindo o suor escorrer pelas costas. Mas não há sombra. Aliás, não há nada no terreno além da cerca e dos mamoneiros.

Em criança eu colhia mamonas para brincar de guerrinha. Naquele tempo, imaginava o front como lugar de aventuras, de heroísmo... travava batalhas sem-fim nas tardes de janeiro até anunciarem o ângelus na capela. Trepado na goiabeira (minha fortaleza impenetrável) lançava granadas de mamona em inimigos invisíveis que se escondiam em trincheiras ou saltavam de helicópteros. Às vezes, eu saía em campo aberto na Monark (meu tanque) para alvejar acampamentos adversários. Munição nunca faltava: colhia depois das aulas nos terrenos baldios.

Sob o sol de quase 13 horas, o burro pasta. Ignora que anseio o fim do ano e que, perdido em recordações, não vi a garrafa encher, a água transbordar e molhar todo o chão do corredor.

Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: Visconde do Rio Branco/MG (acervo do autor)

 

 


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Travessuras

 

Retorno feliz de Tatipirun.

Gancho e seus piratas, na taberna,

embriagados de ira e rum

fazem tremenda baderna.

 

Numa região de mata fechada

saltitava serelepe na estrada, juro que vi,

enquanto cantava forte a passarada

de pito e carapuça, juro, era um saci.

 

Tic tac tic tac vai, vai, o coelho

veloz como o cavalo de Atreyu.

Se não fosse este machucado no joelho

eu disputaria com ele quem chegava primeiro.

 

Lá pras bandas do Jacaré

vi o travesso Fernando.

Mas será possível, meu São José,

se a pouco ele estava no rio nadando!?

 

O fogaréu lambe o canavial.

Tanta fumaça me entope o nariz.

Na sala assistem ao Jornal Nacional

no quarto, desenhos com lápis e giz.

  

Falam-me coisas que não entendo

prefiro seguir, pé no chão e peito aberto.

Na cama, gozo o tempo escrevendo

ouvindo no toca-disco canções do Roberto.



Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: CCBM, Juiz de Fora, outubro de 2019 (acervo do autor)  

domingo, 24 de janeiro de 2021

Vaidades


Te vi nos corredores do Fórum

lembrei da máxima de Salomão:

vaidade das vaidades

 

quando aprenderás a lição?

 

Era dia de pouco movimento

segunda de ressaca, apenas um leilão.

Se tudo são vaidades

 

quando abrirás teu coração?




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: acervo do autor 


domingo, 17 de janeiro de 2021

A PRAÇA É DO POVO?


Tornaram a fechar a praça. À noite, enquanto eu compunha um poema, vi pela janela as cercas metálicas instaladas no entorno da Praça 28. Pela manhã, as boas e as más línguas comentavam a novidade no Facebook (essa acrópole do mundo contemporâneo). Provavelmente a nova administração também a divulgou em suas redes, sobretudo nos stories (essa mania nacional). Há tempos somos governados, do Planalto aos Paços Municipais, através de posts e twittadas.

Vieram-me à lembrança os versos de Castro Alves: A praça é do povo/Como o céu é do condor. Em tempos de peste, contudo, a praça deixa de ser do povo conforme os interesses do vírus e de nossos doutos gestores. Verdade verdadeira: nada é do povo porque, se se olhar direitinho, o povo sequer existe. Povo é abstração. Ficção político-jurídica. Povo é palavra qualquer a rolar na boca de mal intencionados, políticos e hipócritas de palanque. Tal palavra ganha corpo somente para satisfazer interesses obscuros de grupos que se revezam no poder. Por isso, nos discursos dessa gente o povo é sempre os outros; ela nunca se inclui nesse rol porque precisa estar acima do povo para, como César, ver e conquistar. Foi assim também na França de Napoleão, no Reich de Hitler, na Cuba de Fidel, nas republiquetas de banana das Américas.

Mas, voltemos à Praça 28. Voltemos em pensamento, claro. Porque a praça, esse “antro onde a liberdade/cria águias em seu calor”, está cercada e protegida como a Mona Lisa no Louvre. Distante e sedutora, como o paraíso do Sr. Roarke do seriado A Ilha da Fantasia. Inacessível, como a ambrosia do Olimpo. A praça, de novo, não é mais do povo. “Desgraçada a populaça/Só tem a rua seu”. Donde estiver, me diga, Sr. Castro Alves: quando a praça foi do povo?




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

foto: Praça 28 de Setembro, Visconde do Rio Branco (acervo do autor) 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Ondas

 ondas iam, ondas vinham...


na manhã quente nuvens carregadas

anunciaram chuva no horizonte


ondas iam, ondas vinham...


traziam conchas e, insensíveis,

desmancharam o castelo na areia


ondas iam, ondas vinham...


fortes, molhavam meus tênis

às vezes, certas gotinhas travessas 

lambiam os pelos de minhas pernas,

excitando-me recordações não tão antigas


ondas iam, ondas vinham...


corria na areia, pisoteando conchas,

vez ou outra desviava de garrafas e latas

abandonadas no último luau


ondas iam, ondas vinham...


certamente viram na noite anterior

jovens afoitos para curtir a vida

entregues aos enlevos do amor 


ondas iam, ondas vinham...


a memória procurou imagens e sabores

daquela alvorada quando, à beira-mar,

esperamos o sol, sem pressa, 

banhados em suor


ondas iam, ondas vinham...


atletas iniciantes, admiravamos o mar... 

pensamentos à deriva eram levados 

pelo marulho constante das ondas 


indo, vindo, indo, vindo, indo...




