A solidão de Drummond
à beira mar,
à beira do caos
sem rimas e sonhos
é a solidão da vida
arrastada na lama,
incinerada à sombra da noite
no silêncio dos anônimos.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
Raphael Cerqueira Silva publicou Confissões (livro de contos). No blog, posta semanalmente crônicas e poemas.
A solidão de Drummond
à beira mar,
à beira do caos
sem rimas e sonhos
é a solidão da vida
arrastada na lama,
incinerada à sombra da noite
no silêncio dos anônimos.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
Desci para o check out. Argentinos emburrados falavam e gesticulavam; debruçado no balcão, um deles debatia com o recepcionista. Olhei o relógio na parede: tempo de sobra; sentei, puxei a Veja velha largada ao lado do jarro. Os hermanos falavam em uníssono; eu pouco entendia; aliás, a julgar pelo olhar embasbacado do atendente, acho que ele tampouco. O infeliz não conseguia dizer um mísero verbo noutro idioma, apontava a tela do computador tentando se fazer entender por gestos... diacho de hotel mais fuleiro, pensei, nem pra contratar um funcionário que enrole no portunhol. Lembrei uma amiga que, noutro dia, dissera: a cada dia fica mais difícil encontrar mão de obra capacitada neste país...
Virei as páginas amarelas: detesto ler entrevistas. Súbito, o sujeito com pinta de líder acenou, o grupo fez silêncio. Do restaurante, vinham os versos: Daniel is travelling tonight on a plane... Pelo que entendi, o grupo pagara as reservas a uma agência, que não repassou os valores para o hotel. Os argentinos, ainda emburrados, recolheram as malas e mochilas, saíram enfileirados como escoteiros; pararam ao lado da banca de jornal - mais uma que não sobreviveu aos tempos pandêmicos, a julgar pelo #FORABOLSONARO pichado de vermelho em sua lateral e os anúncios de cartomantes, manicures, motoboys, colados de cima a baixo.
O rapaz sentado à minha frente levantou, aproximou-se do balcão. Cabelo à escovinha, mochila pendurada no ombro esquerdo, camiseta com o rosto de Lennon, bermuda e havaianas. Coçou o rosto mal barbeado, esperou atendimento. O funcionário desligou o telefone: pois não... Nunca entendi direito esta expressão; ao me dirigir aos jurisdicionados lá na secretaria, quase sempre a uso, e quase sempre me sinto meio ridículo... O atendente gritou: trezentos e cinquenta. Será que o rapaz é surdo, pensei; interrompi a resenha de A noite da espera... No, no entiendo, ele disse num tom tímido, como se se desculpasse. Com a mão no mouse, o atendente gritou: três-cinco-zero. No, no entiendo.
Outro hermano, perguntei ao jarro, embora o sotaque e o rapaz fossem bem diferentes dos argentinos que, ainda na calçada, falavam e gesticulavam. Esbelto, vinte e pouquinhos anos, seu rosto me lembrou o ator de uma série que eu assistira na Netflix, Alejandro sei-lá-das-quantas. Os argentinos, ao contrário, eram homens de meia idade, barrigudos, a maioria com bonés horrendos, mais pareciam apostadores de rinha que turistas; um deles me fez lembrar o Maradona em seus piores momentos... O atendente, num rompante de sagacidade, sacou o celular do bolso, digitou os algarismos; o rapaz encarou a tela, deve ter calculado mentalmente o câmbio, fez um joinha... Deus salve o Facebook, que globalizou o sinal de joinha. Voltei à resenha.
Duas horas, o atendente gritou, mostrando os dedos. No, no entiendo. Duas horas, agora é meio dia e meia, check in só duas horas... Uai, se o cara não entendeu “duas horas”, como entenderá o resto da frase, indaguei à foto do Hatoum no canto da página. Do restaurante, vinham os acordes finais de Il Mondo; dois rapazes, que há tempos trocavam afagos, se beijaram com a volúpia que só a juventude – e o fato de se estar noutras terras - permite.
O gringo voltou à poltrona, larguei a revista, fui ao balcão. Pois não. Fecha pra mim. O atendente clicou no mouse: teve consumo, senhor. Sim, uma água. Diária e água, 358. No crédito, estendi o cartão. Ok, senhor. Ainda bem que não gritou. No quadro pintado a óleo, um gato abstrato demais pro meu gosto mirava o Corcovado. O comprovante custou a sair. Com o pé, o rapaz acompanhava a música de Eros Ramazzotti. Novinho e de bom gosto, pensei, recolhendo minha mala.
Caminhei para o ponto de táxi. O vento outonal brincava nas árvores. Não vi mais os argentinos. Cose Della Vita, fiz coro à música que vinha do restaurante.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
"Hoje vai ser uma festa/bolo e guaraná, muito doce pra você..” Festejar o quê, indaga o leitor que, eu sei, não é dado a festas e acha que “tudo vai mal/ tudo, tudo, tudo, tudo” e não há motivos para festejos... Apesar de tudo, pessimista leitor, tenho um motivo para comemorar: meu menino faz cinco aninhos. Ah, a leitora não sabia que tenho um filho? Sim, e se chama Processinho; quer dizer, oficialmente seu nome é 00047758.2017.7.36.0912... Não se horrorize, suscetível leitora, não fomos eu e a mãe dele que o batizamos assim: foi o Sistema, esse todo poderoso Ser que nos governa a todos, submetendo-nos à sua força tirânica e nos subtraindo, dia a dia, a humanidade... Mas isso é papo pra outro momento. Hoje é dia de festa!
Meu menino é peralta, nunca fica quieto no seu cantinho: salta de mesa em mesa, passeia do gabinete pra secretaria, da secretaria – imagine só – já foi até à capital conhecer os luxuosos gabinetes da Cidade Administrativa... Certa vez, isso antes de se enveredar pelas alterosas, Processinho visitou a ilustre sala da Defensoria Pública... ih, isso causou um mal estar tremendo: a mãe dele, advogada cricri lá de Beagá, não gostou, me cobrou explicações; com as mãos na cintura, os olhos estalando de ira: que que meu filho foi fazer no gabinete da defensora, hein? Fui colocado contra a parede; gaguejei, como de costume, tentei explicar, me embananei, não convenci: a boa de oratória e argumentação da família sempre foi ela... Aí, apelei: mas quando o Processinho ficou parado na vara de precatórias aí de Beagá, certamente no escaninho de algum gostosão bombadinho, você não deu um pio, né... Brigamos, trocamos ofensas pelo zap-zap. Tem sido assim desde que nosso bebê saiu da sala da distribuição, essa chocadeira de burocracias: ele não anda, eu reclamava; ela, vai lá e dá um jeitinho; eu, mas como se você sabe que meu santo não bate com o daquela gente; ela, se vira, dá seus pulos... Não pulei, ela também pouco fez, chegou “a hora de apagar a velinha/vamos cantar aquela musiquinha...”
Desabafei com um amigo sobre a saga que é criar um filho nestes tempos burocráticos. Meu amigo é advogado militante há mais de vinte anos, sabe bem como é a dolce e bella vita forense. Estufou o peito, ajeitou a gravata, citou Rui Barbosa, algo sobre justiça tardia é arremedo de justiça... Meu amigo, um erudito, lê os filósofos e os clássicos da literatura e do direito, conhece citações até em latim. Na época da faculdade, todos o procurávamos para fazer trabalhos e artigos juntos: afinal, ele era o único aluno em todo o campus que lia (e compreendia) Pontes de Miranda, Caio Mário, Ihering, Beccaria, Canotilho... pena que puxaram seu tapete naquele concurso de 199*: teria sido um brilhante magistrado, melhor que muitos que estão por aí usando a toga para esconder hipocrisias e podridão, ou arrotando sapiências só porque visitaram a Índia, o Nepal, o Butão...
Na porta da Universal, meu amigo se empolgou; além da Águia de Haia, citou Cícero e Marco Aurélio, Platão e Aquino, Nietzsche e Kierkegaard. O pastor se aproximou, perguntou se precisávamos de alguma ajuda. Como eu, deve ter entendido lhufas daquela pregação que mais parecia anunciar o juízo final. Meu amigo encarou o pastor, me pegou pelo braço, atravessamos a rua. Na porta de um sobrado que já conheceu dias melhores, discorreu sobre a travessia de Guimarães Rosa, recordou as lições do Paulo Nader, voltou ao Rui que, segundo entendi, disse que chega um momento em que o homem desanima da justiça de tanto ver crescer a injustiça.
À janela, uma dona aplaudiu; meu amigo se distraiu agradecendo-a, aproveitei e segui meu caminho; bem menos erudito que ele, popular com muito orgulho como já o disse noutro texto, saí cantarolando o Parabéns da Xuxa, levando na sacola a velinha azul e os brigadeiros e moranguinhos para enfeitar a mesa do níver do meu filhão. Olhei o relógio da São João Batista: o bolo pegarei depois do expediente, pensei, e subi a ladeira.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
— Sol ou chuva?
— Chuva e frio.
— Não pode, padrinho. Só sol ou só chuva.
— Só chuva.
— Mulher bonita?
— Sua mãe.
— Ih, o pai não vai gostar de ler isso...
— Ele vai ler?
— Uai, padrinho, é jornal que eu tô fazendo. Todo mundo vai ler.
— Todo mundo, quem?
— A tia da escola, a mãe, o pai, o vô. E todo mundo que parar pra ler as entrevistas coladas no mural da escola.
— Então, apaga. Escreve Yoná Magalhães.
— Quem?
— Uma atriz já falecida.
— Ô, padrinho, tem que ser gente viva... Posso botar o nome da madrinha?
— Não.
— Por quê?
— Tô brigado com ela.
— Por quê?
— Essa pergunta está na entrevista?
— Não.
— Avante!
— Como?
— Próxima pergunta, menino.
— O senhor ainda não disse o nome.
— Que nome?
— Da mulher bonita.
— Ah, bota aí Vera Fisher, Luíza Brunet, Maitê Proença... Qualquer nome serve.
— Padrinho, a entrevista é séria.
— Paola Oliveira, pronto.
— Homem charmoso?
— Uai, bonito não?
— A tia disse pra falar charmoso, se não os entrevistados não vão responder.
— Por quê?
— Porque homem não acha homem bonito, né.
— É... Escreve Cauã Reymond.
— Desenho animado?
— Papa-Léguas.
— Desenho velho não vale.
— Aquele que você fez na parede, então.
— Não fiz desenho animado, fiz arte. A tia mandou a gente imitar o Kobra.