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: Morro de São Paulo/BA (acervo do autor) 







 


domingo, 10 de janeiro de 2021

OUTROS HORIZONTES

 

 

À janela, o poeta sonha

outros horizontes

escreve sobre o tempo

numa folha avulsa.

O tempo, à janela,

aconselha:

vá, menino, a vida é agora.




texto: Raphael Cerqueira Silva 

foto: Forte de São Diogo, Salvador, BA (acervo do autor) 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

MEMÓRIAS E UM TANTÃO DE SAUDADE

estojo de madeira merendeira

espadinha de plástico para a vitória alcançar

esqueceram de mim na sessão da tarde

pipoca guaraná muito doce pra viver

 

no resta um ficaram três dessa vez

Pererê Luluzinha Cebolinha esperam

no caderno encapado tem para casa a fazer

tabuada conta reconta no ábaco colorido

 

na vitrola cantam quadrinhas e um refrão

roda pião empina papagaio pega vareta

demora julho demoram férias frio diversão

invejo o Pimentinha passeando em Nova York

 

fim de semana fitas para alugar

após a missa pique pega na praça da estação

Abacatinho pastel de queijo

quermesse fogueira correio do amor

 

numa folha qualquer não desenhei com Faber-Castell

à mesa cotocos de lápis Labra giz de cera aquarela

broa canudinho bolo de coco ralado

no viveiro periquitos multicores desaprendem a voar

 

mirante trilhos dormentes o trem a tardar

mais um álbum preenchido bola peteca vou ganhar

quebra-cabeças a irmã misturou

no tapete Comandos a batalhar

 

tique-taque tique-taque

heróis japoneses chegam ao canal 9

hoje à noite será o Cid Moreira a anunciar

quem matou Odete Roitman?

 

caldo Maggi na cozinha a esfriar

a coca perdeu o gás o disco arranhou

o tubo de Kolynos sem tampa na pia

na rua ronca o velho motor Chevrolet

 

da serra desceu um friozinho

veio vindo vindo passou pela praça

cruzou o Xopotó parou na varanda da casa

que tinha na fronte inscrito “Lar Santa Ifigênia”

 

faminto feito o lobo bateu à porta o tempo

a infância enroscou amarrou no saco preto

levou-a para o longe longe longínquo...

ficaram memórias e um tantão de saudade.

 



 Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: São Geraldo - MG (acervo do autor) 

domingo, 3 de janeiro de 2021

Meus pensamentos


Meus pensamentos perderam

a ingenuidade.

Andejam em trilhas hedônicas

despindo-se em sarcasmos.

Meus pensamentos estão longe

de ser exemplares:

zombam das criaturas que apoquentam meus dias.

Nessas horas sou vil, sou impiedoso.

Quando envolto em tais pensamentos,

às vezes, me desconheço.

Meus pensamentos não cabem

em um poema:

impróprios à palavra escrita,

aos olhos ordinários.

Meus pensamentos...

ah, melhor deixá-los no éter

na simples condição de pensamentos.




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: desenho feito pelo autor 

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

MENSAGEM DE ANO NOVO

 Ainda que você não compartilhe

toda a histeria das pessoas

pela chegada do novo ano; 


ainda que você não tenha

motivos para estar alegre

pela chegada do novo ano; 


ainda que neste momento 

existam mais motivos

para chorar que sorrir; 


ainda que você esteja sozinho,

longe de todos por algum motivo,

ou que não tenha mais ninguém; 


ainda que você tenha perdido seu amor,

mesmo tendo se entregado

inteiramente, nesse ano que se finda;


ainda que você não acredite 

ser capaz de amar novamente,

pois se desencantou com a humanidade; 


ainda que você não vá festejar,

comer e beber muito na virada do ano

porque a saúde lhe impede


(ou lhe faltem recursos financeiros); 


ainda que você vá passar 

o réveillon vendo, pela TV, 

a transmissão do foguetório; 


pelo menos um motivo 

você tem para comemorar essa data: 

ainda há vida em você. 


E enquanto ela existir, comemore

do jeito que for, mas comemore 

porque a vida...


a vida vale, sem dúvidas, ser festejada.