— E por que não fizeram arte na parede dela?
— Porque ela mora longe.
— Ah, e os “artistas” não podem andar?
— Vou escrever o quê, hein?
— Ah, bota Pica-Pau.
— Cantor preferido?
— O rei Roberto Carlos.
— Posso colocar essa resposta na outra pergunta?
— Por quê?
— Porque a outra pergunta é: se você fosse morar num reino encantado, seria o reino de quem?
— Esse rei que falei é rei da música, não de um reino...
— Ih, padrinho, não complica. É papo reto, sacou?
— Como?
— Super-herói preferido?
— Superhomem.
— Ô, padrinho, é Superman. Mania de velho falar errado. Livro preferido?
— Não sou muito de ler, não.
— Fala qualquer um, menos a Bíblia.
— Por quê?
— Porque todos os entrevistados responderam esse.
— Quem você já entrevistou?
— Não digo.
— Ora, por quê?
— Porque um repórter guarda o segredo das fontes.
— Quem te disse isso, menino?
— A tia da escola.
— Essa tia não tem nada melhor pra ensinar, não?
— Por quê?
— No meu tempo, a gente tinha tarefa de aritmética, fazia conta no ábaco, decorava as capitais, copiava texto no caderno brochurão...
— O velho de novo.
— Olha aqui, seu moleque...
— Calma, padrinho, é só o nome dum livro que lembrei agora.
— Quem escreveu essa marmota?
— Pedro Paulo Pereira do Prado Penteado.
— Por isso não gosto de ler.
— Artista?
— Pintor, escultor, compositor?
— Qualquer um.
— Da Vinci.
— Vinte, não. É um nome só.
— Leonardo da Vinci.
— Ator preferido?
— Vivo ou morto?
— Vivo, padrinho, vivo. Se não ninguém da escola vai saber quem é.
— Tony Ramos.
— É estrangeiro?
— Não.
— Quero estrangeiro.
— Por quê?
— Porque é chique escrever nome estrangeiro.
— E você sabe escrever estrangeiro?
— E-s-t-r-a-n... hum, é com g ou j?
— Te peguei. Eu quis dizer escrever o nome do ator estrangeiro.
— O padrinho também tem dúvida?
— Arnold Schwarzenegger.
— Não... Estrangeiro é com g ou j?
— Próxima pergunta, vai.
— Não sabe, não sabe.
— Isso é trabalho de Português, por acaso?
— Já foi em Portugal?
— Não, por quê?
— Tem uma pergunta aqui que é: qual país já visitou?
— Paraguai.
— Foi fazer o quê lá?
— A tia quer saber isso também?
— O repórter vai além da pauta do editor.
— Sei... Essa entrevista não tem fim?
— Tem, tá acabando. Foi fazer o quê, lá?
— Lá onde, menino?
— No Paraguai.
— Fui comprar cigarro, aparelho de som, televisão e videocassete.
— Video o quê?
— Um aparelho que a gente usava pra ver filme.
— Não tinha dessas coisas aqui na cidade?
— Eu revendia no consórcio.
— Como assim?
— Próxima pergunta.
— Atriz preferida?
— Julia Roberts.
— Pode ser brasileira mesmo.
— Ô, menino, decide.
— Escritor?
— Paulo Coelho.
— O padrinho já leu ele?
— Não, mas minha filha vive lendo.
— Música preferida?
— Tente outra vez.
— É sério, padrinho. Música?
— Falando sério.
— Ô, mãe, o padrinho tá me trolando!
— Vamo embora, filho.
— Falta só uma pergunta, mãe.
— Anda, seu padrinho quer ver a novela.
— Se um ET descesse no quintal e dissesse: faça-me um pedido, o que você pediria?
— Que levasse todos os meninos perguntadores pro espaço.
— Ô, mãe, o padrinho tá copiando a resposta do vô!
Primeiro dia de aula. Como sempre, o ônibus atrasou; já me acostumei: ano passado foi todo assim. Numa noite, o trânsito congestionou a Beira Rio; noutra, o ônibus demorou a cortar as ruas estreitas do Centro; na época das chuvas fortes, os buracos no asfalto reabriram e foi uma dificuldade vencer os vinte quilômetros entre minha cidade e Ares Formosos... Às vezes, eu achava que chegaria no horário, mas o ônibus custava a conseguir vaga no estacionamento; resultado: descer lá longe e andar até a faculdade e encarar seus setenta e um degraus porque o elevador... ah, o elevador vive na promessa da reitoria. Nessas horas invejo a galera da Pedagogia: o curso é no térreo. E ainda dizem por aí que vida de estudante é fácil. Fácil é a vida de parlamentar em Brasília.
Porta entreaberta. O professor, de pé, ereto no terno preto como um sabugo encasacado, lia o que julguei fosse o conteúdo programático ou a bibliografia. Caminhei até o fundão. Doralina, sempre gentil, deixou o caderno marcando lugar para mim. O Gianecchini sorria, sem camisa, na capa. Sentei, enxuguei o suor da testa; Doralina recolheu o caderno, sorriu; ao contrário do Gianecchini, um sorriso compreensivo: antes de se mudar para Ares Formosos, ela também passou pelos mesmos perrengues que eu.
No alto do quadro, em letra feia: DOUTOR CLÁUDIO CÂNDIDO. Os colegas acompanhavam a leitura em folhas A4 semelhantes às do professor-doutor. Pedi-lhe uma. Ele abaixou a folha que lhe encobria parcialmente o rosto mal barbeado; o indicador sujo de tinta empurrou os óculos do nariz, a mão voltou ao bolso da calça.
- Meu caro, não tolero interrupções. Esta foi minha primeira advertência ao adentrar a sala. Mas, como o senhor atrasou-se para a aula... Recapitulando, senhores: atrasos e interrupções não são, e não serão, admitidos; a dinâmica da aula é, como comunicado anteriormente, exposição do conteúdo por cinquenta minutos; findo este prazo, concederei aos senhores, no máximo, dez minutos para perguntas. Friso: perguntas atinentes ao conteúdo abordado em sala de aula; quesitos referentes a tópicos estudados anteriormente não serão admitidos. Vale dizer, os senhores quedarão sem resposta. Matéria lecionada é como água do rio: flui, segue seu curso. O conteúdo ministrado é levado pela correnteza do tempo e o Direito, como os senhores devem saber, não socorre aos que dormem. Regra básica para o bom jurista: nunca perca o prazo. Preclusão, senhores; portanto, aula dada, assunto encerrado. Outrossim, não tolerarei questões sobre tópicos ainda não lecionados; futurologia é para cartomantes, adivinhos e os ingênuos que creem neles. Se os senhores sobreviverem ao longo do semestre, terão oportunidade de ouvir-me prelecionar sobre suas eventuais questões. Dito isto, espero ter deixado claro a metodologia empregada, e espero também não regressar mais a este assunto. Duas coisas enfastiam-me profundamente: I) alunos descompromissados com o horário da aula e II) repetir-me.
Doutor Cláudio destampou a garrafinha que suava ao lado das canetas, bebericou. Não entendi se a careta foi para mim ou em razão do trem esverdeado que engoliu. Ignorou minhas desculpas com um pigarro, tornou a cobrir o rosto com a folha. Doralina puxou a carteira, seu ombro tocou o meu: acompanha comigo. O professor retomou a leitura, voz arrastada, monótono como as ladainhas de novena que ouvi na meninice.
- Ele só vai dar uma aula mesmo?
- Disse que ninguém presta atenção no outro por mais de cinquenta minutos. É científico, diz ele.
- Mas ele vai receber pelas duas aulas né, retruquei, concluindo mais uma espiral no caderno.
- Pois é. E teve a cara de pau de dizer, desse jeito empolado aí: espero os senhores não tenham quesitos, assim regressarei mais cedo à minha casa: tenho artigos para finalizar e publicar.
Doralina imitou a voz do professor, tão direitinho... parecia o Tom Cavalcante imitando outros artistas. Sufoquei o riso, copiei os títulos que o professor acabara de anotar no quadro com sua letra ridícula.
- Estes a inoperante da estagiária não digitou, então os senhores anotem, pois usaremos alguns capítulos do Sussekind a partir da sexta aula, e do Maranhão logo após nossa primeira avaliação.
- Ninguém questionou esse absurdo de apenas cinquenta minutos de aula?
Doralina, com a caneta rosa, transcrevia os títulos em caligrafia caprichada; com a roxa, sublinhou-os duas vezes. Metódica, como sempre.
- O Dauro questionou, foi o único.
- E?
- E o professor disse que a metodologia dele é assim, que tem base científica e respaldo da direção da faculdade... só faltou dizer que foi abençoada pelo papa João Paulo II.
Rabisquei no topo do caderno: ASSHOLE TEACHER. Doralina riu; sinal que meu curso de inglês estava servindo para alguma coisa.
- Uai, e ficou por isso mesmo, ninguém falou mais nada?
- A Danusa pediu pra aula começar um pouco depois das sete. Falou que muitos colegas vêm de outras cidades e chegam atrasados devido ao trânsito e aos ônibus que custam a estacionar... comentou que os outros professores esperam uns dez minutos ...
- E ele?
- Disse que é diferente dos outros professores. E Doralina imitou-o novamente: a começar pelo meu título: caso os senhores ainda não saibam, sou o único professor com doutorado contratado por esta instituição de ensino. O único, aliás, desta cidade provinciana... Depois ele falou que a primavera antecede o verão e as andorinhas, o inverno... não entendi muito bem, acho que quis dizer que o bom aluno chega antes do professor. Ah falou também que não é dono das empresas de ônibus, nada tem a ver com “questões de mobilidade de trânsito”, que os prejudicados devem reclamar na prefeitura, ou sair mais cedo de casa.
- Disgramado filho duma...
- Caso minha preleção esteja a perturbar a confabulação dos senhores aí dos fundos, por favor, avisem-me: não quero ser inoportuno. Posso, outrossim, ceder-lhes a palavra a fim de compartilharem conosco vosso brilhantismo e sapiência. Afinal, o que os senhores têm a dizer certamente é mais instrutivo que minha aula.
Os bajuladores de plantão riram, feito hienas. Encarei o doutor: seus óculos novamente na ponta do nariz, o deboche escancarado entre as desagradáveis rugas de expressão. Danusa, três carteiras à frente, fez um gesto para eu me acalmar. Dauro saiu, deixou a porta escancarada: um grupo do décimo período conversava debruçado no parapeito do corredor; o relógio da igreja de Santo Ivo marcava 7:35; o tempo virava para chuva.