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

foto: acervo do autor 

domingo, 27 de dezembro de 2020

O SOL BRILHA A PROXIMIDADE DO VERÃO

 

       O sol brilha a proximidade do verão. Sexta-feira, 19 de dezembro: para mim, o derradeiro dia útil do ano. A partir de segunda estarei em recesso e, felizmente, não trabalharei no plantão. O sol brilha a proximidade do verão. Uma crônica do Otto Lara para começar o dia. Agradeço à internet que me permite ler, em 2020, este texto escrito há quase trinta anos.  Em 1991, o cronista se preocupava com os “graffiti” e os grafiteiros “que picharam a parede do meu escritório”. Ah, Otto, quem me dera ter hoje problemas dessa ordem... Mas em meio à pandemia, o que me inquieta é a COVID-19, esse mal que abalroou conceitos, modos de viver, trouxe demasiados desassossegos. E mortes. Os telejornais noticiam: passam de 184.000 as vidas ceifadas. Só no Brasil. Os dados mundiais eu nem quis ouvir. Perdemos a batalha para aquele que já é considerado o maior inimigo do século.  

        O sol continua a bailar no céu de parcas nuvens. Alguém comenta na GloboNews: estão vacinando grupos de pessoas na Europa. O sol brilha a proximidade do verão. Cá dentro, a esperança ressurge. Meio apática, reconheço. Ainda teme sair de casa, dobrar a esquina, descer a ladeira. Todavia, volta e meia aparece na janelinha do sótão. O sol brilha a proximidade do verão. E a esperança, em libras, parece anunciar: a vacina chegará.

    Há palavras demais nos jornais, nas redes sociais. Angustiados, os brasileiros percorremos os dias quentes de dezembro.  O sol brilha a proximidade do verão. E espero que o dia passe rápido. Que o recesso seja tranquilo. Que o Natal seja frugal. Que as pessoas não lotem meu WhatsApp com mensagens de boas festas e felicidades. Que o bom senso modere suas comemorações no réveillon (de preferência, que não comemorem). Que os grafiteiros continuem a pichar mensagens de gentileza e espalhem cor nos muros e nas paredes dos cronistas.

    E viva o sol que, apesar de tudo, ainda brilha a proximidade do verão.




Texto: Raphael Cerqueira Silva 

foto: Cabo Frio/RJ (acervo do autor) 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O VERÃO COMEÇOU CHUVOSO


        A serra branquejava no meio da tarde. Sem entender o que se passava, o menino ajeitou os óculos e perguntou: cadê a serra. Quando criança também fiz tal pergunta. Me disseram: toda vez que chove lá na serra, ela fica branquinha e a chuva chega aqui pouco depois. Repeti essa explicação ao menino. Mas acho que não o convenci, a julgar pela sua cara. Incrédulo – ou me achando um bobalhão – foi jogar no celular.

          A chuva chegou precedida da brisa úmida. Lembrei os tempos de escola: quando as nuvens se avolumavam e o vento balançava as palmeiras do pátio, o sino batia. Todo mundo era, então, liberado. Saíamos correndo, feito mulas desembestadas, pelas ruas, atravessando os trilhos da Rede, a pracinha, a ponte, torcendo para chegar a casa antes do toró desabar.

         Toró. Há quanto tempo não ouço essa palavra. “Vai cair o maior toró”, assim dizia a vizinha do 92 que vivia sentada à porta. Quando os primeiros pingos caíam na rua de terra batida, ela corria para recolher as roupas do varal. Na calçada a cadeira, esquecida, suportava o toró.

           Quando a chuva chegou, eu estava sentado na varanda. Rápida e furiosa, molhou minhas pernas, respingou as folhas do livro que eu lia. Tive que correr para recolher as roupas no varal. Ironia do destino, hoje sou eu quem se preocupa com as roupas no varal. Também me apressei para fechar as janelas. Finda a missão doméstica, fui para o quarto concluir a leitura de “A águia de quinze dólares”. Pela fresta da janela, vi as nuvens carregadas: hoje não vou caminhar na Dr. Lelé. Pensei também na tatuagem que o personagem do conto da Sylvia Plath mandou fazer no braço. Nunca tive vontade de me tatuar. A vida deixa marcas demais, não preciso tatuar águias, nomes e corações ingênuos.

          O tempo fechou. Pela fresta da janela, eu filosofava. Filosofia de alcova, literalmente.  A chuva forte atrapalhou os feirantes que armaram barracas na praça. Coitados, na quarta passada também choveu... se criaram expectativas de impulsionar as vendas para a ceia do Natal, se frustraram.

           Chove muito forte. Sinto fome. Na cozinha, me arrependo de não ter comprado um chocotone maior. O que comprei ontem à tarde já se transmutou em calorias e saudade. O estômago ronca querendo aparecer para os trovões. Competição vã, tento lhe explicar. Mas meu estômago não se alimenta de palavras tolas. Uma banana, então, para enganá-lo.  Pela fresta da janela, observo a enxurrada cobrindo as ruas, a praça, passando sob as barracas. O verão começou chuvoso esse ano.

 



Texto: Raphael Cerqueira Silva 

Foto: Bento Gonçalves (acervo do autor) 

chegará o amor como no ipê, a flor: súbito no viés da noite quando menos se espera Imagem: criada pelo Chatgpt  Poema: Raphael Cerqueira S...