I WILL KILL THIS GUY, garatujei no caderno. Doralina acarinhou minha coxa. Doutor Cláudio bebericou mais um pouco, fez outra careta, tornou a ler. Tentei me concentrar na mão de Doralina ainda a brincar no meu jeans, ousando um pouco além da coxa. Lembrei a noite em que nos entregamos entre as estantes de Constitucional e Penal... por pouco, não ficamos trancados na biblioteca. Não teria sido nada mau, penso. Doutor Cláudio fechou a porta com força, resmungou sobre os alunos no corredor. Àquela altura a mão de Doralina me despertava outros sentimentos, e eu estava pouco me lixando para “o único doutor da instituição”.
Leitura puxa leitura, me disse, certa vez, um professor. Vendo-me, como de costume, lendo no pátio da escola, ele parou e explicou: um livro faz referência a outro(s) livro(s) e a filme(s) e a música(s) que, por sua vez, citam outros livros, filmes e músicas... a espiral de referências é infindável e, assim, vamos acumulando repertório, descobrindo novas leituras.
Antigamente, as pessoas faziam listas de futuras leituras; o professor mesmo tinha um caderno enorme, brochurão e capa dura, onde anotava títulos de livros para comprar e de filmes para alugar. Com a internet, penso, ficou mais fácil para os curiosos sairmos em busca das referências. Vejam o que me aconteceu ontem.
Sexta-feira. O Conservatório fechado, a Praça 28 de Setembro - ó milagre! - respeitando o sossego do contribuinte, aproveitei o raro momento de silêncio para ler Ao correr da máquina, crônica de Clarice Lispector escrita em abril de 1971. Depois de discorrer sobre o amor e a verdade, sobre o “dia lindo de outono” e o “homem que veio consertar o toca-discos”, Clarice diz que assistiu ao filme Cada um vive como quer; e arremata: “tinha música e eu chorei”. Rapidamente meu lado curioso se manifestou: opa! preciso ver esse filme que tirou lágrimas de Clarice... Como eu disse, a internet facilita nossa vida: o filme está no Youtube, completo e dublado. Assisti.
Não chorei, como Clarice; é preciso muito mais para me fazer chorar. Contudo, gostei do filme. Jack Nicholson é Robert, um ex-pianista que rompe com o passado e a família, vive um relacionamento fracassado com Rayette, tem um trabalho e relações de amizade que não lhe satisfazem. Enfim, Robert é o típico homem de trinta e poucos anos que arrasta o viver sem saber para onde... e, além de tudo, tem que ouvir de duas garotas, no fim do boliche, que está ficando careca. Acompanhei o drama de Robert, com atenção. O filme termina do jeito que eu gosto: abrupto, inesperado; só dei conta que acabou porque os créditos surgiram na tela.
Como leitura puxa leitura... o filme tem muitas músicas, algumas executadas ao piano; fui pesquisar na internet: Chopin, Bach, Mozart. Adicionei-as à minha playlist: música clássica, ouvi vários escritores dizerem em entrevistas, ajuda na hora de escrever.
De pesquisa em pesquisa, ocupei a noite, que deixou de ser silenciosa: ganhou até trilha sonora. Quem dera o silêncio noturno fosse sempre rompido desse jeito...
No momento em que escrevo esta crônica, penso no livro que comprei na internet, cuja indicação apareceu numa crônica do Drummond. Espero que o carteiro não demore a trazê-lo... Em Compre livro no táxi, o gauche conversa com um taxista que, além de levar e buscar passageiros, exerce o árduo ofício de vender livros.... o árduo aí vai por minha conta, afinal, em um país onde poucos leem - e são as Senhoras Estatísticas que o dizem, não eu – vender livro não deve ser uma atividade muito rentável.
Quando o livro chegar, talvez eu escreva umas linhas; desde já, torço para que o autor faça referências a outro(s) livro(s), filme(s) ou música(s)... e que eu tenha mais noites silenciosas para ler/assistir/ouvir em paz.
Foto: acervo do autor
Sem subornar teu coração/com feitio de paixão/farei tudo pra ganhar tua confiança...
_ E aí, tá onde?
Eu voltava do escritório ouvindo minha playlist. O fim de semana ainda estava distante, contudo, o bafo da nostalgia já se fazia sentir no meu cangote.
_ Na fila da lotérica.
_Vamo antecipar o happy hour?
_ Hoje?!
_ Pra agora. Camila e eu vamos sair daqui direto pro Lamparina. O Marcondes vai passar primeiro em casa, dentro duns trinta minutos brota lá. A Deise já foi.
Normalmente nos reunimos às sextas. Mas, o mais estranho: ninguém – nem a boquirrota da Deise – comentou nada durante o dia. Quando saí, o Marcondes se queixava dos estagiários com a chefe; o Higor no telefone reclamava do inventário que não andava; o Orestes e o novo estagiário voltavam do arquivo; Deise, sentada na mesa da Camila, debochava da voz de não sei quem.
_ Te pego aí.
_ Não precisa, não. Daqui lá é um pulo.
Camila, em tom alterado, disse “ainda bem que...” Higor desligou. Paguei o boleto, recusei de novo o maldito jogo que a atendente tentava me empurrar, saí.
(...)
O tempo virava para chuva.
Sorria!/Meu bloco vem, vem/descendo a cidade/vai haver carnaval de verdade...
Na porta do clube, um garoto de short e cabelos úmidos riu.
_ Desafino, sim, e daí?
Me mostrou o dedo. Eu o chamei de viadinho. Atravessei a rua.
(...)
Deise escolhera uma mesa na calçada. É uma estúpida, mesmo: se chover, teremos que sair correndo como na semana passada... Guardei os fones no bolso da camisa, sorri. Vou aproveitar que os outros não chegaram pra saber, tintim por tintim, o porquê de anteciparem o happy hour. Braço no encosto da cadeira, perna cruzada feito um menino desengonçado, Deise fumava cigarro eletrônico.
_ Aroma de cereja.
Soltou uma baforada. Mas a fumaçada da churrasqueira e o futum do bueiro não me permitiram sequer imaginar como seria o tal aroma. Falou do tempo, que o primo perdeu tudo em Petrópolis... já, já entra no que interessa, pensei.
_ O pessoal não tá satisfeito com a chefona.
Bingo. Se eu tivesse sorte assim no jogo, teria comprado aquele bilhete.
_ A panelinha reuniu ontem no Bar da Praça. Com direito a fotinhas nos stories... Precisa ver que ridícula aquela estagiária do ladinho da chefona, arreganhando a carantonha com uma mandioca na boca... E o Orestes? No karaokê, se insinuando pro estagiário bombadinho...
Deise sempre bem informada. Por isso, dou corda.
_ Ih, deixei de seguir essa gente faz tempo.
Ela soltou a gaitada costumeira. Higor e Camila chegaram. Deise, à meia voz:
_ Repara, discutindo de novo. Um ano morando juntos e eles brigam como velhos rabugentos que se suportam há quarenta anos.
Camila me cumprimentou formalmente, sentou-se ao lado de Deise. Higor parou com dois sujeitos que riam e falavam alto.
_ Fez outra grosseria no carro. Tô sufocada...
Não estendeu o assunto: Higor se aproximou, deu tapinhas nas minhas costas, puxou a cadeira pro meu lado:
_ Aquele careca com a camisa do Vasco é o tal agiota que te falei noutro dia. Bancou a candidatura da prefeita e do atual presidente da câmara. O outro é irmão dele, foi nomeado secretário de cultura e turismo.
Deise soltou outra baforada:
_ E desde quando tem turismo nesse cu de mundo?
_ Nem cultura.
Camila alfinetou, tirando o celular da bolsa.
O Lamparina trouxe uma porção farta de torresmo, mandioquinha e linguiça. O vascaíno fez um brinde pra nós; Higor acenou. Como não me envolvo na vida política da cidade, fiquei quieto.
(...)
Marcondes tinha dificuldades para fazer a baliza. Deise aproveitou a deixa:
_ Carteira comprada dá nisso.
Camila pediu chope, Higor a acompanhou. Querendo fazer média, ela sussurrou para Deise. Marcondes, enfim, chegou à mesa.
(...)
Em casa, fiz o balanço da noite: Deise falou de Deus e o povo; Marcondes reclamou dos estagiários e da chefe; Higor contou em detalhes os esquemas do agiota; Camila não desgrudou os olhos do celular, atenta às mensagens de duplo sentido que eu lhe enviava. Eu ouvia tudo o que os colegas diziam e assentia sorrindo. Afinal, como disse Cartola: a sorrir/eu pretendo levar a vida...
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
Na crônica de hoje, eu poderia discorrer sobre a Páscoa e seu significado, citar passagens bíblicas, comentar sobre o sermão desta manhã... poderia, contudo, não o farei. Afinal, o leitor conhece tudo isso de cor e salteado e, se ainda não conhece, certamente é porque não se interessa por tais assuntos. Por outro lado, poderia me queixar das barras de chocolate (cada vez menores e mais caras), lamentar que os bombons estão mais açucarados e com menos chocolate; poderia também me lamuriar acerca dos preços da cenoura, do bacalhau, dos ovos de chocolate, do tomate, do azeite que anda caro e com gosto de óleo... mas isso a leitora também sabe pois, assim como eu, vai ao mercado diariamente. Enfim, motivos não faltam para dar um ar queixoso à minha crônica. Todavia, a Páscoa não merece ser maculada com as reclamações de um cronista/consumidor.
Escrever é preciso, principalmente quando nos propomos o desafio de escrever semanalmente uma crônica. Às vezes, não é fácil encontrar um assunto; mas, tal como os paleontólogos e os arqueólogos que não desistem e cavam mais fundo, vou escarafunchando assuntos.... ainda que sejam os preços dos pescados ou dos chocolates. Quem para de procurar não se renova, disse Ivan Ângelo. Uma vez que hoje é domingo e preciso cumprir minha missão... mãos à obra.
Páscoa. As manhãs de Páscoa trazem sempre a lembrança dos meus sete anos. Oh idade linda, de ingenuidades e fantasias, época em que os sonhos povoam nosso cotidiano e ainda somos capazes de enxergar nas nuvens castelos e unicórnios e balões e dinossauros... Na escola, escolheram algumas crianças para participar do teatrinho sobre a Páscoa; da classe da tia Rosa, se não me decepciona a memória, fui o único escolhido. O figurino, simples: a meninada em traje de banho, um pompom branco colado no traseiro, dentões de plástico, orelhas de coelho feitas à cartolina. Rosto e nariz pintados, as tias nos fizeram sentar no comprido banco de madeira atrás da cantina; impacientes, esperávamos para entrar em cena.
Quando a diretora, finalmente, deu a deixa, caminhamos enfileirados sob o sol e, saltitantes como coelhinhos felizes, nos apresentamos no palco improvisado. Não recordo se decoramos alguma fala, acho que não: éramos muito pequenos, alunos ainda em alfabetização... Na plateia, crianças, pais, professoras, cantineiras, o pessoal da secretaria.
Depois da apresentação, cestinha de vime à mão, voltamos às nossas respectivas salas; como bons coelhinhos, fomos distribuir nossos ovos de chocolate. Os coleguinhas, ansiosos, esperavam nas carteiras; um ou outo bestalhão fez piadinhas igualmente bestas... no fundo, no fundo, morrendo de inveja por não participar da brincadeira.
Naquela tarde festiva e ensolarada, tias e merendeiras também ganharam seu quinhão: um ovinho embrulhado em papel celofane colorido. E, assim, a tarde passou, no ritmo da brisa que relava a bandeira no mastro, no ritmo do trem que executava a última manobra do dia, no ritmo das rodas da carroça que rangia na rua levando leite, queijo ou doce.
A criança que ainda se esconde em algum cômodo do meu ser corre e grita e reina neste domingo de Páscoa; suas peraltices atiçam minha memória, dão trabalho à caneta: a sunga marrom-claro que a mãe encomendou à costureira especialmente para o teatrinho, o gramado retomando as cores no outono, minha sandália, os trabalhinhos colados no mural, os coleguinhas recortando orelhas de coelho nas cartolinas e pintando cartõezinhos de “feliz Páscoa”, as folhas mimeografadas ainda cheirando a álcool, o coqueiro na porta da farmacinha indiferente ao vaivém escolar...
O vento sussurra na fresta da janela: recordar é viver... sei lá; só sei que às vezes dá vontade de regressar à Prof. Ormindo. Mas, enquanto não inventam a máquina do tempo, fico com minhas doces e chocolatíferas lembranças de Páscoa. E encerro esta crônica, que começou resmungona e rapidamente enveredou para o saudosismo, com o ensinamento de Paulo Coelho: se escutamos a criança que temos na alma, nossos olhos voltarão a brilhar.

Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
_____Tenho cabelos brancos. Muitos cabelos brancos. Faz tempo que os tenho. E a cada dia surgem mais, por todos os lados. Não gosto deles; contudo, não vou pintá-los: acho ridículo cabelo pintado. Quando os homens pintam de preto, parece que carregam um corvo; ficam como Johnny Depp em O Cavaleiro Solitário... Ou seria gralha aquele bicho emplumado que vivia na cabeça dele? Não importa: corvo, gralha ou anu é ridículo do mesmo jeito.
_____Por outro lado, se tingir meus cabelos de acaju, como faz certo doutor que passa todo dia na minha porta, dirão: ó, um urutau está ninhando na cabeça do cronista... porque eu penso isso sempre que vejo o doutor (não digo, porque temo ser processado, mas penso). Nem a sua pasta velha, seu terno amarrotado e sua cara de boi cansado me chamam tanto a atenção quanto seus cabelos. Enfim, preto ou acaju, o cabelo fica igualmente ridículo.
_____Resigno-me, então, aos cabelos brancos. Deve ser melhor tê-los que levar a cabeça pelada como os habitantes de Tatipirun. Afinal, o que tem de careca sonhando com cabelos, ainda que brancos... as perucas e os implantes que o digam. Pensando bem, eu não deveria escrever sobre questões capilares: vai que algum deus zombeteiro lê e arranque-me todos os cabelos, brancos e não-brancos... “Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados (...) encontrou-se em sua cama metamorfoseado” num tristíssimo velhinho, sem um fio sequer de cabelo. Parece que ouço as gargalhadas divinas, insensíveis ao meu dilema quase kafkiano.
_____Suporto, então, meus cabelos brancos. Homessa, o que se há de fazer, indago ao espelho. Sem resposta, observo a brancura capilar. Como o servo ante o senhor, a caça ao caçador, o desejo ao amor curvo-me, sem jeito e resignado.
_____Tenho cabelos brancos. Cabelos brancos que me açoitam toda manhã: o tempo passou, meu caro, agora és o tio da Sukita, em pouco serás como o Painho da novela Renascer, daí para virar o Mestre dos Magos será um pulo, um reles piscar de olhos. Meus cabelos brancos lutam e vencem e esfregam na minha cara o que o corpo diz há certo tempo: já não tens mais vinte e poucos anos. “O que que há, velhinho?” Agora entendo como o Pernalonga era maldoso...
_____Outro dia, em um fim de tarde burocrático, uma senhora que atravessa os trinta me disse: cabelo grisalho em homem é charme. Olhei a rua, os adolescentes saindo da escola, pensei: as pessoas e seus eufemismos, talvez trocando branco por grisalho achem que suavizam nosso outono. Sorvi as últimas gotas do chá, vesti a máscara, resmunguei – de uns tempos para cá dei pra resmungar como o Detetive Rabugento. A burocrata continuou o assunto, falando nos artistas grisalhos... tive ganas de dizer-lhe algo indecoroso, uma palavrinha atrevida quase saltou de minha garganta feito um refluxo, mas me contive, em respeito à sua idade, e aos seus cabelos pintados.
_____Na cabeça do Édson Celulari, do George Clooney, do Hugh Grant, do Fábio Assunção, do Richard Gere ou do Brad Pitt cabelos brancos podem ter lá seu charme. Mas como estou anos luz de ser galã, passo os dias olhando a branquitude que se espraia em minha cabeça. Sem opção e resignado, “toco a vida pra frente/fingindo não sofrer”.
Mais uma vez Umberto colocou os livros na mala, decorou meia dúzia de poemas e frases que, supôs, causariam efeito na plateia, copiou versos de Adélia Prado. Vai ser bom ler algo de uma conterrânea, afinal, a gente tem que puxar a sardinha pro nosso estado. Achou que o trocadilho agradaria ao público, anotou-o. Na manhã seguinte, conferiu a quantidade de exemplares na mala – 48 –, a escova e a pasta de dentes, as roupas emboladas entre eles. Empurrou o pão murcho com Doriana, colocou um livro na jaqueta, saiu.
Canarinhos e pardais brincavam na rua. Desde menino, Umberto admirava a elegância das aves, sobretudo, a liberdade das aves. Arrastando a mala pela calçada, desejou estar em um desenho de Walt Disney: provavelmente os passarinhos o ajudariam a levar a mala... Versos e esperança pesam pra caramba, pensou.
O ônibus atrasou, como sempre. Não bastasse isso, ficou quarenta e cinco minutos parado na cidade vizinha: para fazer conexão, explicara o trocador. Essa empresa copia o que há de pior nas companhias aéreas, ouviu de uma passageira. Como nunca voara, Umberto sorriu, sem saber o que dizer. Embarcaram novamente. Poltrona dura, ônibus mais fodido que o outro, resmungou.
A estrada tá tão esburacada quanto as calçadas da cidade, alguém comentou. Umberto tentou focar na leitura, apesar dos solavancos. Lá pelas tantas, largou o livro; arrependeu não ter trazido o Jorge Amado: ele, sim, é excelente companheiro de viagem. Recostou a cabeça: disgreta de livro, quase nenhum enredo, esse portuga escreveu um monte de descrições cansativas e desnecessárias... único ponto positivo: chama o sono.
Acordou horas depois, com o barulho da cidade. Essa chuva vai esticar pelo resto do dia, afastar o público do evento, previu. Não deu outra: pouquíssimas pessoas compareceram. Umberto declamou seus versos e as frases sem, contudo, causar o efeito esperado; ao ler os poemas de Adélia (na última hora o bom senso imperou, não fez o trocadilho), aplaudiram-no.
Uma escritora lhe pediu que lesse a crônica mais recente dela: sua voz me lembra o Lombardi, vou filmar pra postar no meu canal. Umberto riu, recordando a infância: nos domingos frios e chuvosos passava o dia inteiro assistindo o Sílvio Santos com a mãe...
Após o sarau, um homem corpulento, de chapéu e botas de couro, rosto curtido de sol e fartos bigodes se aproximou, pegou o livro, perguntou se podia pagar com PIX.
_ Me chamo Arizona. Arizona Stone.
Umberto, lembrando os filmes de bang bang que via com o pai nas tardes de sábado, pensou em escrever: para o gatilho mais rápido do oeste, estes versos, árduos como o sol e o solo texanos, com um empoeirado abraço do xerife... Arizona, mãos na cintura, esperava a dedicatória com jeito nada amistoso. Umberto garatujou: um abraço do autor, e datou. O homem recebeu o livro, sacou o celular para mostrar o comprovante de transferência, atravessou o salão. Sorrindo, Umberto recordou o que pretendera escrever: até hoje não saí da quinta série, falou para os livros espalhados na mesa.
A romancista que lançava seu quinquagésimo quarto livro o encarou. Maldoso como só um moleque da quinta série sabe ser, Umberto comentou:
_ Pelo visto, não sou o único que vende pouco...
Furiosa, a mulher foi conversar com os organizadores. Ele riu. A tarde se arrastava, a enxurrada levava folhas e sacolas. À janela, Umberto contabilizava: sonhos e livros nos estandes; nos bolsos, caraminguás. Como no ano passado, suspirou, embaçando o vidro.
No final do dia, muitos escritores trocaram livros e afagos.
_ Parecem meninos trocando figurinhas; falta bater bafinho.
Os contistas olharam-no com espanto, os poetas com desdém, os romancistas sorriram condescendentes. Os cronistas convidaram-no para um chopinho. Umberto recusou: encerraria o dia no hotel, rascunhando bobagens e assistindo à novela.
A chuva varou a noite, deixando-o melancólico. Ele sabia que a acusação fora injusta: ainda que fizesse sol, o público não compareceria; “isso aqui é um pouquinho de Brasil”, concluiu, encarando o livro. Portuga duma figa, você não volta comigo pra casa, não. Abriu a gaveta, jogou-o sobre a bíblia. O próximo hóspede talvez goste dessa porcaria. Deitou, para cair nos braços de Morfeu, como o pai lhe dizia todas as noites.
Texto: Raphael Cerqueira Silva
Foto: acervo do autor
chegará o amor como no ipê, a flor: súbito no viés da noite quando menos se espera Imagem: criada pelo Chatgpt Poema: Raphael Cerqueira S...